Algoritmo da exploração: como a internet facilita redes de pedofilia

Por Ana Paula Fortes
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Adultização, a palavra é forte e o alerta. Este foi o título escolhido pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, o Felca, 27, para um vídeo de 50 minutos que se tornou um fenômeno na internet brasileira e acendeu um debate crucial sobre a segurança de crianças e adolescentes online. Em menos de uma semana, a denúncia ultrapassou 46 milhões de visualizações no YouTube e furou todas as bolhas, chegando ao centro do poder político.

Felca: autor do vídeo que chegou até o centro do poder político (Reprodução)

O cerne da investigação de Felca é um experimento assustadoramente simples sobre criar um perfil fictício no Instagram e começar a curtir fotos aparentemente inocentes de crianças, mas em poses ou contextos levemente sugestivos. Em poucas horas, o algoritmo da plataforma, num reflexo condicionado para maximizar o engajamento, começou a alimentar o perfil com conteúdo abertamente sexualizado de menores, replicando o comportamento de pedófilos e revelando uma falha sistêmica que pode conectar redes de exploração.

A INFÂNCIA SOBRE PRESSÃO

Enquanto o debate ganha os holofotes nacionais, em milhares de lares brasileiros a luta contra a adultização é diária e silenciosa. Pais entrevistados pela reportagem relatam com preocupação como as redes sociais e a cultura digital estão roubando a infância de seus filhos.

Camila Nascimento Paixão, 34, funcionária pública e mãe de quatro filhos, três meninas e um menino, vive na pele os efeitos desse fenômeno. Ela contou um episódio marcante com a filha mais velha de 14 anos: “Quando fomos à praça e passamos no parquinho, eu pedi pra ela ir brincar com os irmãos. Ela disse que não tinha mais idade”. Para Camila, a maior preocupação é a aceleração forçada das etapas da vida. “Pré-adolescência são caminhos que definem quem seremos no amanhã”.

Ela não tem dúvidas sobre o principal vilão. “Sim, eu acredito que as redes sociais são os maiores vilões dos adolescentes. O que era para ser algo produtivo e bom está sendo uma ferramenta que está levando a maioria para depressão e sedentarismo. Os adolescentes de hoje estão tomando os artistas, cantores, influenciadores como referência de vida, ao invés de terem os pais como referência”.

Sua estratégia é o diálogo constante e a valorização da individualidade. “Hoje busco ser amiga da minha filha e mostrar a ela que ser diferente mostra verdadeiramente quem ela realmente é. Hoje mesmo disse a ela que certa roupa, que está na moda, não combina com ela, com a personalidade dela, com a beleza dela. E assim vou mostrando que ser diferente é muito mais libertador do que ser igual a todo mundo”.

Elisabeth Borges, 49, recepcionista e mãe de Lavínia, 11, também observa sinais de adultização, como o uso de maquiagem e vestuário. “Minha maior apreensão é que as crianças estejam deixando a essência da infância e adolescência, pulando para a fase adulta e entrando num mundo cheio de incerteza e preocupações. A internet é um mundo cheio de opções, tendências, o que faz a criança ser igual”. A música, na opinião dela, tem uma influência poderosa, com a fase de ser fã e querer se vestir igual ao grupo preferido. Para contrapor, sua tática são as histórias de vida. “Com exemplos reais, mostro o quão bom é ser criança e viver cada fase no seu tempo”.

Tatiane Liberalli Rita, 38, comerciante e mãe de Alice, 9, relata um caso angustiante de preocupação precoce com a imagem. “O comportamento que mais me chamou atenção foi quando um coleguinha de escola e uma professora falaram que ela era gordinha. Daquele dia em diante, até hoje, mesmo eu conversando com ela ainda tem preocupação com a barriga, o físico. Isso a marcou demais”. A principal preocupação dela é a que eles percam a infância. Sobre a influência digital, Tatiane é taxativa, “A mídia hoje expõe demais nossas crianças com essas danças mais adultas e elas acabam tendo uma preocupação com a aparência já desde pequenas”.

