Por Ignácio Garcia
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Sem “rótulos”, estigmas ideológicos, defensor do bom diálogo e do bom senso, Dom José Carlos Brandão Cabral, que em 3 de agosto foi nomeado pelo papa Francisco como o novo e sexto bispo da Diocese de São João da Boa Vista, concedeu entrevista exclusiva ao jornal O MUNICIPIO e traçou um pouco dos seus anseios de somar esforços junto às forças vivas da população local e regional, em prol de uma sociedade mais humanizada.
Impulsionado pela nova missão e baseado nos princípios da unidade, da comunhão entre as pessoas e do respeito diante das diferenças, pilares da Comunidade Cristã, Dom Cabral chegará movido pela mensagem emanada pelo Santo Padre, em 2014, quando de sua participação em curso oferecido pela Santa Sé: “sejamos pastores com cheiro de ovelhas; ter habitual e cotidiano cuidado com o rebanho; acolher e caminhar com o rebanho; ter um profundo afeto para com os sacerdotes que são os primeiros próximos do bispo…”.
Entre os dias 23 e 24 de agosto, o novo bispo estará em São João para tratar acerca da Posse Canônica, pré-agendada para 6 de novembro, às 10h, no Centro de Integração Comunitária (CIC).

O MUNICIPIO — Em sua mensagem aos sanjoanenses, logo de sua nomeação, o senhor mencionou a ideia de retomar o projeto de “igrejas-irmãs” em favor das dioceses mais pobres. Como, exatamente, se desenvolveria esta ação?
Dom Cabral: O projeto “Igrejas Irmãs”, foi criado em 1972, pela nossa Conferência Episcopal (CNBB). Este projeto é uma forma de comunhão e solidariedade com as dioceses mais carentes, tanto em nível de Brasil quanto no exterior, sobretudo com a Igreja do Continente Africano. Quando participei da Assembleia Geral dos Bispos em Aparecida, em 2014, fui procurado pelo então bispo de São João da Boa Vista, Dom Davi Pimentel, de saudosa memória, o qual me dizia que Almenara tinha sido “adotada”, como diocese irmã, de São João da Boa Vista. Na época agradeci a Dom Davi e até disse a ele que precisaria de um ou dois padres para Almenara. Porém esse projeto não “saiu do papel” e nunca foi concretizado. Quem “adotou” Almenara com sua “irmã”, foi a Arquidiocese de Mariana, com a chegada de Dom Airton que já colaborou conosco com o envio de dois padres: um ficou 6 anos e o outro 3. Há a possibilidade do próximo ano enviar outro. Penso que a Diocese de São João da Boa Vista já colabora com outras dioceses carentes do norte do Brasil, com o envio de padres para atuarem pastoralmente, porém, caso seja possível, podemos retomar o velho projeto com Almenara. Hoje, a Igreja do Brasil insiste na “formação missionária” dos nossos seminaristas, ou seja, criar a consciência dessa dimensão que é o “jeito de ser da Igreja”, de viver em “estado permanente de missão”; isso é muito enriquecedor, essas experiências, e falo a partir da minha própria realidade, desses quase 9 anos que vim trabalhar aqui no Vale. Por outro lado, há que se respeitar a liberdade de cada um, que não seja um projeto imposto, mas proposto.
O MUNICIPIO — Seu antecessor teve o trabalho marcado por um grande número de transferências de padres entre as paróquias e foi alvo de críticas de parte dos fiéis por esta postura. O senhor entende que a missão católica implica em movimentação do clero ou prefere que os sacerdotes criem raízes e sejam referências para a população de suas paróquias?
Dom Cabral: Todo padre, quando é nomeado para uma paróquia, recebe uma Provisão, que é o Documento que o legitima para exercer seu ministério naquela paróquia. Aqui no Brasil, a Conferência Episcopal determinou que esta provisão tem a duração de 6 anos, ou por tempo indeterminado, para párocos. No entanto, não costumo fazer disso uma “camisa de força”, ou seja, levar ao “pé da letra” a norma canônica. Parto do princípio que todos nós, padres, bispos, diáconos, estamos todos a serviço da Igreja, da sua missão e que por isso exige de todos nós abertura, flexibilidade diante das necessidades da Igreja; costumo dizer que nós não somos “propriedades privadas” de nenhuma comunidade, de nenhuma diocese, nossa missão contempla o desinstalar-se, pôr-se a caminho, pois foi isso que prometemos no dia da nossa ordenação. Cada bispo adota uma pedagogia acerca de transferências de padres; a minha pedagogia é aquela: “time que está ganhando não se mexe”, ou seja, se o padre está feliz na paróquia, desenvolvendo um bom trabalho na pastoral, é criativo, zeloso, não tem sentido transferi-lo, arbitrariamente, sem nenhum motivo justo; penso que deva prevalecer o bom diálogo, o bom senso quanto às transferências. Às vezes é o próprio padre que pede para sair, fazer novas experiências, com novas pessoas, o que acho legítimo e a comunidade irá fazer uma experiência nova com outro pastor e isso tudo é muito enriquecedor.
O MUNICIPIO — Pouco antes da pandemia, o senhor esteve com o papa Francisco?
