Câmara Municipal defende Resedás de críticas

As declarações do advogado Antonio Carlos Buffo em relação ao Parque dos Resedás, feitas na última semana, na Câmara Municipal de Águas da Prata, repercutiram negativamente em São João da Boa Vista. Na sessão do Legislativo sanjoanense, de segunda-feira (24), vereadores afirmaram que moverão Ação Civil Pública pedindo explicações, além de representação na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) contra ele.

Buffo, ao utilizar a Tribuna da Câmara de Águas da Prata para falar sobre loteamentos, citou o Resedás como exemplo negativo do que pode ocorrer caso bairros sejam construídos sem a devida infraestrutura desde o planejamento.

Em trechos da explanação, que circulam pelas redes sociais, o advogado utiliza as palavras “desgraça” e “gueto” para destacar a problemática criada no bairro devido à falta de equipamentos públicos básicos para a população. Em outra parte da fala, Buffo chega a esclarecer o termo “desgraça”, dizendo ter utilizado para exemplificar o que passa a população do local por conta da desigualdade em relação aos outros bairros.

A declaração do advogado não foi bem aceita em São João da Boa Vista. O presidente da Câmara sanjoanense, Gérson Araújo (MDB), utilizou a Tribuna do Legislativo para protestar contra a declaração.

“É inadmissível que um cidadão taxe como ‘desgraça’ um bairro de São João da Boa Vista. As pessoas que vivem no Resedás são cidadãos de bem, trabalhadores e merecem nosso respeito. Foi uma situação totalmente infeliz e lamentável”, disse.

Na Tribuna: Gérson Araújo defendeu população do Resedás e criticou postura do advogado (Foto: Franco Junior/O MUNICIPIO)

Araújo revelou, ainda, que a Câmara Municipal tomará providências em relação à declaração do advogado Antonio Carlos Buffo. “Os procuradores jurídicos da Câmara ingressarão com uma representação na OAB e irão mover uma Ação Civil Pública para que ele faça uma retratação junto à população do Resedás”, salientou.

Gerson idealizou Moção de Repúdio contra as declarações de Antonio Carlos Buffo. O documento teve apoio de todos os vereadores e será enviado ao advogado.

PREFEITOS
O prefeito sanjoanense Vanderlei Borges de Carvalho (MDB) e o de Águas da Prata, Carlos Henrique Dezena (DEM), também se manifestaram sobre o caso em solidariedade aos moradores do Parque dos Resedás. Ambos repudiaram a declaração do advogado.

Dezena destacou, em vídeo publicado na página oficial do Facebook da prefeitura, que a opinião de Buffo não reflete o pensamento dos moradores da Águas da Prata.

Vanderlei defendeu, em entrevista que foi ao ar no programa semanal da prefeitura veiculado nas rádios da cidade, a população do Resedás e ressaltou que 25% da população sanjoanense mora em bairros populares.

“O Resedás não é diferente dos outros bairros, é igual aos outros [bairros]. Não é porque alguém vive em bairro popular que não é uma pessoa boa ou que o local não possua população de bem”, indignou-se.

Por Franco Junior

Advogado explica depoimento

O MUNICIPIO entrou em contato com Antonio Carlos Buffo para obter posicionamento em relação às declarações dele na Câmara de Águas da Prata.

Assim como ele narrou, ocorria reunião pública na Câmara Municipal de Águas da Prata em que vereadores e população discutiam três Projetos de Lei que dispõem sobre o aumento dos impostos sobre Terrenos (ITU), Venda e Compra de Imóveis (ITBI) e serviços (ISSQN), quando a tribuna foi usada por ele, que representava o Movimento Cidadão Fiscal de Águas da Prata, idealizado pelo Observatório Social de São José (SC).

Buffo pontuou que defendia não ser momento para aumento dos impostos. “Principalmente por entender que o Poder Executivo não estava sendo austero o suficiente, com gastos expressivos, apesar de dentro da legalidade, com Buffet [R$ 30.000], aluguel de tendas [R$ 70.000], com eventos para recreação e lazer [R$ 25.000], reputados como desnecessários pelo Movimento Cidadão Fiscal de Águas da Prata [com documentos distribuídos aos presentes]”, alegou.

O advogado salientou que um vereador sugeriu que era essencial seguir o que São João fez na última década e construir loteamentos, para alavancar a arrecadação e aquecer a economia.

“O Cidadão Fiscal se viu obrigado a defender que a construção de loteamentos, pura e simples, está longe de ser a solução para Águas da Prata, sem que haja planejamento urbanístico, que deve anteceder a implantação de qualquer loteamento, popular ou não, a construção de escolas, creches, contratação de transporte público eficiente, instalação de equipamentos de lazer, construção de praças, suficientes para a população que irá ocupar o empreendimento”, narrou.

Buffo aponta ser fato que sequer praças públicas existem na maioria dos residenciais da zona sul de São João, “pois não foram planejadas”.

“Nem espaços para futuras implantações existem. Por isso foi dito com muita ênfase que este modelo de crescimento, não seria querido para Águas da Prata, o que inclusive contou com o apoio do presidente da Câmara de Águas da Prata”, comentou.

O advogado relatou que o que se buscou com o discurso na tribuna foi dizer que todos têm direito à moradia digna, com saúde, lazer, educação, transporte público. “Jamais houve qualquer referência desabonadora às pessoas e moradores de São João, inclusive dos que residem no Bairro Resedás e outros adjacentes”.

Antonio Carlos Buffo ressaltou que, diferentemente do que ele diz ter sido “maldosamente” veiculado nas redes sociais, em nenhum momento foi disseminado ódio ou preconceito, “foi justamente o contrário”.

“Fico indignado com a distorção feita ao que foi dito na Tribuna de Águas da Prata por alguns grupos sociais, que estes sim disseminaram o ódio e instigaram a violência. Mais grave que isso foi a postura lamentável dos Poderes Executivos e Legislativos de Águas da Prata e São João da Boa Vista que, por motivos desconhecidos, compartilharam e comentaram o vídeo que foi maldosamente editado, sem sequer consultar o original, a fonte, que está disponível na íntegra no Youtube”, relatou.

Sobre a menção ao termo “desgraça”, colocação que causou mais impacto, Buffo revelou que a palavra foi utilizada para caracterizar a falta de estrutura, escolas, posto de saúde, creche e transportes no bairro.

“Ora há alguma graça ver uma mãe com o filho febril não ter o amparo do município em disponibilizar um posto de saúde próximo? Em ter que andar quilômetros para deixar um filho na creche para ir trabalhar? Por certo que não!”, concluiu. (F.J.)

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