IA não substitui o ser humano, substitui o atraso

A inteligência artificial já entrou na rotina de milhões de pessoas, muitas vezes sem que elas sequer percebam. Está nos aplicativos, nas buscas, nos sistemas das empresas e, cada vez mais, na maneira como trabalhamos. Curiosamente, enquanto ninguém mais perde tempo discutindo se o celular deveria ou não fazer parte da nossa vida, ainda gastamos muita energia perguntando se a inteligência artificial é boa ou ruim. Talvez a pergunta mais útil seja como podemos usá-la para trabalhar melhor?

Eu uso bastante. Em nossa empresa de software, a produtividade saltou. Tarefas que antes consumiam horas agora saem em minutos. Em outras frentes, reduzimos tempo de projeto, ganhamos mercado e cortamos custos. A máquina não “pensa” em nosso lugar, *ela amplia a capacidade de quem sabe o que quer e sabe pedir o que precisa.

Isso me lembra o que aconteceu quando chegaram as calculadoras HP. Engenheiros acostumados a fazer cálculos à mão questionaram a novidade e houve quem enxergasse na tecnologia uma ameaça à própria profissão. Hoje, ninguém discute o ganho de produtividade que aquelas máquinas trouxeram. A inteligência artificial representa uma transformação muito maior, claro, mas existe uma semelhança importante, a tecnologia muda a maneira de fazer, sem retirar do ser humano a responsabilidade por decidir o que deve ser feito.

A diferença é que estamos entrando agora em uma nova etapa. A IA começa a deixar de ser apenas uma ferramenta à qual fazemos uma pergunta para se tornar capaz de executar sequências inteiras de tarefas. Já existem agentes de inteligência artificial que podem ser programados para trabalhar enquanto empresários e colaboradores descansam. Durante a noite, podem processar grandes volumes de informações, cruzar dados, executar análises e preparar relatórios que estarão disponíveis pela manhã para apoiar decisões que antes exigiriam horas de trabalho.

Isso não torna o ser humano menos importante. Ao contrário, torna sua função ainda mais estratégica. À medida que agentes de inteligência artificial passam a executar diferentes tarefas, caberá cada vez mais aos profissionais e líderes coordenar esse trabalho, definindo objetivos, estabelecendo critérios, avaliando resultados e tomando decisões. A tecnologia pode ampliar muito nossa capacidade de execução, mas a direção e a responsabilidade continuam sendo humanas.

O ponto central continua sendo a pessoa. A IA não tem a experiência de chão de fábrica, não conhece por si só a história de uma empresa nem possui o feeling de quem já errou, acertou e precisou tomar decisões no mercado. Quanto maior o conhecimento e o repertório de quem utiliza a tecnologia, maior tende a ser sua capacidade de extrair valor dela.

É justamente aí que vejo uma enorme oportunidade para as empresas. A inteligência artificial pode assumir tarefas repetitivas, acelerar análises, apoiar projetos e liberar profissionais para atividades em que conhecimento, criatividade, relacionamento, experiência e capacidade de decisão fazem diferença. Não é uma questão de fazer a mesma coisa com menos pessoas, mas sim de usar melhor as pessoas e a tecnologia para produzir mais valor.

É claro que uma transformação dessa dimensão traz questões importantes sobre segurança, ética, qualificação profissional e limites de uso. Essas discussões são necessárias, mas reconhecer os riscos não significa fechar os olhos para as oportunidades.

Para a indústria e para as empresas brasileiras, essa discussão é especialmente importante. Produtividade significa competitividade. Significa reduzir desperdícios, responder mais rapidamente ao mercado, inovar e criar condições para crescer. Em um ambiente econômico cada vez mais competitivo e desafiador, não incorporar ferramentas capazes de contribuir para esses resultados também representa um risco.

No fim, talvez essa seja a verdadeira transformação. A IA não diminui a importância das pessoas, ela aumenta a importância de saber pensar, dirigir e decidir.

Adriano Alvarez é empresário e primeiro vice-diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) – Diretoria Regional de São João da Boa Vista

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