Nas páginas da história do Brasil, figuram nomes de mulheres que destacaram-se por lutarem junto aos homens, em defesa de seu território: Anita Garibaldi, na Revolução Farroupilha; Maria Quitéria de Jesus Medeiros e Madre Maria Angélica de Jesus, contra as tropas portuguesas na Bahia; Ana Neri, na Guerra do Paraguai; Maria Rosa da Siqueira, contra piratas em alto mar; e a índia Clara Camarões, contra os holandeses, no Nordeste do país. Cada um dos estados brasileiros que tem a sua heroína, promove-a e coloca-a na galeria de seus grandes vultos. O povo paulista, que tanto se orgulha de sua gente, tem também a sua heroína. A única mulher que determinadamente partiu para as trincheiras como um verdadeiro soldado: Maria Sguassábia.

No último dia 8 de março, data em que se comemorou o Dia Internacional da Mulher, a Prefeitura de São João da Boa Vista promoveu a cerimônia solene de traslado dos restos mortais de sua heroína, de seu túmulo pessoal para o Mausoléu da Revolução Constitucionalista de 1932, ambos localizados no Cemitério São João Batista, nesta cidade. Com a presença da prefeita Maria Teresinha de Jesus Pedroza (PL), autoridades civís e militares, órgãos de imprensa e algumas entidades ali representadas, a homenagem foi dirigida ao neto da combatente, Mauricio Marsiglia, que emocionado agradeceu a iniciativa, a qual concretiza o desejo de Maria Sguassábia em ser enterrada junto aos companheiros de revolução. Alice de Abreu estava caracterizada como a heroína, emprestando uma singularidade à ocasião.
A Mulher e Mãe
Maria Stela Rosa Sguassábia, conhecida como Maria Sguassábia, nasceu em 12 de março de 1889 e aqui faleceu em 14 de março de 1973, filha de pais italianos. Habilidosa, bordava e costurava admiravelmente. Alta, elegante, mimosa, vestia-se com elegância discreta. Em abril de 1922, casou-se com José Pinto de Andrade, mineiro de São José do Alegre, que era portador de tuberculose. A moléstia manifestou-se logo após o casamento e Maria ficou viúva cinco meses depois, grávida. Lutando com dificuldade e trabalhando com afinco, enfrentou a maternidade e o sustento da pequena Maria José, em quem concentrou toda sua capacidade de devotamento. Além do bordado e da costura, passou a exercer o magistério, numa escola de roça, vivendo com a menina numa casinha rural. E foi ali que a Revolução Paulista de 32 a encontrou e, indiretamente, empurrou-a para figurar para sempre nas páginas da História. Por tudo o que vivenciou na vida pessoal e após a Revolução, Maria Sguassábia foi também heroína de suas próprias batalhas.
Mario ou Maria: O Soldado
Segundo informações obtidas por Daniel Linguanoto, que registra os fatos em sua “Coletânia nº 14”, de novembro de 1952, Maria lecionava na escolinha primária da Fazenda “Paulista”. Um belo dia, os rumores da revolução abalaram a tranquilidade da fazenda. Logo em seguida, levas e levas de soldados começaram a transitar pela estrada, rumo à fronteira mineira, e a sede da fazenda transformou-se em Posto de Comando da 4ªColuna do 1ºBatalhão Paulista da Milícia Civil. Maria teve notícia de que seu irmão Primo, que alistara-se e seguira para a linha de fogo, havia sido morto em combate e que o irmão mais velho, Antonio, também se alistara, tendo sido designado para servir no P.C. da fazenda. Constantemente ouvia contar de casos de deserção e atos de covardia por parte de soldados paulistas, o que a deixava indignada. Apesar da escola ter sido desativada, Maria insisitia em permanecer na fazenda. Certo dia, chegando à janela, viu um soldado desertor atirar o fuzil próximo de sua casa. Teve um sobressalto: correu à casa grande e pediu ao administrador, que se preparava para levar mulheres e crianças para a cidade, que levasse também sua filhinha. Voltou à escola, examinou