Justiça quebra sigilo e revela atuação de Arten em perfil falso

Por Bruno Manson
[email protected]

A Justiça determinou na quinta-feira (27) a quebra do sigilo imposto ao inquérito policial que apurou os responsáveis pelo perfil falso intitulado ‘São João das Cachorreira’ no Facebook, o qual ganhou popularidade por conta de ataques sistemáticos a políticos, personalidades locais e pessoas da comunidade sanjoanense.

Após uma minuciosa investigação com a apreensão de celulares e computador, a Polícia Civil apontou que o jornalista e professor Francisco Arten, presidente do diretório sanjoanense do Republicanos, foi o autor dos textos usados como ‘roteiro’ dos vídeos ofensivos publicados na rede social. Além dele, o casal Diogo Henrique da Cunha Lima e Vanessa Priscila Santos Lima também está envolvido no caso.

Investigado: mesmo com a quebra do sigilo, Arten ainda nega qualquer envolvimento com o perfil falso, porém, reconhece que tinha contato com Diogo (Reprodução/Rede Piratininga)

Com 141 páginas, o processo descreve como transcorreu toda a investigação, com detalhes e até imagens das mensagens trocadas entre os investigados. A ação teve início em junho do ano passado, quando um dos ofendidos, o ex-vereador Gérson Araújo, registrou um boletim de ocorrência e denunciou o caso à Polícia Civil. A partir daí, um inquérito policial foi instaurado para apurar os responsáveis pela página e as publicações ofensivas.

QUEBRA DE IP

Após a devida autorização judicial, a empresa Meta, responsável pelo Facebook, forneceu os IPs (sigla em inglês para ‘Internet Protocol’, que significa ‘Protocolo de Internet’) dos telefones usados para acessar e gerenciar o perfil ‘São João das Cachorreira’. Com esses dados, a Polícia Civil descobriu que os acessos eram feitos por Diogo e Vanessa por meio de um celular e também de linhas fixas cadastradas em São João da Boa Vista e em São Paulo (SP).

Foi expedido um mandado de busca e apreensão e a equipe da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) esteve na residência do casal, onde apreendeu um celular e a CPU de um computador para perícia. A ação ocorreu no dia 4 de fevereiro. Na ocasião, Diogo prontamente confessou ser o proprietário do perfil ‘São João das Cachorreira’ e disse que iria prestar declarações acompanhado de seu advogado.

PROVAS

Em análise preliminar do celular apreendido, a equipe de perícia encontrou conversas de Diogo com Arten no aplicativo WhatsApp. Ao analisar os assuntos compartilhados, descobriu-se que o jornalista encaminhava os textos que eram usados na produção dos vídeos ofensivos. Entre as mensagens estavam ataques a Gérson e outras personalidades do meio político sanjoanense. Já no computador foi encontrada uma pasta com todos os arquivos usados para realizar as montagens que eram publicadas.

Conversas: ao analisar mensagens no WhatsApp, peritos constataram que Arten encaminhava textos com ataques e insinuações a políticos para Diogo realizar as montagens (Reprodução/Polícia Civil)

O perfil ‘São João das Cachorreira’ trazia vídeos narrados por Inteligência Artificial, com cães sendo caracterizados como políticos e várias outras pessoas da sociedade sanjoanense. De forma indireta, a página tece comentários pejorativos, por vezes pesados, sobre atitudes e comportamentos observados em ocasiões na cidade.

NOVAS BUSCAS

Diante disso, a DIG foi até a casa do jornalista no dia 17 de fevereiro para cumprir um novo mandado de busca e apreensão. Na ocasião, um celular foi apreendido para a averiguação. Todos os aparelhos apreendidos foram encaminhados para o Instituto de Criminalística para realização de um laudo pericial, que deverá ser encaminhado para a DIG.

