As eleições já passaram. Contudo, aquele frenesi com sabor de ressaca eleitoral ainda não. É cada vez mais difícil relaxar com tantas informações sendo difundidas 24 horas por dia. Como se já não bastassem as brigas entre vizinhos, família ou colegas de trabalho por “política”, somos bombardeados o tempo todo por notícias, sejam elas verdadeiras ou não. São as eleições em Israel, nos Estados Unidos, os protestos na Europa, a guerra da Ucrânia…
Depois de décadas da justificativa do voto secreto ser válida e até desejável em situações sociais, atualmente, é (quase) uma exigência que todos assumam uma posição política publicamente. Porém, em meio a tantas novas informações, nós realmente sabemos de onde vêm ou até o que significam as expressões “de direita” e “de esquerda”, por exemplo? Será que essas diferenças ideológicas justificam tanto ódio?
Para tentar entender um pouco, voltemos aos primórdios. Os termos “direita” e “esquerda”, surgiram durante a Revolução Francesa, mais precisamente em agosto de 1789, durante a Assembleia Nacional Constituinte convocada pelo então rei, Luís XVI. Do lado direito do plenário, sentavam-se os integrantes das alas mais conservadoras que defendiam a manutenção dos poderes do rei, representados pela nobreza e pelo clero; já do lado esquerdo, ficavam os revolucionários, formado por progressistas que desejavam o fim do poder absoluto do império e uma reforma radical do sistema vigente. E assim, começou uma transformação social e econômica que gerou um enorme impacto na política mundial que perdura até os dias de hoje.
Após a queda da monarquia, iniciou-se a discussão de qual tipo de República era o mais adequado: a mais conservadora, com o Estado vinculado à Igreja, como a direita queria ou uma República Laica, desvinculada da Igreja, como a esquerda defendia. Já no século 20, essa dicotomia manifestou-se também na economia, com a esquerda defendendo um Estado mais presente e a direita, um mercado liberal com pouco interferência do Governo, práticas utilizadas até hoje em todo o globo.
Ou seja, na teoria, os governos de esquerda cobrariam uma quantidade maior de impostos, porém em contrapartida, ofereceriam mais serviços públicos financiados por essa cobrança como escolas, hospitais, universidades, parques públicos entre outras benfeitorias. Já na direita, os impostos tenderiam a diminuir, todavia, os serviços passariam a ser oferecidos, em sua maioria, por empresas privadas que deveriam ser pagas individualmente, com o mínimo ou nenhuma participação do Estado.
Na questão dos costumes, os dois espectros também mantiveram suas ideias iniciais com a direita sendo mais conservadora e, pelo menos no Brasil, mantendo um grande vínculo com as Igrejas, principalmente as Cristãs. Já a esquerda, continua defendendo um país mais progressista com um Estado laico, com liberdade religiosa, mas sem um vínculo direto com religiões ou igrejas específicas.
Obviamente, na prática, o sistema não funciona de maneira tão simples. No Brasil, apesar da sensação atual da existência de somente dois extremos, a verdade é que a grande maioria da população e até dos políticos, se encontra entre esses dois polos. O que deveria ser somente uma discussão de projetos, transformou-se em uma guerra de narrativas. Vale a reflexão: a quem realmente interessa essa polarização?

Érica de Oliveira Nora
é jornalista e ilustradora




