Realizado, radiante, mas sereno, Sr. José chegava calmamente com o neto na garupa do cavalo, apeando na cocheira das vacas. O Sr. Dito, retireiro há décadas, já estava iniciando os trabalhos. O neto já tinha combinado que queria ir com o avô ver a ordenha. Com cara de sono e cabelo desarrumado, mas com brilho na alma, olhava atentamente a tudo.
Sr. José tinha alguns raros dias como esse no ano, onde a família, seus dois filhos e uma filha, vinham da capital passar a Páscoa com eles. Dona Maria então!? Já estava com três ou quatro receitas em andamento junto com a filha e noras na cozinha mais feliz do mundo, no cheiro e calor do fogão a lenha.
O neto aprendia as coisas valorosas da vida, seja no compromisso de levantar cedo, no caminhar vendo a aurora de mãos dadas com avô na relva do capim molhado, gelando sua botinha nova, vendo o avô encilhar o cavalo, a sensação do movimento do andar montado, a ordenha das vacas, o amor das mães com os bezerros e tudo que, não só via, mas sentia como vida verdadeira entrando através das narinas, ouvidos, tato, sentido e pertencimento. Bem diferente do que ele sentia na cidade.
Na hora do almoço, com a família reunida, os filhos diziam ao pai que a crise financeira estava se agravando, que a bolsa de valores “estava louca”, falavam com medo nos olhos das guerras e escassez de recursos e insumos. O mais velho, pai de duas adolescentes, dizia que ia sair do Brasil, argumentava que aqui não tinha mais jeito e que não acreditava mais em nada. Nesse momento, o neto fita o tio, com olhar perplexo de ter presenciado tudo aquilo de manhã com o avô e pensou que o tio poderia estar desatento.
Durante a conversa, no delicioso almoço, Sr. José ouvia atentamente a preocupação com a economia que os filhos traziam, enquanto olhava pela janela a Bartira, uma vaca Jersey, que estava em trabalho de parto no piquete próximo. Esta vaca é neta de uma geração que a família vem selecionando e que, junto ao plantel, gerou a renda para estudar e criar os três filhos do casal. Uma vida simples que sempre levaram, praticamente todos os alimentos produzidos na propriedade, com ou sem crises financeiras, que não foram e não são poucas em nosso país.
Após o almoço, ao se deliciarem com um manjar coberto por uma calda de ameixas e um bolo de milho acompanhado de um café, tudo produzido ali mesmo, os três filhos de Sr. José e Dona Maria demostraram preocupações com a saúde dos pais. Sugeriram que os pais vendessem a propriedade e fossem morar na cidade grande para ter auxilio e acompanhamento médico. Mais uma vez, o neto escuta perplexo aquela conversa e olha para o avô com misto de pena e admiração.
Dona Maria, amorosamente como sempre, diz aos filhos para eles acreditarem mais na vida simples, deixar de ouvir um pouco de notícias dos engravatados de escritório e tocar a vida pra frente. Sr. José levanta, dá uma piscada para o neto e diz: “Bora lá menino, que a Bartira pariu mais uma bezerra e essa é sua, você que vai dar o nome…” O moleque saiu pulando radiante, enquanto os tios, primas e os pais ficaram sem palavras, somente balançando a cabeça e dizendo: “o papai é cabeça dura mesmo!”. A vida verdadeira está há muito tempo nos servindo, independente das idiotices que estamos fazendo com o mundo. Não devemos subestimar a simplicidade, dela provem a verdade!

Plínio Aiub
é médico veterinário especializado em animais silvestres