Dom Cabral: Íamos ter o encontro com o Santo Padre, nós bispos do Leste II, por ocasião da “visita ad limina” há dois anos, antes da pandemia, mas a viagem foi cancelada, iremos, agora, dia 13 de outubro, até o dia 27; irei representando a Diocese de Almenara, pois já enviamos o relatório quinquenal que cada diocese tem que apresentar. Estive com o papa Francisco em setembro de 2014 quando do curso que a Santa Sé oferece para bispos novos; em seu discurso, o papa frisou alguns pontos inerentes ao ministério episcopal: “sejamos pastores com cheiro de ovelhas; ter habitual e cotidiano cuidado com o rebanho; acolher e caminhar com o rebanho; ter um profundo afeto para com os sacerdotes que são os primeiros próximos do bispo…” O papa lembrou, ainda, que dentre tantos deveres do bispo, o primeiro dele “é o acompanhamento espiritual do presbítero”, sem esquecer das necessidades humanas de cada sacerdote.
O MUNICIPIO — Comunicação é um tema essencial quando se fala na pregação do Evangelho e, em nossa Diocese, há uma clara necessidade de reformulação nesta vertente. Qual é sua postura na área das Comunicações Sociais? Pretende desenvolver algum trabalho especial a este respeito na região?
Dom Cabral: Penso que temos que aproveitar tudo que a tecnologia oferece no quesito “comunicação”. No mundo moderno, na era da tecnologia, da comunicação, não podemos ficar alheios porque tudo caminha muito rápido hoje, vejo que é uma ferramenta essencial na evangelização, daí o importante papel da “pascom” nas paróquias e comunidades. É um bom investimento a formação dos nossos padres e leigos e bispos também, nessa área, para utilizar melhor essas ferramentas. A pandemia ressaltou muito bem a importância de se “transitar” pelos meios de comunicação; aqueles que não tinham muita afinidade com essas ferramentas, tiveram que aprender, pois tinham que transmitir missas, fazer vídeos conferências, etc…
O MUNICIPIO — O papa Francisco tem posicionamentos que o fazem ser interpretado como modernista. E o senhor, se considera um religioso modernista ou tradicionalista?
Dom Cabral: Os rótulos estão sempre dando a “tônica” no comportamento das pessoas, na sua visão de mundo, na forma como se comportam: centro direita x centro esquerda, conservador x progressista, e por aí vai. Penso que o papa Francisco, através da sua atuação, é um homem que sabe “ler os sinais dos tempos”, sempre na escuta profunda do Espírito Santo para conhecer o que Ele está dizendo à Igreja nesses tempos atuais, difíceis. Recordo aqui de papa João XXIII quando propôs o Concílio Vat. II, orientado pela expressão chave “aggiornamento”, que evoca “atualização”. Foi um verdadeiro “pentecoste” na Igreja, pois a partir daí ela “abriu portas e janelas”, para “entrar um pouco de ar fresco”, como disse à época o papa João XXIII. É natural que vamos sempre ter oposições na caminhada da Igreja, há aqueles que não querem mudanças, preferem ficar instalados na falsa segurança que a instituição oferece e, portanto, se fecham, rompem até com a comunhão em nome de certas tradições. Se observarmos a prática de Jesus, ele sempre pôs acima da tradição a pessoa humana e por isso foi rompendo com certas práticas legais, de purificação, do “sagrado”, pois, para Ele, nada é mais sagrado do que a pessoa humana. Quando colocamo-nos na escuta profunda do Espírito, acolhendo sua inspiração, sua criatividade, aí não há espaço para “rótulos”.
O MUNICIPIO — Nem só de religião se faz uma liderança católica. É praticamente obrigatório que um bispo se relacione com as autoridades públicas de sua região e, vez ou outra, se manifeste diante dos acontecimentos. Em Almenara (MG), ainda sua Diocese, o senhor foi veementemente contra a expansão de uma mineradora e deixou clara sua posição. O senhor tem facilidade de assumir posicionamentos quanto a temas polêmicos?
Dom Cabral: A relação com a sociedade civil, com as foças vivas da cidade, com as autoridades constituídas e com outras denominações religiosas, deve sempre ser pautada pelo respeito mútuo, cordialidade e pela soma de esforços em prol do bem comum. Quando está em jogo a defesa do bem comum, da “nossa casa comum”, da cidade, aí é de interesse de todos, homens e mulheres de boa vontade, pois, não podemos sentir-nos, nos dizeres do papa Francisco (Fratelli tutti, 97), “estrangeiros, forasteiros na sua própria terra”. Todos somos cidadãos e temos o dever de participar da vida da cidade, da sociedade. Com relação à mineração, aqui em Almenara não temos muitas, apenas uma, de grafite, diferentemente do centro de Minas, onde a agressão ao meio ambiente é bem maior. Temos aqui no território da Diocese uma região bastante cobiçada, denominada “Cabeceira do Piabanha”, um lugar “paradisíaco”, com muitas nascentes, montanhas enormes e povos originários residentes por lá; há um projeto de uma mineradora de iniciar uma grande extração por lá; houve uma grande mobilização da população residente, dos nossos agentes da pastoral da terra, deputados que defendem aquela região, pois, é de preservação ambiental. É evidente que situações como essas, a gente é chamado a apoiar, estar presente, pois se trata do “urgente desafio de proteger a nossa casa comum…”, como nos recorda o Santo Padre na Laudato Si.
