À primeira vista pode parecer contraditório juntar Fernando Furlaneto e Theatro Municipal em um mesmo artigo, mas convenhamos, se houver culpados é a genética de nossa própria cidade que não se esquece de sua história, de suas raízes, pois sabe da importância dos que os antecederam na formação do presente e na projeção do futuro. Esse jeito de amar, próprio das pessoas de São João, é mostra inequívoca dos genes culturais dos sanjoanenses sejam eles por nascimento, por outorga, ou forasteiros que aqui aportaram, respiraram do ar da Mantiqueira, beberam da água do Jaguari e enriqueceram os dons culturais e artísticos de São João.
Em setembro, ainda dentro das comemorações da 49ª Semana Guiomar Novaes, foi inaugurado o Galeria Fernando Furlaneto em frente ao Cemitério da Saudade, localização perfeita, pois é nesse campo-santo que se encontra a maioria das obras desse escultor nascido em nossa cidade. Ali estão expostos alguns de seus modelos, em gesso, restaurados pela Silvia Bastos. Mas vamos à história, quando em 1985, faleceu Fernando Furlaneto, grande amigo do artista plástico José Marcondes, sua viúva Mercedes Beozzo procurou-o para que a ajudasse a dar um destino aos moldes de gesso que estavam no ateliê-barracão e sofrendo as intempéries do tempo. Uma marmoraria, do escultor Vilmo Rosadas de Rio Claro, queria comprá-las. Marcondes, de imediato, tirou-lhe essa ideia, pois tão importante acervo deveria ficar na cidade. Saiu, pois, a procura de “lugares apropriados” que acabaram sendo repartições públicas: Fórum, Prefeitura, Velório, Câmara Municipal, Museu Armando Salles, escolas como Instituto de Educação, Padre Josué, Joaquim José, e ali elas foram colocadas e ali se encontram até hoje. O portão do ateliê foi para a Unifae e hoje ostenta-se na entrada da Galeria. O “menino da chupeta” foi para a família Pirajá que, posteriormente, a dou para o Memorial. O busto de Fernando, feito pelo seu amigo Rosadas, por conselho de Marcondes, foi colocado no início da avenida Dona Gertrudes e nele estão presentes os três elementos com os quais Fernando trabalhava: o mármore, o granito e o bronze.
Setembro se foi, outubro iniciou-se, e eis que o jovem e talentoso Eduardo Menezes, de maneira primorosa, fez um recorte histórico do Theatro Municipal, desde sua origem, em 1913, com a criação da Companhia Teatral Sanjoanense, até os dias atuais. Foram 113 anos de história contados por pessoas que conheciam ou viveram sua trajetória, seus desmandos, as desditas, as glórias, as alegrias, as tristezas, como também os problemas e soluções, dessa “Casa de Sonhos”. Foi um momento de grande emoção onde lembranças e novos conhecimentos se mesclaram numa noite de encanto.
Hoje, o Theatro aqui está para nosso orgulho, mostra inequívoca de que São João, historicamente, é uma cidade que prestigia a arte e a cultura. Foi, uma noite de imenso incentivo, para que as novas gerações conheçam e amem sua cidade, e sejam “vacinadas com o vírus”, não só histórico, mas também artístico e cultural da cidade dos “Crepúsculos Maravilhosos”.

Maria Célia de Campos Marcondes
é nenbro da Academia de Letras de São João da Boa Vista




