Por Ana Paula Fortes
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Alimentar macacos em parques naturais pode parecer, à primeira vista, um gesto simpático ou até divertido. Quem visita áreas verdes como o Parque Estadual de Águas da Prata (PEAP) muitas vezes se encanta com os macacos-prego que se aproximam em busca de comida fácil. No entanto, por trás dessas interações, esconde-se um problema sério, com impactos profundos na saúde dos animais, na segurança dos visitantes e no equilíbrio do ecossistema local.

Foi para investigar justamente esses efeitos que a bióloga sanjoanense Natascha Kelly Alves Scarabelo, recém-formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conduziu um estudo pioneiro no PEAP. O trabalho é fruto de sua iniciação científica no Laboratório de Ecologia e Comportamento de Mamíferos (Lama), com orientação da professora dra. Eleonore Zulnara Freire Setz. “Escolhi esse tema por uma questão afetiva mesmo, sou de São João da Boa Vista e frequento o parque desde a infância. Sempre me encantei com os macacos-prego e queria usar a ciência para chamar atenção para a região onde cresci, que tem um potencial enorme de pesquisa ainda pouco explorado”, afirmou.
Durante nove meses, a bióloga acompanhou um grupo de 26 macacos-prego-preto (Sapajus nigritus) que vivem na zona urbana do parque. O estudo, publicado recentemente na Revista do Instituto Florestal, revela dados alarmantes: os primatas, já bastante habituados à presença humana, passaram a circular constantemente por áreas urbanizadas como quiosques, calçadas, banheiros e até o parquinho infantil, em busca de alimentos fornecidos direta ou indiretamente pelos visitantes.
Em 66 horas de observação distribuídas em 24 visitas de campo, foram registradas 461 ocorrências de alimentação antrópica — ou seja, ingestão de alimentos de origem humana. Isso representa uma média de quase oito episódios por hora. “O mais preocupante é a completa falta de medo dos seres humanos. Macacos que vivem em áreas sem contato urbano geralmente fogem ao menor sinal de aproximação. No PEAP, eles chegam a poucos centímetros das pessoas. Isso os torna extremamente vulneráveis tanto a acidentes quanto a ações mal-intencionadas, como agressões ou tentativas de tráfico de animais”, disse.
Entre os alimentos mais oferecidos estão banana (46,9%), amendoim salgado (15,8%) e milho com manteiga (6,5%). Contudo, foram também registrados casos de consumo de alimentos ultraprocessados, como pastel, salgadinho, sorvete, sachês de maionese e açúcar refinado, todos nocivos à saúde dos primatas. “O consumo frequente desses itens pode levar à desnutrição, deficiências vitamínicas, problemas dentários e até alterações comportamentais”, explicou a pesquisadora. “Os macacos ficam sedentários, brigam entre si por alimento escasso e passam menos tempo procurando comida na floresta. Até o aprendizado dos filhotes pode ser prejudicado”, relatou. Na análise de fezes dos animais foram encontrados resíduos de cabelos humanos, fragmentos de madeira e até pedras.
RISCOS
Apesar do foco estar na conservação da fauna, o estudo também chama atenção para os riscos aos próprios frequentadores do parque. O contato direto com os macacos pode levar à transmissão de doenças e até a acidentes envolvendo mordidas. “Na espécie que estudamos, um dos principais sinais de agressividade é mostrar os dentes, mas os visitantes muitas vezes confundem isso com um sorriso. Essa má interpretação pode gerar situações perigosas, especialmente com crianças”, alertou Natascha.
Durante as observações, não foram registrados ataques dos macacos, mas houve ao menos um episódio de tensão quando dois homens em situação de rua tentaram afastar os animais com paus após terem sua comida roubada.
Outro risco é a transmissão de zoonoses por meio da saliva humana presente em restos de alimentos. “Doenças que são comuns para nós, como herpes, podem ser fatais para outras espécies. É importante destacar que os primatas não transmitem febre amarela, eles são vítimas da doença como nós”, ressaltou a pesquisadora.
ENTRE O CARINHO E A DEPENDÊNCIA
Muitos visitantes acreditam que alimentar os animais é uma forma de afeto. Mas, segundo a literatura científica e a própria observação de campo, o aprovisionamento alimentar pode desencadear uma série de desequilíbrios, tanto individuais quanto populacionais.
“Com acesso fácil a comida, os macacos podem se reproduzir mais, levando a uma superpopulação e aumento da competição entre eles. Além disso, passam a depender do alimento humano e podem não conseguir mais forragear de forma eficiente se isso acabar de repente”, explicou Natascha.
Durante a pesquisa, um dos episódios mais marcantes, segundo a bióloga, foi ver um visitante compartilhando um pote de açaí com um macaco usando a mesma colher.
“Esse tipo de cena pode parecer divertida, mas representa exatamente o tipo de contato que queremos evitar”, comentou.
Em 2021, o parque lançou a campanha Lugar de Macaco é na Floresta, criando um comedouro com frutas no meio da mata como forma de afastar os macacos das áreas urbanizadas.
A estrutura do parque e o alto fluxo de turistas aos finais de semana são fatores que estimulam essas interações. “Mesmo com 50 hectares de área total, os visitantes se concentram em espaços pequenos, o que facilita o encontro entre humanos e animais. Os macacos sabem exatamente onde ir para conseguir alimento fácil”, explicou a pesquisadora.
Para minimizar os impactos, a equipe defende a implementação de ações educativas regulares, especialmente nos dias de maior movimento.
“Nossa sugestão inclui campanhas com placas informativas em pontos estratégicos, treinamentos com funcionários do parque e atividades de educação ambiental para os visitantes. Muita gente realmente não sabe que está fazendo algo errado. A informação pode ser uma ferramenta poderosa”, frisou.
Sobre medidas mais restritivas, a pesquisadora acredita que ações educativas devem vir primeiro, mas reconhece que fiscalização mais rigorosa pode ser necessária em casos recorrentes.
Nascida e criada em São João da Boa Vista, Natascha sempre teve interesse por animais e conservação. A vocação se confirmou durante a graduação, após um estágio no Zoológico de Vargem Grande do Sul, onde se encantou definitivamente com os macacos-prego. “O Lama, da Unicamp, foi a escolha natural para mim. É o laboratório mais voltado para o estudo de mamíferos e tive a sorte de ser orientada pela professora Eleonore Setz, uma referência na área”.
Este foi seu primeiro estudo com primatas em áreas turísticas, mas a jovem bióloga já pensa em seguir na mesma linha. “O Parque Estadual de Águas da Prata tem muito potencial para novos estudos. Nosso trabalho foi o primeiro realizado com os macacos-prego dali. Espero que ele seja apenas o começo”, afirmou.
Natascha faz um alerta à população: “Macacos sabem se virar, deixe que sejam macacos. Não precisamos interferir. Observem, aprendam e deixem que eles sejam o que são macacos selvagens. Isso é o melhor que podemos fazer por eles”, concluiu.