O MUNICIPIO — Falando nisso, gostaria que o senhor esclarecesse acerca da “Carta ao Povo de Deus”, documento de julho de 2020 e que colocou em xeque a atuação do presidente Jair Bolsonaro em diversas questões. Algumas fontes consultadas indicaram que o senhor chegou a assinar a “Carta” e, posteriormente, solicitou a retirada da assinatura. O que de fato aconteceu? O senhor assinou ou não? (Em algumas publicações pesquisadas, o nome do senhor ainda aparece como um dos signatários; em outras não!)
Dom Cabral: Em 2020 fui procurado para assinar uma carta aberta em favor da democracia, defesa do estado de direito, da preservação da Amazônia, defesa da ciência e vacinação (estávamos em plena pandemia). É evidente que concordei, sobretudo em se tratando da defesa de “valores pétreos” da sociedade brasileira e, sem ler o conteúdo da carta, autorizei que colocasse meu nome. Uns dois dias após, fui notificado de que se tratava de uma carta com viés ideológico, que a referida carta tinha um “destinatário”. Desta forma solicitei que retirasse meu nome o que foi prontamente acolhido. No entanto, a primeira postagem saiu com meu nome, somente as demais posteriores não continham mais. Por que essa minha atitude? Hoje vivemos numa sociedade marcada pela polarização, sobretudo política, marcada por ideologias; a ideologia, no senso comum tende a ser manipuladora, se torna instrumento de dominação, de manipulação de consciência; é uma visão de mundo, de sociedade de uma pessoa ou de um grupo que procura, a qualquer custo, impor sua visão social, política, religiosa a outrem e, por causa desse “ideário”, muitos rompem-se com amizades, se fecham em guetos, comprometem a democracia, pois querem impor sua visão. Penso que não podemos “fazer coro” a isso. Dias desses li numa reportagem a seguinte frase: “quando os amigos deixam de jantar com os amigos por causa de ideologias, o país está maduro para a carnificina…” Uma das “colunas” da Comunidade Cristã é a unidade, a comunhão de pessoas, o respeito, sobretudo pelas diferenças e por isso não temos o direito de comprometer essa unidade por causa de ideologia nenhuma, seja ela política ou com outro viés. No âmbito político e dentro do espírito democrático assegurado pela Constituição, só nos resta respeitar a decisão soberana do povo através do voto livre. Sempre tive um bom diálogo com pessoas com opções políticas de “A a Z”, sempre dentro de um alto nível de diálogo, de boa conversa. Oxalá reinasse esse clima respeitoso diante das polarizações, das diferenças: a sociedade respiraria melhor.
O MUNICIPIO — A Igreja Católica sempre foi celeiro dos mais variados carismas. Em nossa região há novas comunidades surgindo, promovendo diversas atividades e vocações religiosas. Como o senhor vê a pluralidade destes movimentos?
Dom Cabral: Eu costumo dizer que “não são movimentos da Igreja”, mas “A Igreja em movimento”, é mais teológico. Todos os grupos existentes no bojo da Igreja, com seus carismas, jeito de ser, de se expressar, provém tudo de uma única fonte, a Fonte do Espírito. São maneiras diferentes de expressar o mesmo Espírito, para deixar o “Corpo Místico” de Cristo, que é a Igreja, mais belo, mais bonito, cheio de testemunhos. E o grande sinal de verdadeira pertença a esse Corpo é a manutenção da unidade, da comunhão, do diálogo com os pastores de cada comunidade, nossos padres, e com o bispo diocesano. Sempre acompanhei inúmeros grupos, desde quando era pároco e vejo que é uma riqueza na Igreja.
O MUNICIPIO — O senhor confirma sua visita na próxima semana para conhecer sua futura morada: São João da Boa Vista e a residência episcopal?
Dom Cabral: Sim, estarei aí (em São João) nos dias 23 e 24 deste mês para um primeiro contato com o Colégio de Consultores, para tratarmos da cerimônia de posse e fazer algumas visitas, quem sabe no Seminário, no Santuário de Tambaú, Casa do Clero, etc…
O MUNICIPIO — Por fim, fica aberto espaço para suas considerações finais.
Dom Cabral: Agradeço imensamente, Ignácio, pela oportunidade de me dirigir aos assinantes, leitores do Jornal O MUNICIPIO. Deixo meus agradecimentos à sra. dona Vera, proprietária desta empresa, com a qual tive uma boa conversa. O meu desejo é somar esforços junto às forças vivas da sociedade em prol de uma sociedade mais humanizada, o que estiver ao meu alcance, podem contar comigo. Aproveito para convidar a todos a fazerem-se presentes no dia 6 de novembro do corrente ano, às 10h, no Centro de Integração Comunitária (CIC), para a POSSE CANÔNICA. Deus abençoe a todos!



