Mascote transforma o atendimento na Delegacia da Mulher de São João

Por Ana Paula Fortes
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Na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São João da Boa Vista, um gatinho laranja de olhos atentos e comportamento dócil tem ajudado a transformar um ambiente marcado por dor em um espaço de acolhimento. O Delegato B.O tornou-se mascote oficial da unidade e hoje integra a rotina de atendimentos a mulheres vítimas de violência doméstica, crianças em situação de vulnerabilidade e também da própria equipe policial.

Delegato: o companheiro que leva conforto às mulheres e crianças atendidas na Delegacia da Mulher de São João (Divulgação/Arquivo DDM)

A ideia da adoção surgiu em 2023, quando o então delegado titular da DDM, Ivan Constâncio, conheceu pessoalmente o trabalho da ONG Lelo Love Pet, de quem já era seguidor nas redes sociais. A entidade havia acabado de resgatar uma gata arisca e seu filhote que viviam sobre o telhado da antiga cadeia feminina. A partir do contato com a voluntária Giovana Marcela Batista, chamou a atenção de Constâncio um gato adulto laranja que estava entre os resgatados e era extremamente dócil que ainda não havia encontrado um lar.

“Comentei com a Giovana sobre a importância de termos um animal de apoio emocional na delegacia”, relembrou o delegado, hoje no Deic de Piracicaba. “O objetivo não era só acolher as vítimas, especialmente mulheres e crianças, mas também ajudar nossa equipe. O trabalho policial envolve tensão constante e sofrimento humano. Um ambiente mais acolhedor faz diferença para todos”.

ACOLHIMENTO

Para a ONG, a possibilidade de adoção foi recebida com entusiasmo. O O’Malley, como era chamado, havia sido encontrado na porta da casa de uma voluntária. “Mesmo sem termos um lar temporário disponível, nós o assumimos como responsabilidade de cuidar, alimentar, tratar da saúde. Mas ele continuava na garagem, esperando uma família que nunca chegava”.

Além da idade adulta, o gato possui FIV +, Vírus da Imunodeficiência Felina, o que ainda afasta muitos adotantes, mesmo sendo uma condição controlável e totalmente compatível com uma vida saudável.

“Quando o doutor Ivan entrou em contato e disse que queria adotá-lo para a delegacia, foi uma alegria enorme”, disse Giovana. Antes da mudança definitiva, o gato passou por uma preparação completa de exames, tratamento dentário, cirurgia, vacinação e cuidados especializados. Só então foi levado ao novo lar, onde ganharia não apenas um teto, mas uma missão.

A presença de B.O. na delegacia rapidamente mostrou impacto. Para mulheres e crianças que chegam abaladas, traumatizadas ou temerosas, encontrar um gato pacífico, ronronando sobre uma cadeira ou se aproximando em busca de carinho muda o clima do ambiente.

“Muitas vítimas vivem o pior dia de suas vidas quando entram numa delegacia”, explicou Giovana. “O Delegato B.O. funciona como um ponto de equilíbrio emocional. Ele diminui a ansiedade, traz conforto, humaniza a experiência”.

Ivan Constâncio confirmou. “Ele virou símbolo de acolhimento. Ver uma criança sorrir ao acariciar o gato enquanto a mãe presta depoimento não tem preço”.

E o impacto não se limita ao público atendido. Para os policiais, lidar diariamente com violência, relatos traumáticos e pressão emocional torna o ambiente pesado. O felino, com sua rotina serena e afeto constante, ajuda a aliviar tensões. “Ele se tornou companheiro da equipe. Faz o trabalho ficar mais leve”, afirmou o delegado.

Com apenas sete voluntárias e mais de 350 adoções responsáveis realizadas em quatro anos, a Lelo Love Pet enfrenta limites de espaço e recursos. A história do gatinho laranja traz visibilidade ao trabalho e, segundo a ONG, ajuda a combater preconceitos especialmente com gatos adultos ou positivos para doenças virais.

“Ele mostra que todo animal abandonado merece uma chance. E que essa chance pode transformar não só a vida do gato, mas também de quem convive com ele”, disse Giovana.

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