A Educação Física alertava para os riscos da inatividade

Em junho de 2020, quando o mundo ainda buscava compreender a dimensão da pandemia de COVID-19, profissionais de Educação Física de São João da Boa Vista decidiram levantar uma discussão que, naquele momento, estava longe de ser consensual.

Não se questionava a gravidade da crise sanitária, tampouco a necessidade de medidas destinadas à proteção da população. A preocupação apresentada pelos profissionais concentrava-se nos efeitos que a inatividade física prolongada poderia produzir sobre a saúde.

Naquele período, academias, clubes, centros esportivos e diversos espaços destinados à prática de exercícios encontravam-se fechados. Diante desse cenário, um grupo de profissionais mobilizou-se, produziu documentos, realizou levantamentos e procurou demonstrar que a atividade física não poderia ser compreendida simplesmente como lazer, mas também como componente relevante da promoção da saúde.

A edição de O MUNICIPIO de junho de 2020 registrou aquela mobilização. Professores de Educação Física defendiam a retomada responsável das atividades, com protocolos sanitários, controle de acesso e acompanhamento profissional.

Seis anos depois, aquela discussão merece ser revisitada, não para reescrever a história com o conhecimento disponível atualmente, mas para compreender uma lição importante: decisões de saúde pública precisam considerar o ser humano de maneira integral.

Naquele momento, nossa preocupação estava fundamentada em um princípio elementar para a Educação Física: o organismo humano necessita de movimento regular para preservar diferentes dimensões de sua saúde.

A interrupção prolongada da atividade física poderia produzir consequências sobre o condicionamento cardiovascular, a composição corporal, a saúde metabólica, a autonomia funcional e também sobre aspectos emocionais.

Levantamentos realizados naquele período com pessoas anteriormente ativas já apontavam mudanças importantes nos hábitos. Entre os dados reunidos pelo movimento, observava-se crescimento do sedentarismo e aumento da insatisfação com a própria condição física.

A reivindicação, portanto, nunca se limitou à reabertura de academias. O objetivo era defender a preservação da saúde por meio da atividade física orientada, realizada de maneira responsável e compatível com as condições sanitárias daquele momento.

Esse aspecto continua sendo fundamental. Academias, clubes, espaços públicos, centros esportivos e programas de exercício não devem ser vistos apenas como locais de entretenimento, pois integram uma rede mais ampla de promoção da saúde e prevenção de doenças.

Talvez uma das principais conclusões que possamos retirar daquele período seja a necessidade de ampliar a compreensão sobre o papel da Educação Física nas políticas de promoção da saúde.

O profissional de Educação Física não atua apenas com desempenho esportivo ou estética. Sua intervenção alcança a prevenção de doenças, a promoção da saúde, a manutenção da capacidade funcional, o controle de fatores de risco associados às doenças crônicas e a melhoria da qualidade de vida em diferentes faixas etárias.

Sua atuação também contribui para a socialização, para o desenvolvimento humano e para a construção de hábitos de vida mais ativos e saudáveis.

Por essa razão, ao defender, em 2020, que a atividade física orientada deveria integrar as estratégias de saúde, os profissionais levantavam uma questão que ultrapassava os interesses de academias, clubes ou da própria categoria profissional. Tratava-se, essencialmente, de uma discussão sobre saúde pública.

Ao observar novamente a reportagem publicada em 2020, o aspecto que merece ser destacado ultrapassa qualquer discussão política. Trata-se do reconhecimento de que profissionais de Educação Física cumpriram seu papel ao apresentar, naquele momento de enorme incerteza, uma preocupação técnica relacionada aos efeitos do exercício e da inatividade sobre o organismo humano.

Desde então, o debate amadureceu, os estudos avançaram e novos documentos foram produzidos. Nesse processo, tornou-se ainda mais clara a necessidade de compreender a atividade física como componente permanente das políticas de prevenção, qualidade de vida, desenvolvimento humano e promoção da saúde.

Essa talvez seja a principal mensagem que vale recordar seis anos depois. A maior bandeira daquele movimento nunca foi simplesmente a abertura de academias, mas o reconhecimento de que o profissional de Educação Física e os espaços destinados à prática corporal possuem papel relevante e permanente na proteção e na promoção da saúde da população.

Por professor Marcelo Siqueira,
com apoio dos professores Luís Cláudio
P. Bossi e Guilherme Marson Junqueira

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