Febre do morango do amor agita mercado e redes sociais

Por Ana Paula Fortes
[email protected]

Nos últimos meses, uma nova paixão nacional ganhou destaque nas vitrines, redes sociais e mesas: o morango do amor. Trata-se de um morango coberto por chocolate branco e mergulhado numa crosta de caramelo e decorado com capricho. Mais do que uma moda gastronômica, o fenômeno representa uma explosão de comportamento coletivo movido por estética, desejo e, claro, muito sabor.

Letícia Maldonado: “Foi um verdadeiro respiro para muitas confeiteiras” (Pedro Souza/O MUNICIPIO)

Quem atua diretamente na cadeia produtiva já sente os efeitos. Audrey Ariadine de Almeida Soares Heleno, vendedora de morangos há oito anos, relata que as vendas dispararam nas últimas semanas.

“Nessas quatro semanas, tem aumentado as vendas devido ao morango do amor, sensação do momento. Acredito que deva manter por um tempo, embora pense que seja algo temporário”, comentou.

Contudo, ela alerta que a alta no preço do morango não se deve apenas à procura pelo doce: “O preço subiu mais por conta do frio, que dificulta a maturação do morango e reduz a colheita. Não dá para embalar morango verde por uma caixa toda”, explicou. Segundo Audrey, apesar da moda, muitos de seus clientes fixos, que produzem bolos e doces tradicionais, seguem firmes no mercado. “Eles são estáveis. Agora, não penso em fazer doces, mesmo com tanta gente me incentivando, porque não tenho habilidade com confeitaria”, confessou.

A CONFEITARIA ABRAÇA A TENDÊNCIA

Já para Letícia Maldonado, confeiteira há cinco anos, a tendência chegou como uma grata surpresa. “Trabalhar com morangos do amor nunca esteve nos meus planos, mas com a explosão da tendência e a procura dos próprios clientes, decidi experimentar e foi um sucesso”, contou.

Ela explica que julho, um mês geralmente morno para o setor, teve aumento expressivo nas vendas. “Foi um verdadeiro respiro para muitas confeiteiras. Vi relatos comparando o volume de produção com o da Páscoa!”.

Visualmente irresistível, a sobremesa virou tendência com debates sobre alimentação e reflexões psicológicas

Para Letícia, o sucesso se deve a uma combinação de fatores. “Marketing bem feito, apelo visual e o famoso efeito manada. Todo mundo começa a compartilhar, o desejo coletivo só aumenta”, analisou. Além disso, o doce virou símbolo de afeto. “Jovens, casais e pessoas querendo presentear são os que mais procuram. Mas não basta colocar morangos numa caixinha, o segredo é criar uma experiência completa”, disse.

Apesar do sucesso, Letícia faz um alerta: “O brilho do caramelo esconde a responsabilidade. Já vi casos de gente que quebrou o dente ou se machucou com o palito. Quem quiser entrar nesse mercado, precisa buscar conhecimento técnico e segurança alimentar”.

MAIS DO QUE DOCE, UM COMPORTAMENTO

A psicóloga Júlia Los Angeles Nogueira explica o fascínio coletivo por trás do morango do amor. “O doce ativa nosso sistema de recompensas. Açúcar e gordura geram prazer imediato. E, quando isso é reforçado por vídeos, elogios e curtidas, o comportamento se espalha”, afirmou.

Segundo Júlia, a estética tem papel decisivo. “Somos programados para responder a estímulos visuais. O morango vermelho, o brilho do chocolate, o close da calda escorrendo… Tudo isso ativa áreas do cérebro ligadas ao desejo”, explicou. Esse fenômeno, chamado de food porn ou pornografia alimentar, ajuda a explicar por que doces visualmente atrativos viralizam tão rápido.

Além disso, há um forte componente social, o não pertencimento costuma gerar estresse, ou seja, o ser humano não é totalmente livre e sim moldado pelas contingências ambientais. “Muita gente consome esse tipo de produto não por fome, mas pelo desejo de pertencimento. Estar na moda, fazer parte, é um reforço poderoso”, afirmou. Mas alerta para o consumo impulsivo, moldado pelas redes sociais. “Um grande passo para resgatar algum nível de autonomia sobre as escolhas é reconhecer as influências e optar por ambientes que estimulem comportamentos desejáveis. Recompensar-se com um alimento gostoso não é o problema em si. O prejuízo aparece quando esse se torna o único recurso disponível”.

SAÚDE E EQUILÍBRIO

Do ponto de vista nutricional, o morango tem muitos benefícios. Segundo o nutricionista Rafael Vilela, “é rico em vitamina C, fibras e antioxidantes, além de ser pouco calórico”. Já o chocolate, tudo depende da escolha e da quantidade. “O ideal é optar por chocolate amargo, com alto teor de cacau, e evitar excessos. A moderação é essencial para evitar efeitos negativos”, orientou.

Rafael também vê a tendência como uma possível aliada da saúde, desde que usada com equilíbrio. “Associar frutas a momentos prazerosos pode mudar a percepção dos jovens. É uma porta de entrada para hábitos mais saudáveis. O problema está no uso de ingredientes de baixa qualidade e no exagero”, disse. Para quem tem restrições, como diabéticos, ele recomenda versões com chocolate sem açúcar e planejamento nutricional adequado.

DOCE QUE EMOCIONA

Além das vendas, o morango do amor tem gerado histórias emocionantes. Letícia compartilhou, nas redes, relatos de seguidores decepcionados com versões mal feitas do doce. “Presenteei uma grávida e uma criança que haviam se frustrado com morangos que não estavam à altura da expectativa. Quando enviaram o feedback da nova experiência, fiquei emocionada. Isso é confeitaria: carinho, técnica e amor em forma de doce”, afirmou.

O morango do amor, mais do que uma moda, revela muito sobre o momento atual, como a força das redes sociais, o apelo estético, o desejo por experiências e, acima de tudo, a importância do afeto, até mesmo em um simples doce.

Como toda tendência, pode passar. Mas os impactos que deixou nas vendas, nas emoções e no comportamento coletivo, devem durar muito mais do que o brilho do caramelo.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here