Por Clovis Vieira
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A pressa constante e a dificuldade de manter a atenção tornaram-se marcas do cotidiano moderno, impulsionadas pelo uso excessivo de telas e pelo consumo acelerado de informações. Segundo profissionais da Psicologia, a velocidade passou a funcionar como um vício, alterando hábitos e a forma como as pessoas se relacionam com o tempo, o silêncio e a espera.

É cada vez mais comum, por exemplo, assistir a um filme na televisão enquanto se navega pelo celular, sem paciência para acompanhar o ritmo normal de uma produção. A urgência em checar o aparelho, mesmo sem notificações, está ligada a um comportamento condicionado. “Ficamos tanto tempo no mundo digital e virtual que desenvolvemos o medo de ficar de fora das novidades ou de perder algo importante”, explicou a psicóloga Priscila Souza.
De acordo com a profissional, vídeos curtos, áudios acelerados, dificuldade para concluir conteúdos mais longos e a sensação permanente de impaciência são sinais frequentes desse comportamento. A exposição contínua a esse padrão pode levar a um condicionamento cerebral conhecido como ‘brain rot’, termo utilizado para descrever a deterioração causada pelo consumo excessivo e superficial de informações.
ANSIEDADE E FRUSTAÇÃO
Priscila ressalta que o cérebro humano é altamente treinável, tanto para hábitos positivos quanto negativos. No entanto, o cenário se torna mais delicado quando envolve crianças e adolescentes, que ainda não têm maturidade para fazer escolhas responsáveis e tendem a buscar o prazer imediato. “O ser humano é motivado por recompensas. O uso do celular ativa esse sistema no cérebro da mesma forma que outros vícios. Nessas situações, ocorre a liberação de dopamina, hormônio ligado à sensação de prazer e bem-estar”, afirmou.
Entre as consequências desse comportamento estão o aumento da ansiedade, do estresse e da sensação constante de impaciência. A baixa tolerância à frustração também se intensifica. “Todo estímulo virtual gera expectativa e, quando ela não é atendida, surge a frustração. Esse é um sentimento difícil de lidar e que pode levar às piores decisões”, alertou.
REEDUCAÇÃO DO CÉREBRO
Apesar do cenário preocupante, a psicóloga afirma que é possível reeducar o cérebro para tolerar novamente o tempo lento. O processo, no entanto, exige determinação e mudança de hábitos. “Existem outros reforçadores de comportamento que fazem muito bem, como o convívio social e a prática de exercícios físicos. São hábitos antigos que precisam ser resgatados”, destacou.
Enquanto as plataformas digitais estimulam conteúdos cada vez mais curtos e rápidos, produções audiovisuais já adaptam suas narrativas para prender a atenção logo nos primeiros minutos. A atenção tornou-se uma disputa, e elementos como o silêncio e a espera passaram a incomodar.
Para Priscila, o problema não está no uso da tecnologia em si. “O mundo digital não é o grande vilão. O que precisamos é dividir melhor o tempo dedicado a cada atividade. O celular deve ser um coadjuvante na nossa vida, não o personagem principal”, concluiu.




