Por Bruno Manson
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Mais uma morte foi registrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São João da Boa Vista. Desta vez, uma mulher faleceu na tarde de terça-feira (5) após sofrer um infarto enquanto estava na sala de monitoração. O caso veio à tona após uma publicação em um grupo de discussão nas redes sociais e tem levantado questionamentos sobre os procedimentos adotados com a paciente.

Conforme conta na postagem, a mulher já estava sofrendo um infarto quando chegou na unidade. “Foi feito eletro e não deu IAM [Infarto Agudo do Miocárdio], mas no exame de sangue deu”, contou o denunciante.
Segundo o relato, o esposo dela foi impedido de acompanhá-la na ocasião. A paciente foi mantida deitada, quando sofreu o segundo infarto. Na ocasião, ela chegou a cair da maca e outro paciente que estava perto pediu ajuda. “O marido entrou correndo e a pegou no chão. Segundos depois, ela veio a falecer”, relatou o internauta.
INDIGNAÇÃO
Ainda na postagem, o autor manifesta a indignação sobre este caso e questionou o atendimento prestado à mulher. “Olha o descaso! Infelizmente a segurança do paciente naquela UPA é zero. Temos mais um caso de negligência. É desumano, inaceitável isso acontecer”, afirmou. “Onde já se viu deixar uma paciente infartada sozinha, sem segurança, em cima de uma maca, sem enfermagem, nem mesmo um familiar acompanhando”, completou.
“Hoje ela foi enterrada. Deixou filhos, neto, marido, amigos, família, uma mãe. Era uma pessoa honesta, boa de coração, uma mãe exemplar. Deixou muitos de coração partido e um vazio grande”, lamentou.
UPA
Diante da repercussão deste caso, o médico Farid Farrage Abd El Fatah, diretor-técnico da Unidade de Pronto Atendimento, encaminhou ao jornal O MUNICIPIO o relatório do caso. Conforme consta no documento, a paciente deu entrada na UPA por volta das 12h40 e estava acompanhada pelo esposo. A mulher relatava dor torácica em aperto, com irradiação para as costas e dificuldade para respirar. “Devido à queixa e à gravidade potencial de quadro clínico, a paciente foi prontamente acomodada em leito na sala de emergência, monitorizada e submetida à realização de ECG [eletrocardiograma]”, informou.
Conforme consta no relatório, ela foi avaliada pela equipe médica, que prescreveu medicações analgésicas e iniciou o protocolo de infarto agudo do miocárdio, com administração de ácido acetilsalicílico e Clopidogrel. Às 12h50 foram coletadas amostras para exame de enzimas cardíacas e as medicações foram administradas conforme prescrição médica.
Cerca de cinco minutos depois, a mulher apresentou quadro de inquietação e queixa de dor persistente. De acordo com a direção da UPA, ela permaneceu em leito de emergência, com grades laterais elevadas. “Ainda assim, por diversas vezes, sentava-se no leito e colocava as pernas entre os vãos das grades. Nesse momento, apresentou um episódio de vômito e foi reavaliada pela equipe”, reportou Farid no relatório apresentado.
QUEDA E MORTE
De acordo com o relatório, por volta das 14h20, durante atendimento simultâneo a outra paciente na sala de emergência, a técnica de enfermagem escalada ouviu um barulho e, ao verificar, encontrou a mulher caída no chão, ao lado do leito. “Foi solicitada ajuda imediatamente. A equipe médica foi acionada, e ao avaliá-la, constatou ausência de pulso. Foram iniciadas manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), com realização de 12 ciclos, sem resposta clínica da paciente. O óbito foi, então, constatado”, mencionou o diretor-técnico.
Diante disso, o caso será analisado pela comissão interna de óbito e segurança do paciente. “Trata-se de uma ocorrência grave, que envolveu todos os esforços da equipe multiprofissional e seguiu os protocolos de atendimento de emergência vigentes. A conduta médica e de enfermagem foi conduzida de maneira imediata e dentro dos parâmetros institucionais”, finalizou Farid.
OUTRAS MORTES
Os questionamentos em relação ao atendimento da UPA têm se acentuado desde que o Instituto Nacional de Gestão para Excelência em Saúde (Ingex Saúde) assumiu a administração da rede de saúde municipal, em 1º de março.
No dia 23 de abril, Aron Igor Pacheco Faria, de 38 anos, paciente crônico renal, faleceu enquanto era atendido na unidade. Ele já tinha passado pela UPA no dia anterior e foi encaminhado para a Santa Casa Dona Carolina Malheiros, onde recebeu alta médica em menos de 24 horas. A morte dele levantou indagações sobre a alta médica precoce no hospital e os procedimentos adotados com os pacientes na UPA.
No dia 30 de abril, Maitê Sossai Bueno, de apenas 2 meses de idade, morreu após passar quatro vezes por atendimento na unidade. A família relatou que a bebê sofreu pelo menos seis paradas cardíacas antes de falecer. Já no dia 3 de maio, Anthony Gabriel Dias, também de 2 meses, faleceu. O bebê havia sido atendido e liberado duas vezes pela equipe médica da UPA antes do óbito. A família afirma que houve negligência e pretende buscar medidas legais para que o caso seja investigado. As duas crianças compartilhavam o mesmo diagnóstico: bronquiolite, uma inflamação das pequenas vias aéreas que dificulta a respiração, causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR).
No dia 13 de maio, o aposentado Benedito Martins, de 73 anos, faleceu dois dias após ter passado por um atendimento médico na UPA e ser liberado. Ele apresentava um quadro severo de pneumonia, sentia muita falta de ar e estava com a glicemia alta.
Diante dos problemas enfrentados na área da saúde, a Prefeitura de São João da Boa Vista firmou em julho um convênio com o Consórcio de Desenvolvimento Regional (Conderg) para a gestão de toda a rede municipal. A transição dos trabalhos com o Ingex tem sido de forma gradativa, com previsão de conclusão até dezembro.




