O que Lady Gaga, Selena Gomez, Toni Braxton e Michael Jackson têm em comum?
Você pode até responder que são cantores famosos, alguns deles gostam de se envolver em polêmicas mas estas personalidades dividem entre si outra questão – são portadoras de doenças autoimunes.
Destas doenças, a mais conhecida é lúpus, mas o médico reumatologista Paulo Chicarone Pereira, especialista e membro da SBR (Sociedade Brasileira de Reumatologia), deu orientações a respeito destas patologias à reportagem do O MUNICIPIO.
“As doenças autoimunes são caracterizadas por uma resposta anormal do sistema imunológico que desenvolve uma reação contra estruturas do próprio organismo. Dentro da especialidade de Reumatologia, esta reação pode ser predominantemente contra articulações (artrite reumatóide, artrite psoriásica e espondilite anquilosante – a principal manifestação é dor e inchaço nas articulações); contra músculos (polimiosite / dermatomiosite – caracterizada por fraqueza muscular, sobretudo nos ombros e quadris); glândulas lacrimais e salivares (Síndrome de Sjogren – principal manifestação é secura nos olhos e na boca); e tecido conjuntivo (Lúpus, Esclerose Sistêmica), doenças com envolvimento sistêmico e de apresentação variável”, citou.
O médico ressaltou que outras especialidades também tratam de doenças autoimunes, como a Esclerose Múltipla e a Síndrome de Guillain-Barré, na Neurologia. “Dentro da endocrinologia, por exemplo, o diabetes tipo 1 é originado por uma reação autoimune do organismo contra as células beta do pâncreas; a tireoidite de Hashimoto é a causa mais comum de hipotireoidismo em adultos e a Doença de Graves, de hipertireoidismo. Na dermatologia, o vitiligo e a psoríase são exemplos de doenças autoimunes”, completou.
No caso do lúpus, Chicarone explicou que é uma doença que se apresenta de maneira distinta entre os indivíduos e com envolvimento de órgãos de maneira variável. “A sua forma de apresentação mais comum é denominada cutâneo-articular, com aparecimento de lesão avermelhada no rosto, próximo às bochechas, em formato de asa de borboleta (rash malar), sensibilidade aumentada ao sol (fotossensibilidade); lesões habitualmente indolores no céu da boca (úlceras orais); dores articulares com inchaço e rigidez matinal, acometendo principalmente pequenas e médias articulações, sobretudo mãos, punhos, joelhos, tornozelos (artrite)”, descreveu.

Ele também pontuou que, em alguns casos, há envolvimento de órgãos nobres, como coração e pulmão, por inflamação na membrana que os recobre e ocasiona dor no peito e falta de ar (derrame pericárdico e pleural). “O acometimento dos rins é um sinal de gravidade: o individuo percebe alteração na coloração da urina e/ou formação de espuma ao urinar, indício de perda de proteína na urina, além de um edema progressivo inicialmente em membros inferiores, podendo se estender pelo corpo e face”, alertou.
Psicose e transtorno depressivo grave também podem ser secundários a um envolvimento do sistema nervoso central e, em alguns indivíduos, podem ser a primeira manifestação da doença. “Além disso, há sintomas gerais como febre, queda de cabelo, surgimento de gânglios no corpo, cansaço, fadiga, diminuição de memória, dor de cabeça e formigamentos, que também podem estar presentes nas pessoas com lúpus”, acrescentou o médico, lembrando que aproximadamente 40% destes pacientes apresentam fotossensibilidade.
Como disse Chicarone, exposição solar é um fator desencadeante, não apenas de lesões cutâneas, mas pode precipitar a piora em outros sítios. “O uso de alguns fármacos como hidralazina e procainamida, dentre outros podem precipitar a doença em pessoas predispostas. Além disso, há evidências de que questões hormonais também estejam envolvidas, visto que lúpus acomete mais mulheres do que homens, com pico de incidência na idade fértil”, acentuou ele, observando que algumas mulheres desencadeiam o quadro na gestação, o que reforça a evidência do estrógeno como possível ‘gatilho’ da doença.
Chicarone levanta outra hipótese, de que a doença esteja relacionada com um quadro infeccioso. “O fato é que há uma perda na capacidade do sistema imunológico de diferenciar o que é estrutura do próprio organismo e o que deve ser combatido, ou seja, uma perda do mecanismo de autotolerância, inclusive com desenvolvimento de anticorpos contra estruturas do interior e superfície das células ou mesmo anticorpos contra o próprio material genético, o DNA”, apontou.
Lúpus e outras doenças autoimunes não têm cura, mas o controle da doença, como Chicarone orientou, é feito sobretudo com medicamentos imunossupressores, que diminuem esta resposta anômala e exacerbada do sistema imune dos indivíduos acometidos. “O diagnóstico das doenças autoimunes reumatológicas em geral é feito com base nos sintomas apresentados (quadro clinico), exame físico e exames complementares que corroboram para o diagnóstico. O FAN é um exame que detecta a presença de anticorpos contra várias estruturas celulares; outros autoanticorpos apresentam maior especificidade e devem solicitados conforme as hipóteses diagnósticas de cada indivíduo”, concluiu.
E enfatizou que o período entre o diagnóstico e a instituição da propedêutica adequada até o controle clínico da doença pode ser longo e várias doenças são extremamente agressivas e incapacitantes, gerando consequências no âmbito pessoal e profissional. “É fundamental a adesão ao tratamento e, em muitas pessoas, é possível o desmame progressivo dos medicamentos. A meta é a remissão clínica, o restabelecimento pleno de suas funções e a melhora na qualidade de vida”, finalizou.
Por Daniela Prado.




