Quando a ficção desmascara o poder – Lançamento de livro!

Uma sociedade pode conviver tanto tempo com o absurdo que acaba deixando de percebê-lo. O privilégio ganha aparência de mérito; a mentira, repetida com segurança, transforma-se em convicção; a exploração recebe um nome elegante; e o autoritarismo procura apresentar-se como proteção. Quando essas inversões entram na linguagem cotidiana, a literatura encontra uma tarefa urgente: devolver estranhamento àquilo que aprendemos a aceitar.

A ficção pode contribuir para transformar a realidade porque modifica as perguntas que fazemos sobre ela. Um romance não aprova uma política pública nem repara sozinho uma injustiça. Pode, entretanto, revelar experiências que ignorávamos, expor justificativas que repetíamos e produzir o desconforto necessário para rever nossas escolhas. Essa capacidade se torna especialmente poderosa na sátira política. Por meio da ironia, da caricatura e do exagero, ela desorganiza a solenidade do poder. A autoridade que exige reverência aparece com suas vaidades, seus cálculos e suas contradições. O leitor ri enquanto sente que o motivo da gargalhada envolve um sofrimento bastante sério.

O escritor britânico George Orwell reconheceu a possibilidade de unir elaboração artística e intervenção pública. Em Por que escrevo, afirmou que queria “transformar a escrita política em arte” (em tradução livre). Seu projeto ajuda a compreender por que uma obra politicamente comprometida precisa trabalhar também a linguagem, os personagens e a experiência do leitor.

É nesse horizonte que apresento o lançamento do meu livro A Saga Burlesca de Vilanildo Dezo Nesto, com ilustrações de meu filho João Vitor. Minha formação como historiador e analista do discurso contribuiu para construir uma narrativa que examina tanto as relações de poder quanto as palavras usadas para justificá-las. Procurei reunir ousadia crítica, criatividade e elaboração literária numa história que começa com o humor e avança em direção a conflitos políticos, morais e existenciais.

Vilanildo é um personagem ficcional que aprende cedo a vencer com a estrutura oferecida pela família. Mais tarde, apresenta essa vantagem como realização exclusivamente pessoal. Ao longo de sua trajetória, a ambição encontra operadores, financiadores e comunicadores capazes de converter interesses particulares em mensagens sedutoras. O livro denuncia, pela ficção, o uso eleitoral da fé e do medo, a desqualificação da ciência, a fabricação de inimigos, o enfraquecimento da proteção ao trabalhador e a confusão entre interesses familiares e governo. No capítulo do Trap Master, documentos e suspeitas colocam em tensão negócios, recursos e estruturas políticas. A narrativa acompanha a necessidade de apuração e as tentativas de substituir respostas por discursos de perseguição. Essa construção exige uma distinção: o romance não pretende servir como prova sobre pessoas reais. Sua contribuição consiste em tornar visíveis mecanismos e convidar o leitor a examiná-los com rigor.

Além disso, Vilanildo nunca está sozinho. Sua ascensão depende de quem financia, organiza, legitima, compartilha e se cala. A crítica alcança, portanto, as relações que tornam possível a construção de um personagem público e, sobretudo, a participação de uma sociedade que pode preferir certezas confortáveis a perguntas difíceis. Considero essa uma contribuição necessária ao debate brasileiro: criar condições para que o leitor examine discursos, consequências e responsabilidades, inclusive quando o desconforto alcança suas próprias preferências.

Por tudo isso, a leitura de A Saga Burlesca de Vilanildo Dezo Nesto é um convite à inquietação. O riso pode abrir uma passagem para compreender o poder. A reflexão pode orientar escolhas mais responsáveis.

A transformação, contudo, exige participação, solidariedade, informação e disposição para corrigir caminhos.  A Saga Burlesca de Vilanildo Dezo Nesto está disponível em edição impressa e e-book Kindle, também no Kindle Unlimited. Acesse o site da Amazon e me acompanhe nessa jornada de leitura!

 

 Antonio Artequilino da Silva Neto é Doutor em Linguística,
mestre em Educação, historiador, professor e escritor.
YouTuber – “Pensar com Arte – quilino”: youtube.com/@arte-quilino

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