Quem produz na região de São João da Boa Vista sabe que energia é custo, é turno, é fazer a máquina ligar na segunda-feira. Por isso, o debate mundial sobre “energia do futuro” precisa descer do Vale do Silício e parar na porta da fábrica, onde há pessoas trabalhando e, portanto, empregos, renda e movimentação da economia. E onde tudo só funciona se houver energia.
Há duas apostas grandes em curso. De um lado, empresas como a americana Helion tentam colocar na rede a fusão nuclear — a mesma reação que faz o Sol brilhar — com meta agressiva de entregar eletricidade ainda nesta década. A Helion já constrói a primeira usina, de 50 megawatts, no estado de Washington, com contrato para a Microsoft. Tem concorrência pesada, sobretudo a Commonwealth Fusion Systems, com mais capital e um projeto maior, de cerca de 400 megawatts. Até agora ninguém colocou um megawatt de fusão comercial na tomada. O prazo é ousado. O dinheiro já investido passa de US$ 1,5 bilhão só na Helion; a rival já passou dos US$ 4 bilhões. Isso não compra a usina, compra o direito de tentar.
Do outro lado, Elon Musk insiste naquele que já traz luz diariamente para o planeta, o Sol. O argumento dele é simples e difícil de ignorar. Já existe um reator de fusão enorme e de graça no céu. O trabalho da engenharia seria coletar essa energia com painel e bateria e, no limite, colocar computação de inteligência artificial em órbita, alimentada por solar espacial. Ainda que pareça birra com este ou aquele investidor, isso tende mais para uma tese, já que a energia solar está hoje entre as fontes mais baratas de geração de eletricidade, quando o sol está no céu.
E o painel na Terra ainda evolui? Sim, mas o salto fácil acabou. O silício comum está perto do teto. O próximo degrau são as células em tandem — duas camadas, uma delas de perovskita — que no laboratório já passam de 35% de eficiência, contra 22% a 24% do módulo que se compra hoje. Isso barateia o megawatt-hora ao meio-dia. Não resolve a terça-feira à noite, nem o inverno nublado, nem o forno que não pode parar.
Mas se o Musk levar o data center para o espaço, a demanda de energia na Terra cai? Não. Data center é fatia visível e barulhenta, mas ainda pequena no total mundial — perto de 1% da eletricidade hoje, rumo a uns 3% em 2030. O que puxa consumo de verdade é indústria, ar-condicionado, carro elétrico, motor, calor de processo. Aço não vai para órbita, nem tampouco corte a quente. O distrito industrial da nossa região não vai para órbita.
Se as duas teses vingarem, o mercado se parte em três. O megawatt-hora barato do dia fica com o solar, a energia firme — a que a indústria paga para ter garantia — pode ficar com a fusão, se o custo cair, ou com gás, hidrelétrica e nuclear de fissão enquanto isso não acontece. E o treino pesado de inteligência artificial, aí sim, pode emigrar para o satélite. São produtos diferentes. Quem mistura tudo acaba comprando narrativa.
No Brasil, que já conta com forte presença de fontes renováveis em sua matriz elétrica, a discussão ganha outro contorno. Além de produzir energia, o desafio é garantir disponibilidade, transmissão, estabilidade e preço competitivo. Para quem está no interior paulista, como nós, aqui na região de São João, o recado é prático. Precisamos de energia previsível e em volume.
E isso não interessa apenas a quem está dentro da fábrica. Energia cara ou instável entra no custo de produção, pesa na decisão de contratar, ampliar ou investir e, em alguma medida, chega também ao consumidor. Quando uma empresa deixa de abrir um turno ou adia uma expansão, o efeito aparece no emprego, no comércio, nos serviços e na renda que circula na cidade.
Enquanto a fusão não entregar o primeiro elétron na rede, o que decide investimento aqui continua sendo tarifa, fio, demanda contratada e segurança de suprimento. O Ciesp tem buscado exatamente isso, mapear carga, negociar suprimento, defender a indústria que emprega nos 20 municípios da Regional. E como a maioria das tecnologias que pudemos testar em nosso dia a dia até hoje, o futuro energético não vai chegar pronto e de graça. Vai chegar na conta, no transformador e na decisão de ampliar ou não um turno. Até lá, acompanhar as apostas grandes é útil. Substituir o chão de fábrica por elas, não.

Adriano Alvarez é empresário e primeiro
vice-diretor do Ciesp – Diretoria Regional
de São João da Boa Vista




