Às vezes, me surpreendo pensando na relação atávica e histórica da comunidade sanjoanense com o universo da Cultura e suas manifestações.
A cidade possui uma aguçada sensibilidade artística multicultural que aproxima e conecta pessoas de diferentes origens e gerações. Essa paixão pelas artes é antiga. Nessa lógica, talvez a evidência mais expressiva remonta ao início do século passado, quando sanjoanenses sentindo essa necessidade latente, se uniram e cotizaram para construir o Theatro Municipal, inaugurado em 1914, que se tornou a maior relíquia cultural de São João. Décadas mais tarde, se empenharam, novamente, para restaurá-lo para que voltasse a atuar como principal espaço difusor de arte e cultura no município.
Na rotina da vida cotidiana nos acostumamos com uma agenda cultural dinâmica e requintada todos os anos, sem nos dar conta que o privilégio que vivenciamos hoje, foram desejos e sonhos de conterrâneos nossos que souberam criar uma identidade cultural própria e transformar intenções passageiras em compromissos permanentes.
Criou-se uma sinergia compartilhada entre voluntários idealistas, comunidade e o poder público em diferentes esferas. Trabalhando lado a lado, com propósito, dedicação e muita perseverança conseguiram estabelecer diretrizes sólidas com garantia de continuidade, visando consolidar e ampliar o acesso à cultura num horizonte de longo prazo. Uma conquista extraordinária de gente sanjoanense que sabe “fazer acontecer’!
Um estudo interessante da Universidade de Harvard concluiu: “o desempenho do governo em qualquer instância, depende do grau de engajamento cívico de seus cidadãos”, ou seja, do capital social daquela coletividade. Isto explica, entre outros fatores, a razão de municípios de tamanhos e características semelhantes tenham resultados tão diferentes em termos de organização estrutural e de iniciativas em parceria com o poder público.
Um dos principais traços característicos dessa herança cultural é a virtude da perseverança. Nesse sentido, cito alguns exemplos exitosos de longevidade consagrados pelo público. No próximo ano, a Semana Guiomar Novaes completará 50 edições. Um evento tradicional com programação eclética que contempla uma ampla variedade de experiências culturais e um repertório variado procurando atender às diversas escolhas do público. Outra festa popular cinquentenária é a Eapic com shows de outros gêneros musicais de raiz e sucessos do momento.
Na área musical, temos ainda a oportunidade de apreciar o Festival Assad, considerado um dos maiores eventos de música instrumental do país e está na 14ª edição e na dramaturgia um Festival de Teatro Amador com mais de três décadas.
No convívio intelectual, temos uma pujante Academia de Letras que completa 55 anos dedicados ao zelo e disciplina da língua e da literatura nacional com sessões regulares e um concurso literário de ampla abrangência e que está na sua 34ª edição anual. Na área de preservação e valorização da memória e história local temos três instituições bem atuantes: o Museu Histórico e Pedagógico com 56 anos, o de Arte Sacra com 39 e o Arquivo Municipal que celebrou bodas de prata recentemente. Todas funcionando plenamente com interessantes exposições temáticas sazonais.
Existem ainda, outras iniciativas louváveis e duradouras em todos gêneros artísticos seguindo a mesma trajetória. Outro diferencial da cidade é a infraestrutura destinada a esse fim, com destaque para os três teatros da municipalidade e outros espaços dedicados ao estudo das Artes, acrescida da recém inaugurada Galeria Fernando Furlanetto.
Sobre a relevância do tema, concluo com uma frase do poeta Ferreira Gullar (1930-2016): “A arte existe porque a vida não basta”. É importante a coletividade manter e inovar esse legado cultural, estimulando a criatividade e despertando novos olhares, vozes e ideias.

Raul Andrade é engenheiro agrônomo e membro
da Academia de Letras de São João da Boa Vista




