Estudante será o 3º brasileiro a receber prêmio internacional de medicina

Por Ana Laura Moretto
[email protected]

Uma experiência pode mudar tudo. Foi o que aconteceu com o estudante de Medicina Pedro Docema, depois de uma história vivida durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, em 2024. O que começou como uma experiência marcante durante aquele período acabou ganhando novos caminhos e dois anos depois levará o estudante para a Dinamarca.

O estudante da Universidade de São Paulo (USP) está entre os três escolhidos no mundo para receber o Prêmio Ascona 2026, do Instituto Balint. A premiação será entregue no dia 4 de outubro, durante um congresso na Dinamarca, e reconhece jovens que demonstram um olhar humano e sensível para a relação entre médico e paciente. O prêmio criado em 1976 pela Federação Internacional Balint (IBF), em conjunto com a Fundação de Medicina Psicossomática e Social, reconhece histórias de relações médico-pacientes verdadeiramente humanas e é entregue a cada dois anos. Pedro será o terceiro brasileiro na história a receber a premiação.

Dedicação: Pedro atende em consultório improvisado (Arquivo pessoal)
Dinamarca: premiação será entregue dia 4 de outubro (Arquivo pessoal)

A história apresentada por Pedro nasceu durante uma ação humanitária do grupo Bandeira Científica no Rio Grande do Sul, em parceria com a Cruz Vermelha Brasileira e com apoio da FAB e da Defesa Civil. Durante os atendimentos, Pedro também conheceu histórias que iam muito além das necessidades clínicas. Uma delas foi a de um cacique gaúcho que havia perdido dois filhos durante a tragédia. Diante daquele homem, marcado pelo luto e por uma dor que não poderia ser resolvida com uma receita ou um procedimento, o estudante se viu diante de uma situação para a qual ainda não tinha respostas.

“Naquele momento, eu era um garoto à frente de um homem enlutado, oferecendo uma escuta e entendendo de vez como uma dor psicossocial pode ser infinitamente pior do que qualquer doença”, contou.

A cena permaneceu com Pedro mesmo depois de deixar o Rio Grande do Sul. Ele percebeu que cuidar não significava necessariamente encontrar uma solução imediata, mas estar presente, ouvir e compreender o contexto de vida de quem estava diante dele. Foi também quando começou a questionar a imagem de medicina que havia construído até então.

Até aquele momento, Pedro imaginava seguir pela ortopedia, mas experiências vividas no Sul e depois em diferentes territórios mudaram sua maneira de enxergar a medicina.

Ele passou a se interessar pelo que existe antes de o paciente chegar ao consultório. Buscou entender como o lugar onde uma pessoa vive pode influenciar sua saúde. Também começou a olhar para as desigualdades e para as condições de vida que fazem parte da história de cada paciente. Foi nesse contexto que Pedro encontrou um novo caminho. A saúde coletiva despertou seu interesse e fez com que ele passasse a enxergar a medicina além das clínicas e dos hospitais.

“Eu voltei do Sul muito menos interessado em trabalhar em clínicas e hospitais e muito mais animado para me debruçar sobre a saúde coletiva”.

A história que virou prêmio nasceu também de sua paixão pela escrita. Pedro costuma registrar os encontros com pacientes que o transformam e escolheu um desses relatos para a seleção. A confirmação chegou enquanto ele dirigia para São João, onde passaria o fim de semana com os pais. Parado para abastecer em Mogi Mirim, recebeu o e-mail que seu relato tinha sido escolhido.

“Apesar de eu ter entendido que tinha sido aprovado, joguei o e-mail em vários aplicativos de tradução até eu ter certeza de que era verdade”, brincou.

Na Dinamarca, além da cerimônia, ele espera encontrar referências internacionais em humanização e trocar experiências sobre tudo o que já viveu em aldeias, comunidades ribeirinhas e quilombolas.

NOVOS CAMINHOS
O reconhecimento internacional não é a única novidade na trajetória de Pedro. Em dezembro de 2025, ele venceu, na região Sudeste, o Prêmio Na Prática Protagonismo Universitário, entre mais de 8.000 inscritos.

Agora, também foi selecionado para um programa da Fundación Botín, da Espanha, voltado à formação de jovens lideranças em políticas públicas. Serão cerca de 50 dias ao lado de 32 jovens de 19 países.

“O prêmio da Dinamarca veio de uma história vivida durante uma expedição pela Liga e Bandeira Científica. A Botín reconheceu o esforço público e os resultados que já tivemos por meio do projeto”, explicou.

As experiências também o levaram a desenvolver habilidades em gestão de projetos e políticas públicas. Hoje, Pedro quer ser sanitarista, gestor de saúde e pesquisador. Recentemente também fundou um grupo de estudos sobre vulnerabilidade, governança e cidadania no Instituto de Estudos Avançados da USP. O projeto deve iniciar os trabalhos em janeiro, na Ilha do Marajó, estudando políticas públicas em Melgaço, no Pará, município que atualmente apresenta o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.

“É claro que eu poderia fazer uma boa residência, ser um especialista, ter um consultório, trabalhar em um grande hospital e provavelmente seria feliz. Mas escolhi seguir meu coração”, afirmou.

Aos estudantes que acompanham sua história e sonham em construir seus próprios caminhos, ele deixa um conselho que resume muito do que aprendeu até aqui.

“Aproveitem ao máximo cada etapa da vida de vocês! Não aceitem menos do que o máximo de si no caminho do que lhes traz felicidade!”, finalizou.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here