O candidato a Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) afirmou na última terça-feira, em entrevista à TV Cidade Verde, do Piauí, que a política de cotas no Brasil está “totalmente equivocada”. Disse ele: “Reforçam, sem a menor dúvida (o preconceito). Por exemplo, a política de cotas no Brasil está totalmente equivocada”. “Isso tudo é maneira de dividir a sociedade. Não devemos ter classes especiais, por questão de cor de pele, por questão de opção sexual, por região, seja lá o que for. Nós somos todos iguais perante a lei. Somos um só povo”.
E finalizou seu raciocínio: “Você não tem que ter uma política para isso. Isso não pode continuar existindo, tudo é coitadismo. Coitado do negro, coitada da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino. Tudo é coitadismo no Brasil. Vamos acabar com isso”.
Para Bolsonaro, políticas instituídas para compensar desigualdades estruturais de determinados grupos sociais, reafirmam o preconceito e dividem a sociedade.
Na edição de 06 de agosto de 2016 de O MUNICIPIO, no artigo “Quem merece?” escrevi que a retórica da meritocracia seria valida se todos nós fossemos socialmente e economicamente iguais, o que verdadeiramente não ocorre. O nosso desenvolvimento para o futuro ocorre de acordo com classe social, dentro de um contexto socioeconômico e sociocultural.
O discurso da meritocracia é uma falácia e tratar de “coitadismo” o comportamento de minorias é desconhecimento da estrutura social do País ou uma visão distorcida da realidade.
Alguns números comprovam a necessidade de ações assertivas do Estado para combater esse abismo:
Em 2017, 4473 mulheres foram assassinadas no Brasil. Isso equivale a doze mulheres mortas por dia. Uma a cada duas horas. Mais de 21% dos casos (um total de 946 mortes) foram feminicídios, ou seja, crimes motivados pela condição de gênero. O estado do Rio Grande do Norte é o que tem o maior índice de homicídios contra mulheres: 8,4 a cada 100 mil mulheres.
De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados no mês de abril de 2018, no ano passado, o salário médio pago às mulheres foi apenas 77,5% do rendimento pago aos homens no Brasil. Enquanto eles receberam (em média) R$ 2.410, elas ganharam R$ 1.868. Na região Sudeste a disparidade dos salários é mais acentuada: as mulheres receberam 73,1% do que foi pago aos homens.
O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo: 1 a cada 19 horas. Um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), entidade que levanta dados sobre assassinatos da população LGBT no Brasil há 38 anos, registrou 445 homicídios contra a comunidade em 2017. O número aumentou 30% em relação ao ano anterior (2016), que teve 343 casos.
Quando mulheres, homossexuais e pobres morrem pela ausência de políticas públicas, o cidadão que é contra essas compensações também é responsável por puxar o gatilho.
As afirmações deturpadas sobre das minorias dão o tom de suas pretensões. Caso Jair Bolsonaro vença a eleição, o Brasil será realmente um País diferente. E sua maior bandeira não será a do combate à corrupção.

Eduardo Vella é jornalista e escreve em O Município semanalmente, aos sábados.
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