“Se você ama uma flor, não a colha. Por que se você colhê-la, ela morre e deixa de ser o que você ama. Então, se você ama a flor, deixe-a estar. O amor não está na posse. O amor está na apreciação”.
Esta frase do professor Osho diz muito sobre os caminhos da humanidade. Amamos muito tudo que nos diz respeito, achamos que nosso amor pela natureza, pelos animais e pelas pessoas podem corrigir tudo. Esse é um pensamento antropocêntrico. Vivemos uma das fases ou eras mais antropocêntricas, tudo é para nós, uma única espécie dentro de centenas de milhões de espécies vivas no planeta, uma espécie que constrói e destrói ao seu bel prazer e sempre em nome de uma melhora. Achamos, de verdade, que podemos mexer aqui e ali e consertarmos o planeta: “vamos deixar o planeta mais sustentável, vamos salvar estes animais, vamos cuidar da Amazônia, dos rios, das plantas…”
Infelizmente, não é isso que temos visto ao longo dos anos, parece até contraditório, mas toda vez que alçamos para proteger ou cuidar de algo, mais isso se distancia, mais tensa fica a relação entre nós e a natureza e os sinais vem sendo dado há décadas.
Quando vemos fogo queimando nas serras, nas planícies, nos outros países, corremos para apagar, salvar, proteger quando, na verdade, somos nós mesmo que ateamos esse fogo que queima sobre a terra. Criamos várias estratégias, treinamos pessoas, fazemos forças tarefas, tudo para salvar nossa natureza, mas no fundo fazemos isso porque, intuitivamente, sabemos que temos uma parcela de culpa em tudo isso.
O fogo começa na água, na verdade, na falta dela. Nossos riachos estão secando, nossos rios também, nossas estiadas estão mais severas, nossa massa verde está sendo derrubada. Precisamos plantar, precisamos gerar energia, precisamos de água quente, precisamos de tudo para abastecer a humanidade. Tudo é para “nós”, em detrimento a outras espécies. Parece mesmo que acreditamos que somos superiores as demais espécies e que todo avanço é necessário para alimentar e proteger essa espécie humana.
Agora, na época de seca, onde as queimadas nos assustam com seus números de perdas da biodiversidade, refletimos do porque isso têm sido mais intenso, mas dificilmente chegamos ao ponto.
Não chegamos ao ponto porque nos atinge em cima. É difícil assumir que somos parte do impacto que vivemos no mundo, mundo do plástico, da indústria, da morte animal, do egocentrismo, da desigualdade social, da tomada de espaço natural para fabricação de comodities, do ter e não do ser e aí? Voltamos a frase do Osho.
Apanhamos a natureza para nós e para o nosso uso, não a contemplamos mais como os demais animais e plantas que estão para subsistência de sua própria espécie, estamos para pegar tudo para nós, seja para vender na bolsa de valores, seja para acumular para as famílias, seja para ganhar e ganhar mais… não estamos preocupados, de fato, com o clima, com a seca dos rios, com o fogo que arde, com a fata de alimento da agricultura familiar. Estamos disfarçados dizendo que estamos preocupados com a segurança alimentar para plantar monocultura de comodities, que acaba com a biodiversidade e torna o solo pobre. Estamos comemorando o AGRO com a fome aumentando. Estamos salvando onças e tamanduás na mesma medida que eles estão perdendo espaço para nossas cidades e para criação de carne para o mundo.
Não ame a natureza, não ame os animais, não os queira cuidar ou arrumar, nós estamos dentro da natureza junto com os demais animais e toda a biodiversidade. Não somos capazes de fazer algo por eles pois somos tão frágeis e vulneráveis quanto eles. Implantemos o cosmocentrismo em nossas vidas e passemos a ser mais um e não o centro das atenções que merecem mais que outra espécie e assim, começaremos a ajudar.
O fogo começa em nós e, se a natureza quiser arrumar tudo ela arruma sem precisar de nós. Nos coloquemos na natureza e não acima dela assim, as águas voltarão, o verde permanecerá, as chuvas vão cair, os oceanos vão proliferar e nós, vamos voltar de onde nunca deveríamos ter saído, da nossa origem simples e modesta, sem muita interferência na natureza, apenas uma relação de mutualismo.

Plínio Bruno Aiub é médico veterinário especializado em animais selvagens e professor universitário





Admiração sem fim pelo Professor Plínio!