PERFIL – João Luís: “Eu brinco no trabalho, mas não brinco com o trabalho”

Por Clovis Vieira
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Já faz 40 anos que João Luís da Silva, 57 anos, é cabeleireiro. Paulistano da zona norte, filho de militar e de “uma nordestina daquelas bravas”, o mais velho de três irmãos chegou em São João pelas mãos das amigas e clientes Rosane e Elaine Navarro, que já se servia do talento dele em São Paulo (SP). Foi na Capital do Estado, aos 17 anos, que a decisão foi tomada: “vou ser cabeleireiro!”, atendendo a uma necessidade de sobrevivência, como ele mesmo revela.

João conta que sempre quis abraçar essa profissão, porém o difícil foi enfrentar a família. “Minha geração floresceu nos anos 1970 e 1980, quando optar por esta ou aquela profissão revelava sua orientação sexual o que, para muitos era uma doença”, lamentou. A mãe de João, em particular, era a que mais demonstrava preocupação com a imagem do filho. Anos depois, foi justamente ela quem mais o apoiou na decisão. “Até os seus últimos dias, ela foi a minha grande amiga”.

‘BIGODINS’

Na Capital, onde há inúmeros ótimos profissionais, João percebeu que era preciso sempre estudar muito, para estar no mesmo nível e enfrentar essa concorrência. “Com 17 anos, ninguém queria cortar o cabelo comigo” (ri dessa lembrança). O que ele tinha, mesmo, era facilidade de enrolar bobies e bigodins em senhoras, que eram objetos preparatórios para se fazer ‘permanentes’ nos cabelos. Esse amor das senhoras pelo João ocorre até hoje, ele afirma.

A partir de 1998, começou a frequentar São João. Atendia 20 clientes num só dia, que se transformavam em 40 na próxima vinda. “Eu viajava para cá a cada dois meses, depois uma vez por mês; então, alugamos uma chácara, eu e o Manoel, meu ex-companheiro (daí, vem o nome do salão J.M., que ambos abriram em conjunto)”. As viagens se tornaram frequentes, a cada 15 dias, até que São João tornou-se a sua cidade.

ESPECIAIS

“Nós somos cabeleireiros-psicólogos”, ele brincou. Atuar nesta cidade há 25 anos o credencia a tratar a clientela como amigos pessoais, com grande proximidade. “Eu tenho clientes que cortam e tratam o cabelo comigo desde o início; eu tenho clientes que vêm de São Paulo, porque eram meus clientes lá, há 30 ou 40 anos”. Em certo momento da entrevista, João declara que “a Vida não é fácil”, mas confessa que foi muito bem aceito por aqui. E faz uma comparação: “Em São Paulo, as pessoas têm vida própria; aqui em São João, a gente ‘participa’ da vida das pessoas”.

Embora saiba que exista certa rivalidade entre alguns profissionais cabeleireiros, elegeu amigos e com eles se relaciona da melhor forma possível. “São pessoas que eu respeito e que me respeitam… mas quando eu cheguei aqui, não tinha amigos, as pessoas não gostavam muito de mim (e ri novamente), talvez pelo medo de uma concorrência”. E, sim, hoje ele tem algumas clientes que são especiais, mas não cita nomes. “Eu sou muito grato às minhas clientes. São todas especiais, desde as iniciais, até aquela que entrou hoje aqui, pela primeira vez”, encerrou.

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