Alerta: para os pais a internet é a vilã da infância dos filhos (Divulgação/Arquivo Pessoal)

ACELERAÇÃO FORÇADA

Para a psicóloga Fabiana Bozelli, especialista em infância e adolescência, a adultização é um processo claro e perigoso. “É quando crianças e pré-adolescentes são expostos a comportamentos ou responsabilidades típicas do mundo adulto, ou seja, etapas do desenvolvimento são quebradas. É uma aceleração forçada que envolve a perda de momentos essenciais da idade como as brincadeiras e a descoberta do mundo”. Segundo Fabiana, os pais devem ficar atentos a alguns sinais de alerta. “Mudanças comportamentais, como irritabilidade frequente, excessiva preocupação com a aparência e com o peso, mudanças de hábitos alimentares, comparações excessivas e querer usar roupas e maquiagens de forma precoce são alguns deles”. Bozelli é enfática ao apontar a principal causa: “Sem dúvida a mídia e as redes sociais são as que mais contribuem para a adultização, pois acabam inserindo padrões de comportamento e imagens, que não são compatíveis com a idade deles, além da exposição a conteúdos erotizados”.

As consequências, segundo a psicóloga, são profundas e duradouras. “A exposição precoce fragiliza a construção da identidade, que se forma de maneira artificial, baseada em padrões externos e inatingíveis”. Isso abre caminho para ansiedade, depressão, baixa autoestima, sensação de inadequação, além de dificuldades na socialização”, alertou. Fabiana afirma que crianças adultizadas podem ter dificuldades em respeitar regras porque se percebem como adultas e constroem relações superficiais, centradas apenas na aparência ou no consumo.

O papel da família é fundamental. “É preciso proteger as crianças e os pré-adolescentes dessa pressão, estabelecendo limites claros, valorizar a infância e a pré-adolescência, promovendo atividades próprias da idade e mantendo o diálogo aberto. O segredo é ouvir e acolher os desejos da criança, mas sempre negociando regras de forma respeitosa”.

DADOS E A RESPOSTA POLÍTICA

Os depoimentos dos pais e a análise da psicóloga ecoam os dados alarmantes do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br): 93% dos brasileiros entre 9 e 17 anos (24,5 milhões de pessoas) são usuários de internet. Desses, 83% têm perfil próprio em redes sociais e 30% já tiveram contato online com alguém que não conheciam pessoalmente. Um terreno vasto e sem moderação para abusos e exploração.

A comoção gerada pelo vídeo de Felca catapultou o tema para a agenda nacional. Na Câmara dos Deputados, projetos de lei que tratam da exploração de menores na internet ganharam urgência. O presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), prometeu pautar as propostas.

Figuras de peso do governo também se manifestaram. A ministra Gleisi Hoffmann (PT-RS) defendeu a responsabilização das plataformas digitais. Já a primeira-dama, Janja Lula da Silva, publicou em seu Instagram: “as redes sociais não são um ambiente seguro para crianças e adolescentes” e “nossas crianças correm riscos seríssimos na internet”.

No Senado, a denúncia motivou a apresentação de um pedido de CPI para investigar influenciadores e plataformas digitais. A proposta, dos senadores Jaime Bagatolli (PL-RO) e Damares Alves (Republicanos-DF), já conta com mais de 60 assinaturas. O Republicanos também anunciou a intenção de apresentar a chamada “Lei Felca”, que prevê penas mais duras e obriga as plataformas a retirar conteúdos ofensivos com agilidade.

O caso evidencia um consenso raro em um país polarizado. A pressão sobre pais, como Camila, Elisabeth e Tatiane, é lutar contra algoritmos programados para enquanto tentam, no dia a dia, resgatar o direito de seus filhos de simplesmente brincar no parquinho. Enquanto isso, especialistas como Fabiana Bozelli reforçam que o antídoto mais poderoso não está apenas na regulação, mas no diálogo constante dentro de casa, na valorização da infância e no fortalecimento dos vínculos familiares contra a maré digital. A pressão para que essa programação mude, tanto a das máquinas quanto a da sociedade, nunca foi tão grande.

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