
“Eu tinha 14 anos na época e já vinha de um stress emocional muito grande – a separação dos meus pais, eu sofria muito bullying na escola, o meu gatilho na verdade foi o bullying. Na época eu já trabalhava, era super complicada a vida e, realmente, fui levada a situações muito extremas, pelas pessoas ao meu entorno. Um dia, eu simplesmente cheguei à conclusão de que o mundo ficaria melhor sem mim. Como se eu compreendesse que a causa daquilo tudo fosse eu. Hoje estou com 31, já fez aniversário desse acontecido na minha vida e, como uma mulher madura, eu agradeço pela vida! Ter tido essa experiência me faz olhar para a vida e ser mais grata. Quando eu penso que poderia não estar aqui, concluo que seria uma estupidez sem tamanho porque a vida me surpreendeu. Estar vivo é o nosso grande presente. Aliás, chama-se presente por isso, é o presente que a gente tem no hoje e eu sei que posso conquistar um futuro cada vez mais lindo para mim. Eu tenho meu filho, tenho meu trabalho, que é muito instigante para mim, tenho um estúdio de criação, vários amigos, vários parceiros que co-trabalham comigo. E aquele sofrimento não faz mais sentido, não faz mais parte de quem eu sou hoje. Eu vejo que a vida é muito mais leve, é muito mais prazeroso viver. E ter essa experiência na minha história, me faz olhar para a vida dessa forma”.
Essas palavras são da gestora criativa e coordenadora de projetos Camila Mattoso, que quase encerrou a própria vida, na adolescência, mas reconhece que se entregar não resolve os problemas, por vezes ‘pesados’, da vida.
Portadora de transtorno bipolar, Camila salienta que esses impulsos são característicos desta patologia, que por vezes voltam, mas aconselha firmemente que o meio mais eficaz de superá-los é buscando ajuda terapêutica, “pois não se vence esse ‘desejo’ sozinho, é preciso buscar entender o que você quer matar em você”.
SETEMBRO AMARELO
No mês marcado pela conscientização da prevenção ao suicídio, a médica psiquiatra Carina Zuini, lembra que cerca de 98% das pessoas que o cometem têm, sim, algum transtorno mental diagnosticável, ou seja, esse ato está intimamente ligado a doenças psiquiátricas pré-existentes.
“Dentre elas, podemos citar a depressão e o transtorno de personalidade borderline como as condições psiquiátricas mais associadas às tentativas de suicídio. Mas também esquizofrenia, outros transtornos de personalidade, ou dependência de álcool e drogas podem estar relacionados ao suicídio”, disse Carina.
A médica aponta que, normalmente, a pessoa que planeja o suicídio dá ‘sinais’, mesmo que pequenos, de que está pensando nisso, sendo a mudança de comportamento, o principal deles.
“Pode haver irritabilidade, isolamento, perda de prazer nas atividades, tristeza. Também pode haver discurso pessimista e de desesperança, falas como ‘queria sumir’, ‘seria melhor morrer’. Esses são sinais perceptíveis para família e amigos. Na avaliação psiquiátrica, além dessas alterações, contadas pelo próprio paciente ou familiar, costumamos questionar com mais detalhes sobre esses sintomas e pensamentos, a fim de realizar o diagnóstico e o tratamento para cada caso, individualmente”, ressaltou a médica, completando que os familiares e amigos nunca devem menosprezar essas falas e, se ocorrerem com frequência, um profissional de saúde mental precisa ser procurado.
Quanto ao período de isolamento social, movido pela pandemia da Covid-19 ser um facilitador, Carina considera cedo para medir tais impactos na saúde mental e nas taxas de suicídio.
“Precisamos aguardar os estudos para ter os índices fidedignos. Mas posso dizer que, na prática clínica de consultório, observei um aumento no número de pessoas que estão procurando atendimento pela primeira vez, com queixas de sintomas depressivos e ansiosos. Além disso, é perceptível que muitos pacientes que estavam em tratamento e já estáveis tiveram uma piora do quadro”, observou.
A psiquiatra orienta que, caso alguém próximo perceba esses sintomas e queira ajudar, o primeiro passo é escutar. “O acolhimento de uma pessoa próxima é essencial para que o paciente se sinta seguro para pedir ajuda. O segundo passo é procurar um profissional para avaliação e tratamento”, finalizou.




