Polícia Civil desarticula ‘grupo do ódio’ em Aguaí

Investigação: relatório conta com prints de redes sociais e de conversas de WhatsApp (Reprodução/Redes Sociais)

Após uma intensa investigação, a Polícia Civil de Aguaí desarticulou a ação de um suposto ‘grupo do ódio’ que vinha agindo por meio do aplicativo WhatsApp. Conforme apurado, três vereadores, cinco profissionais da área de Saúde e dois cidadãos aguaianos estão sendo investigados por disseminar mensagens de ódio contra autoridades públicas e também fake news. Além disso, eles são suspeitos de terem envolvimento em crimes de dano ou sabotagem e até mesmo racismo – constato em uma das mensagens interceptadas.

As investigações tiveram início em março, após a denúncia de um vereador que teria sido alvo de uma mensagem caluniosa. Na época, ele teve o número telefônico dele adicionado em um grupo de WhatsApp denominado ‘Primeiro Escalão’ por uma pessoa desconhecida, a qual usava o nome de ‘Marcela Montes’. Conforme apurado, o grupo foi criado no dia 25 de março e contava com a participação de outras autoridades locais, funcionários públicos municipais e profissionais de diversas áreas.

Na ocasião, a vítima teve seu nome mencionado em uma publicação ofensiva, juntamente com mais sete edis e o prefeito Alexandre de Araújo (PSDB). Diante disso, procurou a Polícia Civil para denunciar o crime, apresentando prints (cópias) das mensagens postadas no grupo e a relação dos integrantes.

 

DADOS FALSOS

Em posse do número de celular do administrador do grupo de WhatsApp, a Polícia Civil solicitou informações à operadora de telefonia e descobriu que a conta em nome de ‘Marcela Moraes’ era falsa. A linha de celular foi cadastrada com os dados de uma moradora do município de Monte Aprazível (SP) – distante mais de 360 quilômetros de Aguaí.

A equipe de investigação começou a checar as ligações efetuadas e recebidas, chegando assim ao telefone de um vereador e até mesmo da loja onde o chip deste celular foi comprado e cadastrado ilegalmente. A partir daí, constatou-se que ele teria usado dados falsos para a criação da linha telefônica e de um perfil falso no WhatsApp. Diante disso, a Polícia Civil realizou uma busca domiciliar na casa dele. O edil acabou confessando o crime e entregou o aparelho e o chip utilizado.

 

APARELHO DANIFICADO

Ao aprofundar a investigação, a Polícia Civil constatou a ligação deste fato com outro caso que estava sendo apurado. Anteriormente, uma enfermeira havia postado uma mensagem no Facebook, afirmando que há um único respirador pulmonar no município e este se encontrava quebrado. A postagem teve grande repercussão em razão da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), resultando na instauração de um processo, já que aparelho estava funcionando normalmente e que o Pronto Socorro possui dois destes equipamentos.

Contudo, dois dias após esta publicação, um médico da unidade constatou que o respirador estava danificado, o que gerou outro processo para apurar o caso. Curiosamente, no dia seguinte, três vereadores – entre estes, o investigado – foram à unidade para verificar o aparelho.

A partir da interceptação de mensagens, a Polícia Civil descobriu conversas mantidas entre a autora da postagem – sobre a quebra do respirador – e um funcionário público municipal que atua na área da Saúde. Em uma das conversas, a autora pede ao servidor apresentasse provas do suposto defeito do aparelho e ele se compromete a “verificar” – isto horas antes do médico descobrir o dano no equipamento.

Ao aprender o celular, os policiais civis descobriram, por meio do GPS, que o funcionário esteve na unidade e manteve contato com outro servidor, que tinha livre acesso ao local onde se encontrava o respirador, o que sustenta a hipótese de crime de dano ou até mesmo sabotagem.

 

CONEXÃO

Analisando o telefone apreendido, a equipe policial descobriu que o funcionário tem uma forte ligação com os três vereadores – entre os quais está o investigado –, além de estar envolvido em outros casos alvos de investigação. Para se ter ideia, o servidor é suspeito de receber documentos públicos dos edis para, posteriormente, divulgá-los. Além disso, apurou-se que ele fornecia informações sigilosas da administração municipal a estes.

 

RELATÓRIO

As investigações resultaram em mais de 1.000 prints de telas de conversas, além de inúmeras mensagens de áudio. Com isso, foi produzido um relatório com mais de 300 páginas, onde foi possível estabelecer um vínculo entre todas essas ações, desde a publicação da primeira postagem de que o respirador estaria quebrado, ao cometimento do dano, a criação do grupo ‘Primeiro Escalão’ e, por fim, a situação em que vereadores – com a finalidade de vistoriar a ala restrita para Covid-19, criada anexa ao Pronto Socorro – tentaram entrar no local, ocasião em que os funcionários relataram abuso de autoridade e rendeu mais um inquérito policial instaurado.

 

PRÉ-CANDIDATOS

Em meio a esta minuciosa investigação, a Polícia Civil menciona em seu relatório que o vereador investigado pelo ‘grupo do ódio’ e uso de dados falsos é pré-candidato a prefeito. Já a enfermeira envolvida na investigação de sabotagem tem pretensão de lançar candidatura a vereadora.

 

ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA

De acordo com a Polícia Civil, as mensagens interceptadas remontam à rede de informação a qual oferecem indícios de uma suposta associação criminosa. Segundo a Polícia Civil, três vereadores estariam no ‘topo’ da organização, a qual era composta por cinco funcionários públicos ligados a área da Saúde. Um deles teria o papel de obter informações e repassar aos edis, enquanto que os demais seriam responsáveis por lhe abastecer com dados sigilosos.

A rede ainda conta com a enfermeira e um jornalista, os quais eram encarregados de divulgar as informações obtidas. O relatório com as imagens e demais provas já foi encaminhado ao Ministério Público.

 

CRIMES VIRTUAIS

Responsável pela apuração do caso, o delegado Jorge Luís Ciacco Mazzi relata que as pessoas que cometem crimes pela internet sempre são deixam ‘rastros’, mesmo em postagens anônimas. “A gente trabalha nas falhas que eles comentem. A partir daí, apuramos as autorias, reunimos as provas e encaminhamos ao Ministério Público”, comentou.

O delegado ainda destaca que quem comete os delitos no anonimato – por meio de perfis falsos ou mesmo utilizando dados de terceiros – podem ser identificados pelo serviço de inteligência da Polícia Civil e, além de responder pelos crimes cometidos, também pode responder por falsidade ideológica.

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