Leite e Café

Saudades de um café com leite fresco, um pedaço de rosca e uns biscoitos de polvilho no final de tarde, quando minha avó servia o brodo ao meu avô acompanhado de um filão de pão para molhar no caldo. Costume de um, entre muitos italianos que vieram para essas terras de São João da Boa Vista. Imigrantes que encontraram paz no Brasil, que crescia cheio de culturas e técnicas trazidas da Europa proliferando-se na região de terras boas da grande Mogiana. Junto com eles, vieram muitas raças de gado, galinhas, suínos, equinos, sementes e muita força de trabalho com tradição.

São João da Boa Vista chegou a ser a segunda maior bacia leiteira na década de 70. Quem não se lembra da Leco, ali perto da Esportiva, com as carrocinhas carregadas de latões de leite amarrados na guarda da carroça, dos tratores e camionetas? Vinham de todos os lados: da estrada velha da Vargem, da Serra da Paulista, da Capituva, do Pico do Gavião… de uma zona rural habitada de colônias familiares, escolinhas e capelas que ainda resistiam à tentação política industrial de retirada do homem do campo para uma vida melhor na cidade.

Essa resistência foi se enfraquecendo e o país do Agro se esvaziando de vida e as cidades se enchendo de problemas, colocando muitos à margem, ao ponto de se perguntar: Como o país do Agro teve seu êxodo rural aclamado como benefício para as pessoas e para o campo?!

Claro que temos vários números positivos de crescimento. O setor Agro de commodities se moderniza cada vez mais, o trabalho braçal diminuiu e a produção aumentou, sendo braço forte da economia, mas… e as vocações particulares de cada município, cadê?
Cadê nosso setor produtivo do agronegócio local voltado a nossa nata vocação para propriedade leiteira? Nossos estábulos, silos, sedes, paióis estão em ruínas. As casas de colonos estão abandonadas, alguns terreiros de café também. Não se encontra quase ninguém para trabalhar no campo, nem para roçar, quanto menos para cuidar de rebanhos.

O mercado engoliu o pequeno produtor que, muitas vezes, não obtém nem o preço do custo do litro de leite produzido. A força política deveria abrir mais espaço para o sindicato rural, reuniões para ouvir o produtor, suas exigências, suas demandas, uma comitiva política para buscar recursos para revitalização do nosso setor leiteiro e voltar a ser produtor de leite. Por que não? Nada sofisticado, raças certas e um sistema que combina com a região, como por exemplo: girolando, duas ordenhas com bezerro no pé, com bem-estar animal sem usurpar a vaca, mas com subsídio do governo. Não é preciso produzir muito com muito, mas sim o bastante com os recursos de uma situação rural autossuficiente e sustentável. Sustentável no solo, nas rotações de pastagens, no uso de silagens próprias produzindo com pessoas empregadas, treinadas e subsidiadas no campo e com pouca dependência do externo.

Conseguimos subsídios para tanta porcaria que só levam a luxúria e divertimento, por que não revitalizar o nosso entorno rural nos “moldes antigo”? Com boas linhas de crédito, muita capacitação profissional de base, condições de moradia boas, movimentação no campo, estradas boas, logística eficiente, laticínio enfim…

Aplicar tecnologia no setor rural local atendendo a vocação natural da região, povoar o campo e usar cada centímetro do solo de forma sustentável é mais plausível do que querer chegar a Marte.

Plínio Aiub é médico veterinário especialista em animais silvestres.

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