No decorrer da vida, ouve-se muito que é preciso ter coragem para vencer, coragem para tomar decisões e até que pessoas destemidas e ousadas têm mais chances de sucesso profissional.
Desde a infância, a coragem é apresentada a todos na figura de super heróis ou personagens que lutam, enfrentam perigos, seja em situações de autodefesa, seja para defender ‘mocinhas’ e crianças que estejam em perigo – e sempre vencem.
Para saber afinal, o que é esse sentimento e até que ponto ele é tão importante em nossa vida, a reportagem do O MUNICIPIO entrou em contato com Lucia Elena Figueiredo Bezerra, psicóloga clinica de base psicanalítica.
“O termo vem do latim coraticum, da raiz ‘cor’, que significa coração, a sede das emoções; indica um indivíduo que não se esconde e enfrenta os desafios e medos com força vital. Seria o protótipo de alguém vivaz, cujo coração bate acelerado, tornando-o mais forte mentalmente”, diz Lucia, frisando que é diferente de ser impulsivo ou narcisista, mas alguém que reconhece o medo, tomando posição e agindo com sabedoria para dirimir conflitos.

Segundo a psicóloga, não reconhecemos essa qualidade nas pessoas e em nós mesmos porque os fatores onipotência e narcisismo, indicativos de imaturidade emocional e característicos da condição humana, bloqueiam o reconhecimento sensorial e perceptivo das situações a serem resolvidas.
“Assim os medos se acumulam, os exemplos se esvaem e o individuo fica paralisado ou foge das situações adversas, agindo de modo inconsciente ou consciente mesmo, quando caracterizado como ‘covarde’. Pode-se concluir que o inconsciente qualifica a resposta que o individuo dá às situações de medo, reais ou imaginárias”, Lucia justifica.

E acrescenta que coragem não seria negar situações como insegurança ao falar em público pela primeira vez, ou que ‘sente’ que vai perder o emprego, por exemplo, mas enfrentá-las e superá-las.
“Para isso é necessário um bom grau de conhecimento das próprias estruturas internas – capacidade a ser desenvolvida desde o nascimento ou através da análise das estruturas internas num processo terapêutico. A capacidade de analisar a própria estrutura se reflete na exteriorização desta mesma capacidade para os conflitos reais, intrínsecos ao desenvolvimento humano”, esclarece a psicóloga, lembrando que os medos são cumulativos, paralisantes e geram sensação de peso e lentidão.
Lucia questiona se ser corajoso, altivo, vigoroso e resoluto, qualidades que geram créditos no âmbito interno, deve ser algo exposto no meio externo com a mesma fluidez. “Saber respeitar valerá muito mais e outro valor deverá ser adicionado à coragem. A competitividade faz parte apenas do universo capitalista, que institui valores em dissonância dos [valores] sociais. Vale ressaltar que o ser humano é eminentemente social e necessita do outro como parâmetro para reconhecer os opostos”, observa ela.
A psicóloga também analisa aquele tipo de coragem ligado a uma energia vital, a condição de preservação, percebida em situações de crise ou calamidade. “Pressupõe mudança, transformação, rupturas de formas antigas de agir e pensar. O principal objetivo seria enfrentar as emoções baseadas no medo e aceitá-las como parte ativa do processo de mudança vindo à tona e que, após catarse, perdem seu efeito sobre o individuo” diz.
Lucia sugere que trabalhar essa dinâmica, entender e conhecer o funcionamento das estruturas internas é o processo recomendado àqueles que sentem dificuldade mediana ou severa de tomar decisões e enfrentar problemas.
“Nestes indivíduos há uma memória e registros de desprazer maiores que os de prazer, uma sensação enorme de falta de gratificação e reconhecimento de existência que descompensam o poder de resolução no contexto egóico, real. Como disse Freud, ‘Mudança acontece quando a dor de mudar é menor do que a dor de permanecer o mesmo’, portanto a coragem é consequência do agir e despertada a partir da ação”, finaliza Lucia.
Por Daniela Prado.




