Dizem ser saudosismo exagerado ficar revivendo o passado, traçar paralelos e comparar a maneira como o futebol brasileiro é praticado hoje em relação às décadas mais vitoriosas. Mas é gritante a diferença, especialmente quando se fala da Europa. Quem começou como eu, ainda garoto, a acompanhar a bola rolando em época de legião de craques talentosos que nos proporcionaram, entre 1958 e 1970, por exemplo, três Copas do Mundo e outras conquistas memoráveis, sabe muito bem do que estou falando.
O tempo passou. O rumo das coisas se inverteu a ponto de nossas revelações não permanecerem aqui em seus clubes de origem por inúmeras razões, em especial a financeira, tendo ainda a oportunidade de conhecerem novas culturas, estudarem seus descendentes em boas escolas, aprenderem novos idiomas, terem uma vida digna. Tem lógica, o futebol brasileiro estacionou no tempo, sem estrutura, com corrupção explícita e sem cabeças pensantes a dirigi-lo, dentro e fora dos gramados.
O reflexo são espetáculos pobres em técnica e dinamismo, sem contar o comportamento banal de alguns atletas em campo, resultando em jogos com número exorbitante de faltas, desrespeito à arbitragem, raros fundamentos técnicos como dribles e tabelas, irritantes simulações de faltas e contusões quando o resultado favorece, além da carência de gols, principal de motivação da presença do torcedor apaixonado e a compra de pacotes televisivos.
A ausência de comprometimento salta aos olhos, como pôde ser constatado na presença do Palmeiras no Mundial de Clubes. O futebol brasileiro já não é mais respeitado como antes. É necessário mudar o conceito de jogo, a cabeça dos jogadores desde a base, o sistema administrativo das equipes e, principalmente, a forma de atuar de nossos principais clubes.
Afinal, nos lembramos com frequência do pronunciamento de Pep Guardiola, treinador considerado revolucionário em termos da prática futebolística moderna nos dias atuais, motivo que o define com a uma característica que raríssimos do seu ramo possuem – a disposição para o risco -, salientando que sua fonte de inspiração foi a Seleção Brasileira de 1982 – considerada uma das melhores de todos os tempos: “Não me conformo e não entendo o porquê do futebol brasileiro, com tudo que proporciona em termos de talento e maior ganhador de Mundiais, se encolher desta maneira diante de seus adversários nos últimos quarenta anos”.

Leivinha Oliveira




