Após o triste acontecimento que vitimou dez pessoas (incluindo dois assassinos) na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), no dia 13, muitos passaram a se precaver, inclusive em São João da Boa Vista, onde boatos davam conta de que duas escolas estariam sob ameaça.
Pensando em como fatos assim podem gerar prejuízo e pânico em ambientes escolares, a reportagem do O MUNICIPIO recebeu orientações de Wilges Bruscato, professora e advogada, e Leandro Rodrigues, analista de sistemas com formação em direito – ambos especialistas em educação digital e tecnologia, consultores e palestrantes na Aldigital Educação em Tecnologia.
Wilges considerou o quadro preocupante, pois, passado o choque inicial do ocorrido em Suzano, começa-se a ver os desdobramentos disso no país todo. “Só na semana passada, tivemos 3 consultas a respeito, feitas por pais que acabam, de alguma forma, chegando até nós. É claro que há uma relação, ainda que indireta, desses episódios da região com o de Suzano”, comentou ela.
Ela citou ainda que diversos estudos nos EUA concluíram que existe o chamado ‘efeito imitação’ e pode-se identificar que os jovens acabam por tomar o exemplo de Suzano como uma válvula de escape.
“Com essas brincadeiras ou ameaças hipotéticas, eles expressam algum tipo de insatisfação, porque veem que isso existe, que o caso está em evidência. Essa [evidência] acaba influenciando o comportamento de alguns jovens”, pontuou Wilges, completando que, em geral, são apenas brincadeiras de mau gosto, próprias da idade e esses jovens não veem nada de mau em brincar assim, mas que essa conduta denota que algo faltou na formação deles.
A advogada observou que, de modo geral, esses ataques são planejados com muita antecedência, não são coisa de momento; mesmo assim, as pessoas ficam impactadas e acabam espalhando o pânico. “Aí é que entra o papel fundamental da escola: é preciso que alguém dentro desta, um professor, diretor ou um coordenador faça a verificação com os elementos que possuir, rapidamente e, se houver algo de concreto, tome providências também concretas” destacou.

Wilges acrescentou que deve ser evitada, a todo custo, a transmissão indiscriminada da notícia por Whatsapp ou Facebook, para não piorar a situação e que, para isso, a escola precisa se preparar para lidar com esses casos, para atuar de forma pedagógica. “É preciso transformar essas ocorrências de alarme falso, mas que trazem prejuízo, em oportunidades de crescimento para a escola e para os jovens”, concluiu ela.
Leandro Rodrigues lembrou que uma reportagem na televisão insinuou a ligação do massacre de Suzano com a deep web – ou internet profunda, que é uma parte oculta da rede, em que o conteúdo armazenado não é localizável pelos buscadores.
“Mas dizer que o ataque aconteceu em função da existência da deep web seria dar uma explicação simplista e irreal para o motivo deste. Ela [deep web] pode ter sido uma ferramenta, uma fonte de informações ou até mesmo inspiração, mas atribuir a ela o ataque é negar claramente a existência de problemas maiores, contra os quais ainda precisamos nos instrumentalizar – como, por exemplo, orientar as escolas a lidarem com esse tipo de problema de forma efetiva”, ressaltou Leandro.
O advogado lembrou que, em termos da segurança das crianças e jovens, é preciso agir preventivamente, se se quiser garantir a não repetição de novos ataques. “A mídia deve fazer a sua parte, as escolas precisam fazer a parte delas e as famílias, a sua”, disse ele.
Wilges reforçou que existe uma lei anti-bullying no Brasil e conteúdos de boa convivência social como componentes curriculares nas escolas, além de várias ações para tentar evitar a perseguição entre colegas.
“Contudo, o que temos visto é que muitas ações ficam no nível formal, só para dar uma satisfação para os pais e para a sociedade de que a escola está fazendo alguma coisa. Isso não é suficiente. Essas ações anti-bullying precisam ter resultados. Temos que lembrar que é isso, no fundo, que está por trás de ataques, assim como a vítima da perseguição tem suas características de personalidade e de formação. Como não se sabe quem vai ou não seguir esse tipo de ação violenta, precisamos trabalhar na fonte do problema. A recomendação básica, que pode salvar vidas no futuro, é a simples observação pelos professores para detecção do bullying e, quando constatado, que sejam tomadas medidas efetivas de correção dessas perseguições sistemáticas”, finalizou Wilges.
Por Daniela Prado.




