Membros de grupo promovem ‘caça às bruxas’ contra sanjoanenses

‘Caça às bruxas’: integrante de grupo pede nomes para anexar em lista de supostos ‘terroristas’ (Reprodução/Redes Sociais)

Em meio às mensagens de ódio, uma das integrantes do grupo ‘São João à Direita’ tem protagonizado uma espécie de ‘caça às bruxas’ contra quem se simpatiza com a ideologia de esquerda ou, ao menos, tinha cogitado participar da manifestação deste final de semana.

Em postagens no grupo, ela anunciou a retaliação, solicitando nomes de qualquer pessoa que tenha interesse em participar do ato. Em meio à troca de mensagens, outra internauta alega ter obtido o ofício que os organizadores da manifestação ‘antifascista’ protocolaram junto à administração municipal e diz que irá repassá-lo. “Passei o documento que deram entrada na Prefeitura no seu zap [WhatsApp]”, afirmou.

Já outro membro comentou sobre uma lista, com nomes de diversos sanjoanenses que participam de grupos e páginas com conteúdo ‘antifascistas’, foi elaborada.

LISTA DE ‘TERRORISTAS’

A lista elaborada por integrantes do grupo ‘São João à Direita’ tem como objetivo ser anexada à relação de nomes que o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP) está elaborando para encaminhar à embaixada dos EUA. Isso porque o presidente norte-americano Donald Trump anunciou que vai criminalizar o movimento ‘Antifas’, que, desde a morte de um homem negro por um policial branco, faz parte da onda de protestos que ocorrem no país.

Conforme apurado, o parlamentar estaria utilizando a estrutura da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para produzir um dossiê contra opositores de Bolsonaro. Ao que tudo indica, o intuito seria tachar qualquer pessoa que se oponha às ideias do governo ou se identifique com a ideologia de esquerda como ‘terrorista’.

No documento, que o jornal O MUNICIPIO teve acesso, são divulgados nomes, endereços, RGs, locais de trabalho e outras informações pessoais de pessoas que se declaram ‘antifascistas’. O dossiê, de quase 1.000 páginas, está circulando em redes sociais de grupos de extremistas de direita e menciona três moradores de São João da Boa Vista.

Em um dos perfis, além do nome e endereço das redes sociais da pessoa denunciada, ainda consta a seguinte observação: “Segue diversas páginas antifascistas” – como se fosse um agravante ou até mesmo um crime. Tamanha é a retaliação aos supostos ‘terroristas’, que até o local de trabalho de um deles é mencionado.

O vazamento desta lista criada pelo deputado tem repercutido em todo País e pode ter desdobramentos na Justiça para quem a tem divulgado. Segundo alguns especialistas em Direito, as pessoas que se sentirem ameaçadas, por terem seus dados nesta listagem, devem procurar uma delegacia e registrar um boletim de ocorrência para preservar seus direitos, bem como buscar a orientação de um advogado de sua confiança para identificar a mídia ou rede social por onde circula o documento e tomar as medidas cabíveis.

INVESTIGADO

Enquanto os integrantes do grupo ‘São João à Direita’ se dedicam a esta suposta ‘caça às bruxas’, criminalizando aqueles que discordam de sua ideologia, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação contra Douglas Garcia e seu assessor por uso de instalações e equipamentos públicos – no gabinete do parlamentar – para a propagação de fake news. A denúncia aponta ainda a possibilidade de funcionários de gabinetes de outros parlamentares do PSL também terem participado da disseminação de informações falsas nas redes sociais.

A apuração teve início após uma representação feita ao MP pelo deputado federal Junior Bozzella (PSL-SP), que alega ter sido vítima de ofensas em postagens na internet que teriam sido feitas a partir de computadores localizados no gabinete de Douglas Garcia, na Alesp.

Garcia também é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em outra apuração sobre a propagação de fake news e teve computadores do gabinete apreendidos pela Polícia Federal. O uso de estrutura pública para ações políticas ou práticas criminosas, como a disseminação de informações falsas, pode caracterizar improbidade administrativa.

Além disso, o parlamentar corre o risco de perder seu mandato pelo Conselho de Ética da Alesp. A Bancada Ativista já entrou com um pedido de cassação, acusando-o de crime de responsabilidade.

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