Professor, prô, tia, dona são chamamentos usados pelas crianças nas redes sociais para se dirigirem aos professores. Considerações acerca do caráter político e ideológico da desconstrução da identidade docente já foram feitas por vários educadores, especialmente Paulo Freire em seu famoso livro “Professora sim, tia não!” convidando-nos a refletir em profundidade sobre o significado oculto nesses sinais.
No presente texto nosso objetivo é outro. Muitos livros já foram escritos sobre as características que nos tornam professores marcantes na vida dos alunos. Além de competência profissional sobre ensino e aprendizagem há um fator complicado que pode fazer muita diferença na formação dos estudantes. Ser presença humana e sensível para cada criança. Como acontece esse intercâmbio de modos de ser do professor e dos alunos no ensino remoto? Como as crianças estão se sentindo com a experiência diante da qual foram, de repente, colocadas?
Como estão se sentindo? Empatia: como ocorre empatia no ensino remoto? O dicionário nos diz sobre a palavra: “Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende”. Ser empático virtualmente é algo tão necessário e difícil quando estamos diante da tela do computador. E sem empatia, o ensino remoto fica prejudicado ou não ocorre.
Exemplos vividos nos tempos da pandemia. As crianças trazem a espontaneidade e nada melhor que ver o aluno criando em sua melhor versão de Homem Aranha. Sim, somos todos super-heróis reinventando a realidade. O homem aranha mirim mostrou como capturava as adversidades com suas teias de adaptação ao novo ‘modus operandi’ da escola.
Ensinar remotamente é acordar com o seu aluno ligando do Paraná para dizer que está com saudade. Ufa, isto é contraindicado a quem não suporta fortes emoções! Emocionante também é receber notícias de seu aluno que precisou migrar temporariamente para a Bahia por que os pais perderam o emprego nesta cidade. Mero detalhe: contato feito no domingo, ao final do famoso “Show da Vida”. Daí podemos indagar: quem está fazendo o show da vida acontecer em meio a tanta turbulência?
Uma aluna com vários vídeos no Youtube, recentemente postou um vídeo ensinando suas ‘super dicas’, atrapalhou-se ao pronunciar uma palavra e justificou-se: – ‘gente não repare, é que não estou podendo ir na escola por causa da pandemia’.
Fato recorrente é a criança dizer que está com saudade da escola, dos professores e dos amigos. Mas quando isso parte da professora, o seu aluno de oito anos adverte: – Prô, quem tem saudade, liga. E a professora tímida, responde: – Eu estou com tinta no cabelo. E, de ombros, o menino insiste no convite para matar a saudade: -Prô, não precisa mostrar seu rosto! Sim, saudade não tem face e pouco importa com que tinta a professora pinta o seu dia.
Uma experiência inusitada partiu de um convite de um aluno pelo WhatsApp. O Roblox (jogo muito popular entre crianças e jovens) foi o tema em que professora e aluno exercitaram a escrita no início das aulas remotas. O convite irrecusável veio em forma de mensagem de texto: -Prô, você tem Roblox? E a professora pergunta: – Tenho o que? –Roblox, prô!, qual o seu nike no Roblox? Parecia tão óbvio! Enfim, fui conhecer o jogo, mas definitivamente, não tenho perfile descobri que nike é o mesmo que apelido. Muitas aprendizagens a serem retomadas presencialmente.
Em meio a uma aula matinal pelo meet (através do Google sala de aula), uma aluna pede licença e diz: – Vó… quero arroz! Veio o insight; -Isto pode ser tema gerador. E foi feita a ponte: – Como se escreve arroz?
E assim, exercitando a empatia, está sobrevindo uma nova forma de relacionamento. Sobretudo para que a sociedade como um todo entenda o quão relevante está sendo a manutenção de vínculos com as crianças e suas famílias e quão criativos estamos sendo para que a aprendizagem seja significativa. David Ausubel, famoso psicólogo da educação, jamais poderia imaginar que este conceito fosse tão discutido sem o encontro presencial. Para o autor há condições para o aluno aprender: disposição para o aprendizado e material didático desenvolvido, que deve ser especialmente significativo para o estudante. Acrescentamos a empatia.
Estamos diante de uma nova escola, que provavelmente não volte ao modelo anterior ao de março de 2020. Será necessário rever perspectivas, desafios e competências. Assim, novas oportunidades abriram-se para o ensino e configurou-se um novo tipo de relação entre escola, família e sociedade.
Além dos aspectos formativos da sensibilidade ligados à empatia, será primordial analisar práticas de ensino e aprendizagem bem como metodologias e técnicas condizentes com a nova realidade da escola, que há de estar voltada para a formação cidadã, no mais profundo sentido da educação progressista.
Entender a nova geração de alunos e despertar-lhes o interesse e o encantamento. Enfrentar as dificuldades e acolher os alunos que não tiveram acesso adequado aos meios digitais. Ampliar a discussão em âmbito amplo sobre a identidade do professor e os limites e interações com as crianças. Excesso de trabalho para a escola e seus agentes ou uma nova roupagem em uma estrutura antiga? Seguimos provocando!

Maria Eugênia L. M. Castanho é doutora em Educação pela Unicamp e titular fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

Warlen Fernandes Soares é mestre em Educação pela Puc-Campinas e professora na rede municipal de ensino.




