Por Ignácio Garcia
[email protected]
Convênio para ofertar aproximadamente 2.300 consultas de avaliação para a realização de cirurgias eletivas foi assinado pela Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros e a Prefeitura de São João, por meio do Departamento Municipal de Saúde, na quarta-feira (13). A gestão municipal, no entanto, não informa se o contrato entra em vigor imediatamente.
A assinatura acontece em meio às inúmeras queixas de pacientes que há anos amargam na fila de espera— seja para avaliação cirúrgica ou até mesmo para realizar o próprio procedimento. Apenas por procedimentos exclusivos no hospital público sanjoanense, cerca de 2.000 estão à espera, conforme dados da pasta. “Todas as ações que podem ser feitas para aceleração da retomada das realizações das cirurgias eletivas estão sendo feitas pelo Departamento Municipal de Saúde”, afirmou o diretor Fábio Ferraz.

Ainda na noite de quarta, o titular da pasta fez uma postagem em seu perfil pessoal, com fotos da formalização do contrato, na presença dele, da prefeita Maria Teresinha de Jesus Pedroza (União) e de Francisco Antonio Alves, provedor em exercício da Santa Casa.
“O fim da tarde foi marcado pela assinatura do Convênio entre a Prefeitura e Santa Casa Carolina Malheiros para início das consultas para avaliações cirúrgicas. Aproximadamente 2.300 sanjoanenses serão beneficiados. Mais uma meta do Governo Teresinha [União] sendo realizada. Mais avanços na saúde de São João”, escreveu.
Mas, antes da assinatura, as reclamações continuavam. Na terça-feira (12), após enquete lançada no perfil oficial do jornal O MUNICIPIO no Facebook, dezenas de pessoas relataram dramas pessoais na busca por uma consulta de avaliação ou casos vividos por conhecidos.
Recentemente, a reportagem novamente trouxe a saga do desempregado João Batista Tassoni, 65, que aguarda avaliação prévia com ortopedista na Santa Casa, teve o procedimento agendado em 11 de maio, mas com especialista da área que atendia pacientes pediátricos. (leia mais no rodapé da página)
E entre os milhares de casos de pacientes que precisam de cirurgia está o da também desempregada Ellen Cristina da Silva, 34, que há pelo menos três anos luta contra as dores devido a um problema de saúde no quadril que, segundo escreveu —em agosto de 2021— um dos ortopedistas que já atenderam, “com piora há 2 anos, com comprometimento de 90% da articulação. Causando bloqueio na abdução (sic.) e flexão […] e patologia avançada […]”. A história dela veio à tona depois que uma prima comentou o caso da paciente na rede social do jornal.
Desempregada teve piora no quadro de saúde por falta de cirurgia
Quando tinha 11 anos, em 1998, Ellen Cristina da Silva passou por uma cirurgia (não especificada pela paciente) e precisou colocar três pinos no fêmur da perna esquerda— foram removidos sete meses depois. Após 19 anos depois, já em 2017, ela começou a sentir dores na mesma perna e pagou uma consulta particular. Na ocasião, o médico teria lhe indicado dez sessões de fisioterapia, que resultaram em melhora, mas, em 2019, as dores voltaram.

Segundo a paciente, em novembro do mesmo ano, passou por consulta com ortopedista no Hospital Regional de Divinolândia (HRD). Lá, o médico teria pedido a ela que fizesse dois exames de raio-x, os quais foram feitos no modo particular, já que, conforme ela, demoraria para fazer através do Sistema Único de Saúde (SUS). No mesmo mês, Ellen leva os resultados ao médico do HRD, onde, de acordo com a paciente, o especialista a teria diagnosticado com “Sequela de Epifisiólise” no quadril.
“Eu teria que passar por uma cirurgia para colocar uma prótese, mas lá eles não faziam pela minha idade, por ser nova. E, particular, poderia gastar até R$ 100 mil, se caso houvesse inflamação. Então, me mandaram ir ao posto de saúde da minha cidade [São João] para que pudessem me encaminhar para a Unicamp, porque só lá tem a prótese que eu preciso”, lembrou.
Na época, conta Ellen, como era atendida pela Unidade Básica de Saúde (UBS) ‘Dr. Antonio José Bernardes’, no Jardim Lucas Teixeira, conseguiu consulta para janeiro de 2020. “A médica [clínica geral] de lá mandou um encaminhamento com urgência ao Departamento de Saúde, mas nada fizeram”, afirmou.
Com o advento da pandemia, em março de 2020, a paciente relata que toda vez que se dirigia ao departamento para perguntar sobre o caso dela, “eles falavam que não podiam fazer nada por causa da pandemia; fiquei 2020 com dores o ano todo”.
Em 2021, a paciente buscou outra Unidade de Saúde, desta vez na Vila Brasil — naquele bairro pelo motivo de ter voltado a morar com a mãe—, e marcou uma consulta com o médico clínico geral “por indicação do Departamento de Saúde, que eu teria que iniciar o tratamento todo de novo”.
