O tempo também brinca

Em outubro, chega o Dia da Criança, e aí percebemos como um ano passa tão depressa quanto a própria infância. É piscar os olhos e ver adultos nossos filhos, netos e, no meu caso, alunos! Uma dualidade de sensações que mescla um lado gratificante e outro que nos preocupa com o fato de estarmos ou não aproveitando bem o tempo que Deus nos reserva. Pensar em Dia da Criança também envolve a escolha de qual item vamos adquirir para presentear as nossas crianças. Hoje em dia, com tanta tecnologia, tudo se torna mais difícil, pois, além das opções tão sofisticadas, o próprio público mirim também está muito mais exigente e não se contenta com qualquer boneca ou carrinho. Da nossa parte, precisamos colocar a criatividade para funcionar e sair à procura de algo que combine a personalidade da criança e a originalidade do brinquedo.

Sobre o assunto, eu estava conversando com uma amiga cujo comportamento é “investigativo”, no sentido de buscar descobrir as origens de tudo. Foi ela quem me contou que muitos dos brinquedos que as crianças de hoje conhecem – e com os quais, na verdade, seus pais e avós brincavam em suas infâncias – não surgiram exatamente como brinquedos. Minha amiga também me passou o “Guia dos Curiosos”, um ótimo e-book de Marcelo Duarte, com temas de diversos segmentos – dentre eles, os brinquedos. O “curioso”, nesse caso, é notar que tudo se modifica ao longo do tempo e sai do seu contexto original.

O ioiô, o bumerangue e a pipa são alguns dos itens que não foram concebidos originalmente para serem brinquedos! O primeiro deles – muito procurado em tempos de Copa do Mundo, sempre colorido e que ganhou, inclusive, campeonatos e torneios – surgiu nas Filipinas no século XVI, como uma arma. Isso mesmo, o ioiô era utilizado por guerreiros e era fabricado com pedras amarradas a cordas longas e resistentes. As pedras eram arremessadas para golpear o inimigo ou capturar animais na selva, retornando para a mão do caçador caso errassem o alvo. Somente depois de muitos anos, o objeto passou a ser o brinquedo atual, graças à adaptação que europeus e norte-americanos lhe deram.

Origem semelhante teve o bumerangue, vindo da Austrália, onde os aborígenes criaram o arco pesado de madeira para a caça de aves e animais de médio porte. Alguns modelos retornavam para as mãos que os lançavam, no intuito de treinar o arremesso ou assustar bandos em direção a armadilhas.

O mais inusitado de todos, com certeza, é a pipa, tão querida por todos e atemporal, pois continua sendo objeto do desejo de tantas crianças até hoje, mesmo com o surgimento de tantos brinquedos tecnológicos. Mas as pipas não eram armas por levarem cerol na linha! Em absoluto. Inventadas na China antiga, há mais de 2.000 anos, as pipas serviam inicialmente para fins militares, pois transportavam mensagens secretas entre tropas distantes. Além disso, mediam o espaço que separava fortificações inimigas ou eram equipadas com ruídos e fogo para, durante a noite, amedrontar exércitos adversários. Verdade é que o tempo que faz as crianças crescerem também transformou a antiga arma militar em uma alegre brincadeira recreativa, que preenche o céu de cores e alegria. O importante é curtir a infância dos que estão próximos a nós e até pegar carona para nos lembrar que também fomos crianças.

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Marly Camargo
Academia de Letras de São João da Boa Vista
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

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