A sensibilidade na agitação cotidiana

“Ouro sobre azul”! Quem já ouviu essa antiga expressão popular cujo significado indica que tudo transcorreu naturalmente, da melhor forma possível, sem ocorrências ou contrariedades. Infelizmente, no movimento da vida diária nem tudo acontece assim. Situações e decisões inesperadas nos tiram da zona de conforto, enquanto imprevistos inibem nossa capacidade instantânea de reagir racionalmente.

Ao longo da vida, em diferentes ocasiões, até mesmo pessoas mais equilibradas emocionalmente, por vezes, vacilam em situações casuais adversas, reagindo de forma intempestiva ou tomando decisões equivocadas. Essa dissonância de harmonia faz a mente fervilhar e sair dos trilhos, momentaneamente, gerando desconforto e remorso posterior, principalmente aquelas mais sensíveis à empatia. Nas rodas de prosa, esse escorregão de comportamento é conhecido popularmente por “pisada de bola”.

Em tempos tensos e complexos, marcados por ruídos externos, hiper estimulação e crises de ansiedade é compreensível, mas não justificável, cometer inadvertidamente alguns deslizes nesse sentido. Nestes momentos, a voz da consciência interior ecoa como alerta e reflexão das consequências de nossas ações. Circunstancialmente, um comentário invasivo, um gesto inconveniente, uma frase mal interpretada, um tom de voz mais agressivo, uma provocação irônica, soam doloridas como ofensa pessoal para o interlocutor desavisado da nossa convivência social ou até um desconhecido.

São Tomás de Aquino (1.225 – 1274) filósofo e teólogo dominicano, considerado um dos maiores pensadores da Igreja Católica afirmava que o juízo das nossas atitudes entre o certo e o errado é a consciência. Segundo ele, a essência dessa advertência divina é a “voz de Deus”. Frequentemente ouvimos a célebre frase – “Dormi com a consciência tranquila” -Como é prazeroso a sensação de ter feito a coisa certa nos debates acalorados do dia a dia, sobretudo, quando contribuímos para a construção de relações interpessoais mais saudáveis e compreensivas.

Como curioso no assunto, imagino que todos, indistintamente, possuem uma curadoria própria de suas ações, definida pelo caráter, princípios e experiências vivenciadas. Erros e acertos fazem parte dessa trajetória existencial, mesmo porque, nem sempre, o cérebro nos oferece uma opção apropriada no impulso da emoção.

A boa noticia é que existe a possibilidade de reparar essas questões delicadas, mormente, se os envolvidos forem familiares ou fraternos de longa data. Tudo depende de iniciativa e boa vontade. Reconhecer que ultrapassou o limite do respeito mútuo é o primeiro passo. Em sequência, de forma humilde, se desculpar pelo ocorrido. Nos casos simples costuma funcionar. Em outros, mais melindrosos, a estratégia de abordagem precisa ser bem elaborada, sob pena de gerar mágoa e rompimento da relação. Deixar as coisas indefinidas até que se solucionam por si só não é o caminho mais aconselhável nessas horas.

Em ambientes exaltados é bom lembrar que a paz interior vale mais que um bom argumento lógico. O sentimento do remorso é desgastante, porém, tentar ignorá-lo é muito mais prejudicial à saúde e ao bem estar.

Concluindo, qualquer gesto solidário nesta direção, fortalece a amizade, engrandece o coração e dignifica a condição humana.

Raul Andrade é engenheiro agrônomo e
membro da Academia de Letras
de São João da Boa Vista

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