As lembranças de quem aprendeu piano com Guiomar Novaes

Por Ana Laura Moretto
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Às vésperas de mais uma Semana Guiomar Novaes, a história da pianista sanjoanense também pode ser contada pelas lembranças de quem teve a oportunidade de aprender diretamente com ela. Entre essas pessoas está o pianista Cláudio Richerme, que foi aluno de Guiomar durante seis anos e até hoje mantém os ensinamentos da mestra como referência em sua trajetória musical.

Registro: Claudio richerme ainda aluno ao lado da pianista Guiomar Novaes, em um
importante momento de sua trajetória musical (Arquivo Pessoal/Cláudio richerme)

A relação entre os dois começou quando Richerme iniciou seus estudos em São João da Boa Vista. Para aprimorar sua formação, passou a ter aulas com Guiomar Novaes.

Durante a “Prosa ao Piano: Guiomar e Outras Notas”, realizada pela Academia de Letras de São João da Boa Vista dentro da Semana Guiomar Novaes em 2021, o pianista foi convidado a relembrar os momentos com Guiomar. A proposta do encontro era justamente recuperar, por meio das memórias do pianista, a convivência entre professor e aluno.

Ao ser questionado se seria o pianista que é hoje sem ter estudado com Guiomar, ele respondeu sem hesitar.

“De jeito nenhum. Não seria de fato. A influência da pianista foi decisiva em minha formação. Mais do que ensinar repertório, Guiomar transmitia uma maneira de compreender a música, especialmente na relação entre técnica, sonoridade e emoção”, afirmou.

EXTREMAMENTE EXIGENTE
Entre as lembranças mais marcantes estão as aulas. O músico descreve Guiomar como uma pessoa dócil, mas também extremamente exigente.

“Ela não deixava passar absolutamente nada”, contou.

Um dos episódios que melhor traduzem a exigência de Guiomar aconteceu no Rio de Janeiro (RJ), quando ele se preparava para tocar a Segunda Balada de Chopin. Ela estava hospedada em um hotel e o aluno queria ouvir sua opinião antes da apresentação, mas não havia piano disponível. Então ela pediu que ele levasse a partitura, cantasse a obra e depois tocasse sobre o braço dela.

“Eu fui tocando a Segunda Balada de Chopin no braço dela. Ela dizia ‘não, eu não ouvi essa nota aqui. Canta mais esse baixo aqui, canta mais’. Então, foi me dando uma aula completa da Segunda Balada de Chopin no braço dela, como se eu estivesse tocando no piano”, relembrou.

A lembrança também revela uma das principais características de Guiomar como professora: a preocupação com cada detalhe da interpretação.

Ele contou que em determinado trecho da Segunda Balada, havia feito um rubato, que é um recurso de interpretação musical que permite alterar levemente o tempo de uma passagem, acelerando ou desacelerando para dar mais expressividade à execução. Para Guiomar, o aluno estava exagerando no efeito e deixando o trecho excessivamente romântico. Ela o corrigiu e deixou clara a maneira como gostaria que o trecho fosse executado.

“Ela encontrava o equilíbrio. Ela é o equilíbrio perfeito, musicalmente”, afirmou.

Parte dessa convivência ficou registrada em uma gravação de uma aula de cerca de três horas. O sanjoanense conta que não costumava gravar as aulas, mas uma amiga colocou um gravador escondido embaixo do piano.

Depois de horas de estudo, Guiomar pediu que ele repetisse o que já havia tocado.

“Eu estava cansado e comecei a errar. Ela foi ficando cada vez mais brava e irritada. Apesar da cobrança, Guiomar não era uma pessoa brava. Ela era uma pessoa exigente, mas muito maravilhosa e doce”.

ANOS DE PRIVILÉGIO
Richerme reconhece que teve uma oportunidade que poucos tiveram. Guiomar teve diversos alunos ao longo da vida, mas segundo ele, muitos tiveram contatos pontuais com a pianista.

“Eu tive esse privilégio. Tive essa sorte de estudar durante seis anos com ela”.

Para o pianista, a influência de Guiomar permanece mesmo décadas depois das aulas. Os ensinamentos sobre técnica, sonoridade e interpretação continuam presentes em sua maneira de tocar.

“Hoje eu tenho levado mais a sério os ensinamentos da Guiomar do que naquela época”, afirmou.

A relação entre os dois não terminou quando as aulas acabaram. Guiomar continuou acompanhando a trajetória do ex-aluno e em 1977, quando o recomendou para um intercâmbio musical nos Estados Unidos, onde estudou no American Conservatory of Music, em Chicago.

“Ela que me mandou para os Estados Unidos, com recomendação dela. E ela escrevia, acompanhava o que eu estava fazendo lá e mandava várias recomendações. Eu tenho essas cartas guardadas”, contou.

As correspondências são outro registro da relação entre os dois e mostram que mesmo depois dos anos de estudos, Guiomar continuou presente, acompanhando os caminhos profissionais do pianista.

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