o fuzil abandonado pelo desertor, vestiu a farda que o irmão Antonio lhe pedira para lavar e aguardou a passagem do caminhão de tropas, correndo atrás do mesmo e subindo junto aos soldados. Antonio ficou pálido quando a viu e insistiu para que ela descesse. Na confusão da partida, os outros soldados não notaram sua presença. Antes de chegar ao seu destino, a tropa recebeu ordens para voltar à fazenda e para que os soldados ocupassem a trincheira.. Maria se viu pela primeira vez debruçada num talude, o fuzil apontado para os vultos que surgiam no escuro da noite na colina. As balas zuniam e ricocheteavam nas pedras ao seu lado, o ombro doía a cada coice da arma, até que o inimigo cessou fogo. Procedendo à revista de seus homens, o Tenente Meira estacou diante da moça, cujos cabelos soltos ao vento batiam em suas faces; e ‘espumou’ de raiva:- Mas, francamente, a senhora não tem juízo!- Maria implorou-lhe para ficar. Alguém sugeriu que ele consultasse o Estado Maior aquartelado em São João, e outras vozes aplaudiram a idéia. O primeiro mensageiro levou a consulta, mas o Estado Maior não quis assumir a decisão e remeteu-a diretamente ao Comandante Romão Gomes, aquartelado em seu QG em Águas da Prata. O comandante deu gostosas gargalhadas e respondeu:- Pode ficar. Se aguenta o repuxo servirá de exemplo aos medrosos.”- Maria foi incorporada à 4ª Companhia do 1º Batalhão Paulista da Milícia Civil, com o nome de Mario Sguassábia.

FAÇANHAS DE GUERRA
Conta o tenente Meira que ao avançar as primeiras trincheiras de Pedregulho, encontrou quatro de seus soldados de armas apontadas para um grupo de inimigos. Todos eles mantinham as mãos levantadas, menos um tenente, João Batista Silveira, da F.P. de Minas, que blasfemava, quase em choro, por ter sido rendido por uma mulher. O Tenente Meira dirigiu-se ao comandante mineiro e falou: – ‘Não se envergonha de ser prisioneiro de uma mulher, tenente, porque indiscutivelmente o senhor está tendo a honra de ser aprisionado pelo mais valente soldado paulista.”- Mesmo assim, o comandante só entregou-se ao tenente Meira. Entre o Pedregulho e São Sebastião da Grama, Maria experimentou pela primeira vez o amargor da derrota, a morte de muitos companheiros e a outras deserções. Ao receber ordens para que a tropa rumasse para Campinas, pois a capital se via ameaçada pelo norte, o tenente Meira reuniu a tropa e, emocionado, grudou no braço de Maria as divisas de cabo. Pouco tempo depois, entricheirados no Arraial de Souzas, subúrbio de Campinas, o tenente Meira leu o boletim de promoção de Maria ao posto de sargento. O destino do Movirnento Constitucionalista estava selado, a revolução findara e a ordem era dispersar. Chorando ao lado do irmão Antonio. Maria tentou voltar a São João, mas, ao passarem por Cascavel (hoje Aguaí), souberam que o tenente mineiro, João Batista, instituíra um prêmio de mil cruzeiros pela captura da mulher que o prendera. Isto lhe custou algum tempo como foragida, antes que pudesse retornar a sua terra natal e rever a filha e o irmão Primo, que soube, então, estar vivo.
O Legado
Maria Sguassábia foi um espírito eminentemente feminino. Mãe devotada , trabalhou para que a filha recebesse educação aprimorada. Como inspetora de alunos, no Instituto de Educação ‘Cel. Cristhiano Osório de Oliveira’, acrescentou mais serviços à comunidade. Seu enterro recebeu honras militares. Um atirador leu a Canção do Soldado Constitucionalista, as repartições públicas hastearam a Bandeira Paulista a meio pau, em homenagem a esta grande mulher. Uma mulher símbolo. Mais do que o inusitado de uma presença feminina nas trincheiras, seu legado foi o da consciencia cívica, tão vilipendiada nos dias atuais, valor idispensável para forjar uma nação forte e póspera.
Ana Lúcia Finazzi




