O Tarô, o I Ching e a Sincronicidade

Em 1928, o fundador da psicologia analítica Carl G. Jung, atravessava uma crise pessoal. Havia rompido relações com o seu mentor Sigmund Freud e dedicava-se a um projeto pessoal sobre o qual não estava muito seguro. Temia pelos impactos profundos que observava em sua própria psique. Mergulhava num mundo de representações simbólicas que o intrigava por não entender seu significado. Foi quando o amigo Richard Wilhelm lhe entregou a tradução de um livro sobre a alquimia chinesa: O Segredo da Flor de Ouro. Este texto representou uma verdadeira revelação para Jung e promoveu uma revolução na psicologia ocidental. Jung percebeu que a alquimia oriental havia mapeado o inconsciente e a totalidade psíquica usando linguagem simbólica e práticas meditativas, como ele próprio vinha fazendo. Assim, compreendeu que os símbolos que emergiam em seus exercícios imaginativos e narrativas oníricas não eram sinais estáticos. Antes, eram uma força viva e dinâmica capaz de guiar o indivíduo e construir uma ponte entre a consciência e as regiões inconscientes. Ao compreender sua dinâmica, Jung ampliou as fronteiras do inconsciente pessoal. Ele abriu as portas para o entendimento da nossa relação intima com as forças da natureza; aquelas que nos mobilizam por meio do que ele denominou inconsciente coletivo. Reconheceu sua característica arquetípica, bem como a unificação do espaço-tempo dos fenômenos psíquicos. Ideia que Jung chegou a discutir com Einstein, já famoso pela teoria da Relatividade e de quem era amigo. Após o contato com o texto apresentado por Wilhelm, que também fez a mais completa tradução do I Ching – o Livro das Mutações para línguas ocidentais, Jung passou a se dedicar ao estudo da Alquimia ocidental. Ali, também identificou os mesmos padrões que unificavam matéria e psique naquilo que os alquimistas medievais chamavam ‘unus mundus’ (mundo uno). Mas, foi somente após o encontro com o físico Wolfgang Pauli – famoso pelo trabalho com a teoria quântica pelo qual recebeu o Prêmio Nobel em 1945 – que Jung concebe o tema que o manterá ocupado pelo resto da vida. Com Pauli, Jung vai desenvolver o conceito central na sua teoria, a Sincronicidade. Uma ideia complexa, mas tão fundamental – por isso sutil – que até hoje, é muito mal compreendida e não se insere no restrito panorama científico. A ciência ocidental marcada pela causalidade, não sabe lidar com os fenômenos não-causais, base da Sincronicidade. Fatores que independem do tempo e do espaço escapam à metodologia científica. Jung entendeu e explicou a diferença entre o pensamento ocidental e o oriental devido a esses fatores. A visão ocidental, com base em causa-efeito tem dificuldade em compreender a oriental, espelhada na sincronicidade das relações acausais. Dessa forma, no prefácio que escreve para a tradução de Wilhelm do I Ching, Jung explica o mecanismo de funcionamento desta arte divinatória, bem como os fundamentos arquetípicos de todas as outras artes simbólicas, como o Tarô, por exemplo. Entretanto, para além dos temas abordados por Jung e Pauli, a sincronicidade e a unidade subjacente do unus mundus poderiam explicar entre outras coisas, questões da ciência incontornáveis até o momento, como por exemplo, o “problema difícil” da consciência – relação mente/matéria – e o entrelaçamento quântico – que Einstein chamava de “ação fantasmagórica à distância”. Ambos são fatos observáveis, portanto reais, mas ninguém ainda é capaz de explicar como funcionam. Quem sabe para que isso ocorra, não tenhamos que olhar para o universo dos arquétipos e do conhecimento ancestral que preserva a unidade subjacente do mundo único como ensinou Jung? O I Ching e o Tarô, estão aí à nossa volta.

Para isso, é só buscar uma Bruxa na cidade.

Ronaldo Marin é físico,
humanista e shakespeareano

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