No dia da consulta, diz Ellen, explicou toda a situação ao profissional, o qual lhe dera uma carta de encaminhamento com urgência ao departamento (de Saúde), para que ela pudesse passar por um ortopedista de São João, “e ele me encaminhar para Unicamp. E mais uma vez nada de conseguir, nem sequer o ortopedista. Toda vez que eu ia ao departamento, era a mesma desculpa: ‘que não tinha vaga por causa da pandemia’”.
Segundo a paciente, em agosto do ano passado, pagou outro ortopedista particular para saber o valor que ficaria a cirurgia. “Ele disse R$ 32 mil! E eu não tenho condições de pagar este valor. Então, mais uma vez teria que esperar o SUS”, disse. Enquanto isso, “nada de sair uma vaga pelo SUS!”.
Foi quando, em janeiro de 2022, ela retorna à Unidade de Saúde e marca outra vez uma consulta com um clínico geral. “Porque, como não consegui afastar indo sozinha ao INSS, então procurei uma advogada no final de 2021. E, em janeiro de 2022, ela me ligou que eu teria que ter um novo raio-x e um novo laudo também. Então, consegui a consulta no posto [UBS] para fevereiro e, no dia da consulta, a médica que me atendeu conseguiu o raio-x para o mesmo dia [16/02/2022] e também escreveu uma carta para mandar de novo ao Departamento [de Saúde] com urgência”.
Conforme Ellen, em 5 de maio, o ex-sogro dela recebeu uma ligação da Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros, com a informação de que ela teria uma consulta naquele mesmo dia. “Eles não me acharam porque mudei de número e a moça do posto de saúde disse que, como mudei [de] lá, mudaria em todos os sistemas. Mas não! Depois descobri que cada lugar é em um sistema. No mesmo dia, recebi o recado, liguei na Santa Casa e me informaram que eu tinha perdido a consulta e que ligariam assim que conseguissem remarcar. Mas não ligaram!”, contou.
Neste mês, a paciente retornou à Santa Casa para saber se iria remarcar ou teria que começar novo tratamento. “Porque antes de ir à Santa Casa, fui ao departamento e me falaram para ir lá e que, se não pudesse remarcar a consulta, eu teria que começar tudo de novo”, disse. Todavia, afirma Ellen, o hospital remarcou a consulta com o ortopedista para avaliação em 11 de agosto.
“São quase três anos esperando pela cirurgia e, a cada [ano] que passa, meu problema piora e as dores aumentam. Tanto é que até a perna direita começou a doer também, de tanto força-la. E eu não posso trabalhar por não conseguir andar direito. Tenho duas filhas para cuidar e então preciso muito da cirurgia para voltar a andar bem ou pelo menos ficar sem estas dores horríveis”, concluiu.
O que diz o Departamento de Saúde sobre o caso de Ellen
De acordo com a Saúde, no caso da paciente Ellen, ela teve a primeira avaliação marcada (em 2019) apenas 22 dias após a solicitação, “porém o Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista (Conderg) não foi capaz de absorver a demanda e retornou o caso para o município”.
O departamento aponta que, após o retorno do caso, uma nova solicitação foi feita como prioridade, porém logo entrou a pandemia e todos os atendimentos eletivos por parte da Santa Casa foram suspensos, retornando apenas no segundo trimestre de 2022. “A paciente então foi agendada novamente para o mês de maio, […], perdeu a consulta por conta de seus dados estarem incorretos no cadastro”, informou a pasta.
Diante de acontecimentos como este, a Saúde ressalta: “é dever do[a] paciente manter os dados de endereço e telefone atualizados, procurando a unidade de saúde para alterações sempre que necessário. Uma vez que a consulta é perdida, o protocolo é dar inicio novamente ao processo”.
Questionada sobre uma solução a ser dada ao caso da paciente, a pasta confirmou a data da avaliação: “Em contato com a Santa Casa, a paciente realmente está agendada para o dia 11/08/2022, portanto a mesma deve comparecer a consulta”.
Após oito dias: prefeitura responde, mas não esclarece sobre suposta falha em agendamento de paciente
Oito dias depois de a reportagem questionar o Departamento Municipal de Saúde sobre a suposta falha em agendar o desempregado João Batista Tassoni, 65, para consulta de avaliação em 11 de maio, na Santa Casa, com ortopedista que atendia casos pediátricos, a assessoria de imprensa da Prefeitura de São João informou que, “devido à Lei nº.: 13.709/2018 – Lei Geral da Proteção de Dados, não podemos fornecer dados e informações de pacientes a terceiros [sic.]. Neste caso, sugiro que o próprio paciente entre em contato com a Ouvidoria da Prefeitura Municipal de São João da Boa Vista através do telefone 0800 773 0156 ou pelo site www.eouve.com.br, para registrar um protocolo de maneira oficial.
Vale ressaltar também que o paciente não é morador de São João da Boa Vista, e portanto teve seu agendamento realizado pelo seu município, no caso, Vargem Grande do Sul”.
Todavia, o paciente contesta a informação, já que reside no Jardim Santa Edwiges, em São João, nas proximidades do Departamento de Saúde. “Foi agendado por Vargem porque passei por uma consulta de urgência. Mas tenho outros pedidos feitos por São João”, alegou.



