Entra ano, sai ano e um fato se repete – crianças se iniciam na vida escolar, algumas com mais facilidade, outras com mais resistência.
Quando um pequeno se mostra difícil e arredio com a ideia de ficar na escola, longe dos pais e de casa, essa não é uma situação rara e a psicóloga Ligia Maria Torres da Silva (CRP 06/970380, que também é Psicanalista em formação pelo CLIN-A (Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade) esclareceu sobre esse comportamento infantil à reportagem do O MUNICIPIO.
De acordo com Lígia, é comum na primeira infância as crianças apresentarem certa resistência na adaptação escolar, pois estão em processo de autorregulação, aprendendo a lidar com as exigências do mundo externo e [aprendendo] a nomear seus próprios sentimentos e emoções.
“Nesse sentido, ficar longe dos pais é um desafio para os pequenos. Eles não possuem um repertório de linguagem suficiente para nomear o mal estar gerado pela ausência dos pais, então é muito importante que os adultos (pais, cuidadores e professores) as ajudem a nomear as novas situações que elas experimentam”, justificou.
Mas Lígia lembrou que o desafio de ficar longe das crianças também é para os pais, até porque eles querem proteger os pequenos do mal estar que esse processo pode gerar.
“Por outro lado, esse processo de frustração é importante para que as crianças se constituam como sujeitos. Cada desafio vencido, por menor que seja, é uma conquista de sua autonomia”, enfatizou.
Em contrapartida, existem crianças que são naturalmente mas retraídas que as outras na hora de fazer novas amizades e se ambientar, sem que isso signifique problema.
Sobre essas, Ligia argumentou que é necessário analisar se esse retraimento está causando sofrimento para a criança.
“Talvez a criança seja apenas um pouco tímida e está tudo bem, não tem por que se preocupar. Muitas vezes os pais colocam demais suas expectativas nos pequenos e lutam para que eles sejam aquilo que esperam -nesse caso, uma criança extrovertida, que tenha muitos amigos-, e isso sim pode gerar certo sofrimento”, alertou.

Caso se conclua que o retraimento está causando sofrimento para a criança, é possível que exista algum processo na vida desta, que esteja doloroso para enfrentar – situação em que um psicanalista pode ajudá-la a lidar com suas questões.
Quanto a respeitar as razões pelas quais um filho pequeno não quer ficar na escola, Lígia ponderou que o importante é tentar traduzir esse desejo de não ficar na escola e procurar mediar essa situação.
“A ‘birra’ é uma forma da criança se expressar e se comunicar. Qual é a frustração que a criança está manifestando por trás dessa ‘birra’? Isso não significa que deve-se atender a todas as exigências dela mas, sim, entender as razões pelas quais a criança está exigindo essa atenção, dessa forma. Talvez possa ser a falta da presença dos pais no dia-a-dia, talvez a criança esteja com muitas tarefas (escola, aula de inglês, natação etc) e não esteja tendo um tempo ocioso para brincadeiras ou para se expressar de forma livre”, orientou a psicóloga, ressaltando que a brincadeira é extremamente importante, pois é através dela que a criança consegue elaborar suas frustrações e que o crescimento saudável depende do ‘brincar’ e do ócio criativo.
Para Lígia, a melhor maneira de despertar na criança o desejo de ficar na escola é através da conversa, incentivando nelas o gosto pelo aprendizado e introduzindo-as aos livros, por exemplo. “Cada pai tem que encontrar um jeito de lidar e conversar com o filho, pois cada criança é diferente da outra. O que se sabe é que o fator afetivo é muito importante para o aprendizado dos pequenos, é necessário que eles gostem do ambiente escolar e tenham uma boa relação com colegas e professores, para que consigam aprender — por isso é tão importante e delicada essa mediação”, finalizou.
Para entrar em contato com ela, acesse o Instagram @ligiatorr
Por Daniela Prado.



