Desde o tempo em que juntos estudamos no antigo e insuperável Colégio Culto à Ciência, de Campinas, Joaquim Cândido de Oliveira Neto, o saudoso Quinzito, fundador e diretor deste O Município, sanjoanense de coração, e eu, campineiro medular, mantivemos uma amizade que durou mais de 60 anos. Só a morte, com sua foice implacável, ceifando a vida de Joaquim, junto ceifou essa amizade, a qual nem o tempo nem as vicissitudes da existência ousaram interromper.
Durante esses sessenta e tantos anos, desloquei-me inúmeras vezes a esta cidade tão acolhedora quanto a casa de Joaquim, primeiro na Fazenda Laranjeira, depois no núcleo urbano; antes com a delicada recepção dos pais do meu amigo, a seguir na linda família que ele formou com Vera e os filhos Quim e Bel.
Joaquim Cândido jamais foi um elitista deslumbrado. Ao contrário, quando falava de sua família de origem, tanto do lado do pai, Seu Tinhão, quanto da mãe, Dona Sofia, era sempre com modéstia que se referia aos vultos ilustres do passado ou do presente. Não deixava jamais de se referir ao avô paterno, imortalizado em bronze num logradouro de São João. Era o “vô da estátua”.
Fiquei devendo ao Joaquim algumas palavras sobre meu avô paterno, que ele não chegou a conhecer, embora tivesse conhecido minha avó materna. Vou tentar hoje suprir essa falha, trazendo, não para o Joaquim, que subiu para o camoniano “assento etéreo”, mas para sua extensão, este jornal, que segue vivo e saudável, algumas palavras sobre Seu Fagundes, pai de meu pai.
Pena que eu não tenha convivido mais com ele, Facundo Montes Parra, conhecido de meia Campinas como “Seu Fagundes”, ou “o Parra”. Eu tinha dezoito anos quando ele morreu aos oitenta e seis. É verdade que dos meus dezoito anos ao tempo do seu passamento, dezesseis eu havia estado bem perto dele, em Campinas, no sobradão da esquina de Treze de Maio com Álvares Machado, ao alto da Casa Parra, que ele fundara.
Quando o telefone da casa em que eu morava com minha mãe, no bairro do Cambuí, tocou para dar a triste notícia de sua morte, eu, como o náufrago de Eliot, refiz na memória o tempo todo que havia estado com ele.
Seu Fagundes nasceu em 1872 no Noroeste da Espanha, em Fermoselle, município da província de Zamora, na comunidade autônoma de Castela e Leão. Essa cidade tem muita importância na história espanhola. Sua origem remonta a mais de 2.000 anos. Fica na divisa com Miranda do Douro e Mogadouro, de Portugal. O menino Facundo se divertia comunicando-se com os petizes lusitanos de uma das margens do rio à outra.
Ao sair de sua terra natal, em 1893, aos 21 anos, o Parra vai para Marrocos, onde luta pela Espanha na chamada “Guerra de Margallo”, iniciada em 1893 pelo sultão marroquino Hassan I e encerrada em 1894 com o Tratado de Fez, assinado pelo rei da Espanha Afonso XIII. Durante o conflito Facundo é dado como morto e é amortalhado para ser sepultado. Ocorre que o comandante da unidade tinha se afeiçoado ao combatente Parra e quis vê-lo já com a mortalha. Olhou-o bem, passou-lhe a mão na testa, percebeu-a quente, movimentou-lhe o braço, observando que não havia nem a frialdade nem a rigidez cadavérica. “No está muerto”, disse, ordenando que fosse recolhido e tratado na tenda hospitalar, onde recobrou plenamente a vida.
Findo o conflito, resolveu mudar de vida. Embarcou para o sul da América, veio para o Brasil, fixou-se no estado de São Paulo, de início em Cosmópolis, a seguir em Mogi Mirim. Empreendedor, corajoso, desbravou matas, foi acometido de malária, ou maleita como era mais conhecida, safou-se da doença inclusive por meios alternativos, e logo estava estabelecido com um armazém de secos e molhados. Saiu-se muito bem no negócio. A tal ponto que em breve comprava uma das maiores fazendas de café da região. Pena que tenha se desfeito dela devido à grande recessão iniciada com a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929. O preço do café desabou.
A vida, porém, continuou. O armazém tornou-se uma grande loja de tecidos e armarinhos, a Casa Parra. Nos últimos tempos de sua vida, quando o único trabalho que se impunha era o de limpar, com uma escova e sabão de coco, o terno de casimira inglesa cinza com listras verticais, costumava ir à praça em frente ao Mercadão e adjacente ao grupo escolar “Correia de Melo”. Nela, fotógrafos lambe-lambe disputavam o espaço com grupos reunidos em torno de oradores, que prometiam a salvação da pátria ou da alma. Nesse tempo, Facundo, que já lutara pela pátria no Marrocos (“Fui servir ao Rei”, dizia), pensava agora mais na alma – e ouvia com atenção oradores religiosos.
Espanhol da divisa com Portugal, combatente na guerra do Marrocos, dado como morto e mesmo assim revivido, audacioso, corajoso, enfrenta e vence todas as dificuldades na sua nova pátria brasileira, comerciante de sucesso e fazendeiro que lutou na pior crise do café… assim foi meu avô. Figura incrível, a desse incrível Seu Fagundes.

Sérgio Castanho, doutor em Educação, é escritor, professor colaborador da UNICAMP e titular da Academia Campinense de Letras.




