Pensão São José é demolida após revogação do tombamento

No chão: imóvel foi demolido no sábado (23) após prefeitura revogar tombamento (Bruno Manson/O MUNICIPIO)

Considerada a residência mais antiga de São João da Boa Vista, a antiga Pensão São José foi demolida no sábado (23) após permanecer nove anos tombada como patrimônio histórico da cida-de. O tombamento foi revogado após constatar que a construção oferecia risco à população, segundo avaliação técnica realizada por representantes do Condephic (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São João da Boa Vista) e da prefeitura.

Localizado no cruzamento das ruas Campos Sales e Visconde do Rio Branco, no Centro, o imóvel foi tombado por meio de decreto datado de 20 de maio de 2010 – o qual foi publicado no Jornal Oficial em 31 de maio do mesmo ano. Nesta época, os proprietários entraram com um processo na Justiça, tentando revogar a medida. Em meio a esta situação, a administração municipal, por sua vez, tentava pelos meios legais obrigá-los a fazer a manutenção da antiga pensão.

Essa demanda judicial perdurou por um grande período e, enquanto isso, o imóvel foi se deteriorando. O problema foi se agravando com o passar do tempo e o local tornou-se ponto de usuários de drogas, além de servir de abrigo para moradores de rua – inclusive um foi encontrado morto em seu interior em maio deste ano.

ANÁLISE E VISTORIA
Diante desta situação, o Poder Judiciário oficiou a prefeitura para que se manifestasse em relação ao estado da antiga pensão. O prefeito Vanderlei Borges de Carvalho solicitou que o Condephic realizasse uma análise do prédio.

Acompanhados dos engenheiros da administração municipal, os representantes do Conselho fizeram uma vistoria e constataram que o imóvel já não tinha condições de restauração e que trazia vários riscos à população.

Além disso, várias seringas foram encontradas, provavelmente deixadas por usuários de drogas que frequentavam o local. “Estava tudo escorado e a fundação já apresentava risco de queda. Nas paredes era visível isso. Pelas fotos [que constam no relatório do processo] pode-se perceber que não tinha mais o que fazer”, comentou Mário Henrique Fagotti Fassão, assessor de gabinete da administração municipal.

Um relatório técnico foi emitido no último dia 6 e a conclusão – tanto do Condephic, como da prefeitura – foi que deveria ser retirado o tombamento do imóvel, uma vez que nada mais poderia ser feito para sua preservação. O parecer foi encaminhado ao Poder Judiciário juntamente com o decreto de revogação do tombamento, datado de 12 de novembro. Com isso, o proprietário deu entrada no pedido de alvará de demolição.

REPERCUSSÃO
Ao tomar conhecimento da revogação do tombamento da antiga Pensão São José, a reportagem do jornal O MUNICIPIO entrou em contato na quinta-feira (21) com o professor Ricardo José Alexandre Simon Ciaco, atual presidente do Condephic, para saber mais a respeito do caso. Contudo, não houve retorno.

Na manhã de sexta-feira (22), a prefeitura, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que estaria se pronunciando e uma entrevista foi agendada para a segunda-feira (25). Contudo, a antiga pensão foi demolida no sábado (23), antes mesmo do fato ser noticiado.

A demolição do prédio chamou atenção de muitas pessoas e até mesmo alguns leitores que procuraram a redação do jornal para se manifestar. “Como cidadão e contribuinte sanjoanense, tenho dificuldade de expressar minha revolta com o acontecido esse final de semana em São João. A demolição de um bem tombado, a última casa de taipa da cidade, a Pensão São José, é vergonhosa para São João”, comentou Adriano Casarotto, em e-mail encaminhado à redação.

Procurando ouvir a todas as partes envolvidas, a reportagem do jornal também entrou em contato com um dos proprietários do imóvel. Contudo, ele preferiu não se pronunciar.

História: casarão foi construído em meados do século 19 (Arquivo/O MUNICIPIO)

VALOR HISTÓRICO 
Em entrevista ao jornal, o arquiteto, historiador e ex-presidente do Condephic Antônio Carlos Rodrigues Lorette lamentou a demolição da antiga Pensão São José. De acordo com ele, o casarão foi construído em meados do século 19, na época em que o monsenhor João José Vieira Ramalho realizava o parcelamento das terras, construindo casas e dando em troca para que os fazendeiros viessem povoar a região. “O imóvel foi adquirido por José Procópio de Andrade, pai do dr. Teófilo Ribeiro de Andrade, importante jurista e segundo deputado estadual de São João da Boa Vista a ser eleito”, citou.

Com a chegada da ferrovia no município, o historiador conta que novos materiais e tecnologias da época também vieram, o que possibilitou a reforma do casarão. Sua fachada foi construída em taipa de mão originalmente, depois substituída por alvenaria de tijolos. O porão foi feito com taipa de pilão e os belgrames eram de araucária – de aproximadamente 300 anos –, usando o tronco de forma rústica. A estrutura do casarão era de madeira óleo e as paredes feitas com palmito-jussara – extraídos das margens do Córrego São João – e amarrados com cipós.

Em 1986 o casarão passou por modificações e as paredes externas tiveram os palmitos trocados pela alvenaria de tijolos. “Era uma casa muito antiga, com alcovas, que eram os quartos sem janelas que davam para a sala de visitas”, disse o arquiteto. “O imóvel foi usado como pensão, na mesma época em que havia a Pensão dos Boiadeiros, e resistiu até hoje como a casa mais antiga de São João”, completou.

Sensibilizado com a derrubada, Lorette afirma que esta demolição foi um crime contra a história da cidade. “É lamentável que isto tenha ocorrido. Este casarão tinha uma importância histórica e a prefeitura deveria manter o seu tombamento. É um desleixo com a história do município”, afirmou, destacando ainda se o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) foi informado sobre a revogação do tombamento. “Com essa derrubada, o que virá depois? O que será apagado definitivamente de nossa memória?”, questionou o historiador.

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