
O suicídio está entre os problemas que mais chamam atenção das autoridades de saúde pública na atualidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma morte do tipo é registrada a cada 40 segundos em todo o mundo. Somente no Brasil, 32 pessoas se matam por dia. E o mais alarmante disso é que nove em cada dez mortes por suicídio podem ser evitadas. Diante deste panorama surgiu a campanha Setembro Amarelo, um movimento feito para mostrar que a prevenção é fundamental para reverter a situação.
Iniciada em 2015, a campanha é uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Este mês foi escolhido devido ao Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro, por iniciativa da International Association for Suicide Prevention.
Em São João da Boa Vista, a taxa de suicídios é preocupante. Em levantamento apresentado no Mapa da Violência de 2012, a cidade estava entre os 30 primeiros municípios do país que mais registravam suicídios de jovens e adolescentes entre os anos de 2000 a 2010. Para se ter ideia, a cidade ficou na 23ª posição no ranking.
De acordo com a pesquisa, a taxa de mortalidade registrada no município por esse motivo foi de 4,6% a cada 100 mil habitantes, quando a média nacional era de 1,1% nesta época. Neste ano, os casos de suicídios chamaram atenção da comunidade sanjoanense e até foi motivo de uma mobilização popular realizada em junho, na Praça Joaquim José.
FATORES
De acordo com a psicóloga e mestranda na UFSCar, Heloisa Ribeiro Zapparoli, o suicídio é um fenômeno complexo que pode resultar da interação de diversos fatores biológicos, sociais e psicológicos. Ela explica que dentre estes estão o diagnóstico de transtornos mentais – como depressão e transtorno bipolar, por exemplo –, fatores genéticos, tentativa prévia de suicídio, abuso de substâncias, senso de isolamento, além de experiências de violência ou abuso sexual, de discriminações, de conflitos e perdas em relacionamentos, entre outros. “Alguns aspectos do repertório comportamental do indivíduo também podem ser considerados, como dificuldades na resolução de problemas e a elevada autocrítica e autodesvalorização. O estudo e a compreensão destes fatores e aspectos é que permitem o planejamento de intervenções de prevenção em diversos âmbitos”, relata.
ATENÇÃO AOS SINAIS
A psicóloga destaca que tanto familiares como amigos, devem ficar atentos aos sinais que as pessoas com tendências suicidas demonstram, como desesperança, falta de perspectivas para o futuro, isolamento, desamparo e até mesmo falas sobre ideias de morte ou sobre desaparecer. “Familiares e amigos podem ajudar falando abertamente sobre este problema com a pessoa em sofrimento, oferecendo suporte, demonstrando empatia, acolhimento e, principalmente, não julgamento”, orienta. “Em relação a isso, um dos objetivos da campanha do Setembro Amarelo é a conscientização sobre a possibilidade de prevenção do suicídio e a modificação do tabu que ainda é falar sobre esse assunto”, completa.
Segundo ela, outras atitudes eficientes nesta prevenção são a restrição do acesso da pessoa aos meios pelos quais se pode tentar o suicídio – como armas de fogo, cordas, objetos cortantes e medicamentos – e também evitar a exposição de informações pormenorizadas acerca de procedimentos suicidas. Além disso, a busca por pessoas capacitadas a ajudar, como psicólogos, psiquiatras e profissionais do Centro de Valorização da Vida (CVV) é fundamental.
Heloísa explica que o suicídio não é apenas um problema individual, mas de saúde pública. “A construção de relações interpessoais mais profundas e acolhedoras entre amigos e familiares, e o desenvolvimento de repertórios de enfrentamento para lidar com situações de sofrimento é essencial, mas estratégias mais amplas são necessárias”, comenta.
“Políticas públicas voltadas à promoção de saúde mental, o treinamento de profissionais da saúde para identificar e encaminhar corretamente casos, a promoção de relatos responsáveis pela mídia e sua participação estratégica em campanhas preventivas, o planejamento de construções nas cidades com medidas de segurança, além do controle do acesso à métodos geralmente utilizados em tentativas de suicídio são exemplos do que pode ser feito”, finaliza a psicóloga.



