Sônia Bissoli é destaque no esporte, na cultura e na educação

Por Clovis Vieira
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 Se pudesse oferecer um conselho às novas gerações, a ex-atleta, professora de História, cantora e pioneira do futebol feminino, Sônia Bissoli, de 90 anos, é categórica: “Eu penso que a mulher deve fazer o que desejar fazer; não tem que haver preconceitos nem racismo. Cada pessoa é o que é. Acredite em você mesmo e vá em frente”. Assinante do O MUNICIPIO há mais de 50 anos, ela coleciona histórias que marcaram o esporte, a cultura e a educação de São João da Boa Vista.

Trajetória: Sônia Bissoli construiu uma história de destaque no esporte, na cultura e na educação (Clovis Vieira/O MUNICIPIO)

 NOS GRAMADOS
Pioneira do futebol feminino, Bissoli tem seu nome perpetuado no Museu da República, no Rio de Janeiro (RJ), no Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo (SP), e no Memorial Rubro-Negro, na Sociedade Esportiva Sanjoanense, em São João da Boa Vista. A história de sua entrada nesse esporte, considerado masculino na época, é recheada de episódios curiosos. Inclui oportunidade, preconceito, intervenção episcopal e muita determinação.

Hoje, quando o futebol feminino no Brasil vive um momento histórico, com a preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será sediada no país, a trajetória de Sônia e de suas colegas de colegial representa um capítulo à parte dessa história. Aluna do 1º colegial do Instituto de Educação ‘Cel. Cristiano Osório de Oliveira’, ela aceitou o convite das estudantes do 3º colegial para integrar um time de futebol feminino. A proposta era arrecadar recursos para a festa de formatura das colegas. Entre diversas sugestões, que incluíram até uma tourada, prevaleceu a criação da equipe.

Quando a notícia se espalhou, a primeira reação veio da Igreja. O então bispo, monsenhor Antônio David, aproveitava as homilias para condenar a iniciativa das jovens e alertar os fiéis contra a prática do futebol por mulheres, modalidade proibida por decreto federal na época. O efeito, porém, foi exatamente o contrário do esperado. A curiosidade aumentou e, no dia da partida, realizada na Esportiva, com as ‘bênçãos’ de Rosinha e Bilu, que cederam o campo para os treinamentos, mais de 5.000 pessoas compareceram ao estádio.

Antônio Carlos Nogueira de Oliveira, o Leivinha, saudoso cronista esportivo de O MUNICIPIO, registrou em reportagem publicada em 2017 neste bissemanário: “A novidade invadiu fronteiras e o jogo foi registrado pela TV Paulista (São Paulo), pela Gianelli Filmes, de São João, e pelas rádios Nacional (Rio de Janeiro) e Difusora local”.

 

NOS PALCOS
Sônia conta que a carreira como cantora guarda algumas de suas melhores lembranças. Ela se apresentava em festas e eventos para os quais era convidada.

“Certa vez, houve um festival no Cine Avenida, sala de cinema que funcionava na avenida Dona Gertrudes, cuja atração principal era a famosa dupla Cascatinha e Inhana. Eu fiz a abertura do show deles e, no final, aconteceu o inesperado: o público pediu bis para a minha apresentação e não pediu bis para os cantores principais”, relembrou, orgulhosa.

Na ocasião, interpretou a música Catari, Catari, clássico italiano composto por Salvatore Cardillo e Riccardo Cordiferro.

Em outra oportunidade, em 2017, ao receber homenagem do Grupo Literatura e Memória do Futebol, sediado no Pacaembu, e levada pelas mãos de Leivinha, Sônia encontrou o maestro João Carlos Martins, convidado especial para a 88ª reunião do grupo.

“Ele adora futebol! Conversando com o maestro, eu falei: ‘Eu gosto mais de música do que de futebol’. E ele me respondeu: ‘Vou confessar, gosto mais de futebol do que de música’. Já pensou?!”.

Sônia também foi solista do coral regido por Nascipe Atalla Murr, renomado violinista e maestro.

 

NAS SALAS DE AULA
Quando chegou a São João, em 1943, aos sete anos de idade, vinda de Ribeirão Bonito, município da região de Araraquara (SP), estudou no Grupo Escolar ‘Teófilo Ribeiro de Andrade’. Em seguida, cursou o colegial no Colégio Santo André e o Curso Normal no Instituto de Educação ‘Cel. Cristiano Osório de Oliveira’. Depois, formou-se em História pela Universidade de São Paulo (USP). Sua primeira experiência em sala de aula foi como professora primária, em 1957.

Em 1978, prestou concurso e escolheu uma vaga em Águas da Prata como professora de História. Em 1980, transferiu-se para o Instituto de Educação ‘Cel. Cristiano Osório de Oliveira’, onde continuou lecionando a disciplina. Em 1985, foi aprovada em concurso para diretora escolar e assumiu uma escola em Caconde (SP). Aposentou-se no ano seguinte.

Hoje, por causa da degeneração macular, Sônia já não consegue ler as páginas do jornal que a acompanha há mais de cinco décadas. Ainda assim, faz questão de manter o hábito. A tarefa passou para a funcionária doméstica, Ilda, que lê cada edição em voz alta.

“É a minha funcionária doméstica, a Ilda, quem lê O MUNICIPIO para mim”.

Mais do que uma rotina, o gesto preserva uma ligação construída ao longo de mais de 50 anos. Depois de uma vida dedicada ao esporte, à cultura e à educação, Sônia continua acompanhando a história de São João. Se antes a fazia pelos próprios olhos, hoje a acompanha pela voz de quem transforma, a cada edição, as páginas do jornal em memória, companhia e afeto.

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