Era sexta-feira à noite de uma semana que choveu todos os dias. Escolhemos os aperitivos, abrimos um vinho e sentamos em volta da mesa, todos reunidos para brindarmos juntos. Não sabíamos que em 24 horas aquele cenário mudaria. Nesse mesmo horário, no dia seguinte, minha cachorrinha começava um quadro que mais tarde se tornou irreversível e ela partiu.
Durante 18 anos, todos os brindes que acontecia em uma casa de enófilos e apreciadores, ela estava junto, ao nosso lado. Brindamos inclusive a ela, a cada árvore de natal que ela participava da montagem, a cada confraria da sexta e a cada aniversário que era comemorado na sala ou no quintal de casa.
Lá, os brindes são enfáticos: não se bebe antes de brindar e não se brinda quando ainda falta alguém. E na parte de “quando ainda falta alguém” ela estava sempre inclusa.
Essa narrativa é real, e eu sei que ela não conta apenas a minha história, ela é a realidade de muitas outras casas, onde os animais participam, junto aos tutores, das confrarias que ali acontecem. Devo dizer que não só nas casas, mas os cachorros vêm participando cada vez mais do mundo dos vinhos, também nas vinícolas.
Ora, nada mais justo dar destaque a uma figura que participa das histórias do vinho desde o seu surgimento. Existe uma lenda de que, na Grécia antiga, uma cachorra tenha dado à luz a um pedaço de galho, que ao ser plantado, surge a primeira videira da humanidade, carregada de uvas.
A busca pelo entendimento do surgimento de algo tão valioso para a história, parece excêntrica – e de fato é, mas a participação dos cães na formação e desenvolvimento das videiras não para por aí.
Outro dia, acompanhando um cliente em sua vinícola que produz vinhos de altitude, vi dois cachorros que corriam soltos por toda a área, mesmo ela sendo bem íngreme. O difícil acesso a alguns pontos da vinícola, fez com que o mato crescesse e o caminho, para chegar ao topo, desaparecesse. Nós custamos para chegar de carro na vista mais privilegiada da área, mas quando ali chegamos, eles já estavam lá nos esperando.
Conhecer cada canto das vinícolas que os adotam, tem feito com que surja uma cultura no mundo chamada de “winery dog” (cão da vinícola). Que nada mais é que um recepcionista informal do local, é como se o vinho já tivesse um cachorro antes de ter um sommelier.
A brincadeira teve destaque, ainda na década de 1990, quando dois artistas australianos começaram a visitar vinícolas e notaram que todas tinham um cão. Esses cães não ficavam necessariamente escondidos, eles recebiam os visitantes, circulavam entre os vinhedos e acompanhavam as degustações. Foi então que começaram a fotografá-los e o projeto virou, em 2003, um livro chamado Wine Dogs Australian, que depois ganhou edições na Itália, Nova Zelândia e California.
Em meio a terroir, tanino, acidez, denominação, fermentação, safra, chegar a uma sala de degustação pode até te deixar inseguro em não saber o que falar do vinho. Mas ao chegar em uma e ver um cachorro deitado no chão torna a conversa mais humana.
E é isso que tem se observado, o cachorro ajuda a criar uma atmosfera mais acolhedora e menos intimidante, principalmente para quem é novo no assunto. Foi assim, que muitos produtores tem redirecionado seus olhares e estampado em seus rótulos caricaturas dos grandes ícones de suas vinícolas: seus cães.
O cachorro é isso! Antes de ser um bom farejador que ajuda na prevenção de pragas, ele é um ser repleto de amor, que vive melhor do que ninguém, as alegrias que um vinhedo pode nos trazer.
Que cada brinde nosso, tenha essa mesma felicidade! Porque o meu brinde de hoje, vai para a nossa Missy, que trouxe tantas alegrias a cada taça de vinho que participou com a gente.
Um brinde, Missy, nós te amaremos para sempre.

Mariana Mendes De Luca
@marianamdeluca