Apesar de ter transcorrido em sigilo, a ação policial ganhou uma grande repercussão, principalmente nos meios políticos, o que levou Arten a se pronunciar enquanto apresentava ao vivo o programa Rotativa no Ar, da Rede Piratininga. Na ocasião, ele negou veementemente ter qualquer envolvimento com o perfil falso. “Eu não sou o autor do ‘São João das Cachorreira’. Eu não sou o redator do ‘São João das Cachorreira’. E vou dizer mais: não tenho nenhum talento, porque era muito engraçado! Era muito humor… Era uma sátira”, declarou. “Não tenho nenhuma participação nisso!”, disse o presidente do Republicanos.

INTIMADOS A DEPOR

Após serem intimados, Diego e Vanessa compareceram ao Plantão Policial no dia 27 de fevereiro para prestarem depoimentos. Na ocasião, o casal estava acompanhado pelo advogado Marcelo De Luca Marzochi – conhecido nos meios políticos, ele recentemente foi contratado pela Câmara Municipal para “prestar serviços técnicos na área da advocacia” e tem entre seus clientes o vereador Carioca, do Republicanos, partido presidido por Arten.

Ao ser questionado, Diogo alegou que é o único responsável pela autoria, divulgação e redação do perfil falso, confessando que manteve contato com o jornalista. Já Vanessa afirmou que não tem nenhum envolvimento com a página criada e desenvolvido pelo seu companheiro, relatando que é a proprietária linha telefone que usada por ele. Quanto aos fatos tratados nos autos, ela disse que desconhecia.

Conforme consta no processo, Arten também foi procurado para depor e até uma intimação foi deixada em sua residência. Contudo, ele não compareceu à unidade policial para dar sua versão dos fatos.

FAKE NEWS

Em 28 de fevereiro, Gérson solicitou a quebra do sigilo das investigações, uma vez que Arten vinha utilizando as redes sociais e a rádio para minimizar o caso, dando uma versão diferente da realidade. Conforme consta no pedido, o jornalista usou esses canais para dizer que não tinha nenhum envolvimento com o perfil falso, alegando que ele próprio entregou o celular à polícia, porém, não mencionando que houve uma ordem de apreensão e que não forneceu a senha do aparelho aos agentes.

Outra informação inverídica seria de que a DIG compareceu à residência de Arten porque Gérson o teria apontado como autor das postagens. Na realidade, as buscas ocorreram somente após a investigação identificar a troca de mensagens do presidente do Republicanos com Diogo.

QUEBRA DE SIGILO

Ao analisar o pedido, o delegado Jorge Mazzi se manifestou no dia 6 de março pela desnecessidade da manutenção do sigilo. Já no dia 11, o promotor André Pereira Melo também foi favorável a quebra, uma vez que “as informações constantes desse processo criminal se mostram de interesse público”.

Após analisar o caso e as manifestações, a juíza Elaní Cristina Mendes Marum deferiu pela quebra do sigilo relativo aos autos e às medidas cautelares, contudo, considerando que se deve preponderar o disposto na Constituição Federal, que preceitua que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença condenatória”.

ARTEN NEGA ENVOLVIMENTO

Em contato com O MUNICIPIO, Arten negou as acusações, porém, revelou que manteve contato com Diogo. “Conversei com o autor da página algumas vezes. Jamais fui seu mentor ou autor daquela página. Sabia quem era o autor, que aliás confessou ser ele, assim como não ter usado minhas conversas para elaborar suas publicações. Assim como conversei com ele, conversei com inúmeros outros contatos. E o Diogo certamente conversou com vários outros.

O jornalista prosseguiu negando qualquer envolvimento com o perfil falso e que aguarda a conclusão das investigações. “Jamais fui o mentor da página e, assim como o Diogo já assumiu a autoria, eu também confessaria se assim fosse. Acontece que o senhor Gérson Araújo, figura bem conhecida na cidade, fez um boletim de ocorrência alegando suspeitar ser eu o autor dos textos. Prontamente atenderam a suspeita do Gérson Araújo”, justificou. “Querem porque querem imputar a mim algo que me comprometa e se frustraram  quando descobriram não ser eu o autor daqueles artigos. Quebrado o sigilo do processo, vamos aguardar as investigações. A exemplo de várias outras acusações que atribuíram a mim, também desta vez vão se frustrar”, finalizou.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here