A Tecnologia Digital como Arena Política

O debate sobre o desenvolvimento das tecnologias no contexto das sociedades humanas envolve ampla gama de temas, já que, quando se pensa nas formas pelas quais as relações e comportamentos humanos têm se transformado ao longo do tempo, as mais diversas elaborações técnicas sempre participaram e contribuíram para a informação dos ambientes sociais entre multifacetados panoramas históricos.

Assim, ao introduzir o pensamento nesse debate, uma pluralidade de formas da tecnologia como componentes sociais torna-se evidente. Neste texto, o enfoque dado à tecnologia elege uma vertente específica da sua manifestação, relacionada às tecnologias concernentes às atividades de comunicação e, entre estas, as realizadas por meio de ferramentas digitais. Se, por um lado, portanto, definem-se as tecnologias de comunicação digital como objeto de interesse desta investigação, a perspectiva com que se realizará a aproximação ao objeto ainda reserva múltiplas possibilidades de abordagem.

Sobre tecnologias de comunicação digital, pode-se avaliar, por exemplo, seu aspecto técnico, o impacto econômico, as possibilidades educacionais, políticas públicas, big data, revolução comportamental etc. Entretanto, ao se abordar as tecnologias da comunicação digitais, esta pesquisa estabeleceu como horizonte de análise seu aspecto político.

Definidos, desse modo, objeto e forma de abordagem, a questão inaugural deste capítulo propõe investigação sobre o que vem a ser o aspecto político de uma tecnologia, ou rigorosamente especificado, o aspecto político da tecnologia de comunicação digital.

As atividades desdobradas pretendem registrar e delinear uma possível forma de observação dessas transformações das relações sociais que configuram as democracias do período contemporâneo da história ocidental e inauguram caminhos para outras formas de comunicação.

Nesse contexto, portanto, embora o pensamento grego ainda seja um marco de referência para os debates sobre filosofia política, haja vista a densidade de suas reflexões e a contribuição que ainda hoje oferecem à reflexão teórica, depois de séculos de desenvolvimento técnico e do advento de tecnologias digitais, capazes de realizar atividades de outrora com velocidade, precisão e eficiência jamais vistas, essas reflexões demandam atualizações e reavaliações constantes, de modo que, em pleno século XXI, o que seria isso que ainda se nomeia democracia? Como seria pensá-la nos dias atuais de maneira pertinente e em relação à tradição do pensamento político grego?

É certo que quaisquer respostas a essas questões conduzem a inúmeras outras indagações, tais como, em relação ao propósito aqui estabelecido: se as tecnologias de comunicação digital inauguraram modos de atuação política favoráveis à vida democrática, como o foram as manifestações de junho de 2013; e se o ciberativismo pode ser interpretado como aperfeiçoamento, transição formal ou algum outro movimento de atualização da democracia, como se observa nas ações de coletivos jornalísticos e de cobertura dos eventos do período.

Os levantes recentemente ocorridos em todo território brasileiro inviabilizam, em suma, a abordagem do conceito de democracia pura ou redutivamente, segundo a matriz de sociedades cujas tecnologias se restringiam a técnicas analógicas e não eletrônicas, uma vez que isso implicaria certo descarte de transformações sociais consideráveis das quais as tecnologias são materialização.

Se em seus aspectos biológicos a evolução da espécie ocorre lentamente, por outro lado, o comportamento e a convivência societal humanos se mostram bem mais suscetíveis às transformações e interações que os artifícios tecnológicos promovem.

Assim, a proposta que se inaugura nesta etapa da argumentação da pesquisa é avaliar a configuração dessa democracia, um formato de organização política em elaboração desde a virada do século, num tempo em que o mundo só existe como uma grande metrópole, ou aldeia global, e a economia, a arte, o entretenimento etc, falam um mesmo idioma graças às Tecnologias de Informação e Comunicação, TICs, à aceleração dos processos sociais, à virtualização das relações humanas e a uma improvável digitalização do pensamento.

 

Marco Aurélio Ferreira é doutor em Comunicação e
Semiótica pela PUC/SP, reitor da Unifae e conselheiro do
Conselho Estadual de Educação de São Paulo.

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