Saiba o que é Cyberbullying e como agir

Por Ana Paula Fortes
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A morte de uma menina de 8 anos após inalar gás desodorante aerossol completa 56 mortes de menores, nos últimos 11 anos, no Brasil, por ‘desafios da internet’. Sarah Raíssa Pereira de Castro, de  Ceilândia, no Distrito Federal, não resistiu e teve morte cerebral confirmada dias após realizar a competição que circula na plataforma TikTok.

“São criminosos que não arrombam portas, não pulam muros. Eles entram sorrateiramente na mente das crianças”, descreveu o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional do Rio de Janeiro, Carlos Oliveira.

Minissérie: Na trama, a vida de uma família é revirada quando Jamie,13, é preso pelo assassinato de uma garota da escola (Reprodução/Netflix)

O tema adolescentes x internet é alvo de pesquisa de estudiosos de todo o mundo. Mas tomou conta dos noticiários nos últimos meses após o lançamento de Adolescência, minissérie da Netflix. Na trama, a vida de uma família é revirada quando Jamie (Owen Cooper), de 13 anos, é preso pelo assassinato de uma garota da sua escola. A trama conta com quatro episódios de cerca de uma hora cada.

Enquanto conta a história fictícia de Jamie, a minissérie aborda temas como os perigos das redes sociais, cyberbullying e internetês, que é a linguagem própria dos jovens, recheada de códigos e símbolos desconhecidos pelos adultos.

O uso excessivo da internet e a exposição a riscos como desafios perigosos e crimes virtuais têm preocupado pais, educadores e autoridades.

Foi realizado o primeiro estudo brasileiro sobre essa nova forma de violência. A pesquisa conduzida por pesquisadores da Escola de Enfermagem da UFMG e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que 13,2% dos jovens são vítimas de cyberbullying. A pesquisa analisou uma amostra de 159.245 estudantes entre 13 e 17 anos, do ensino fundamental e médio, de escolas públicas e privadas.

Entre as principais vítimas das agressões estão adolescentes do sexo feminino (16,2%), filhos de mães sem escolaridade (16,2%) e alunos de escolas públicas (13,5%).

OS RISCOS PARA A SAÚDE MENTAL

A psicóloga Letícia Patrocínio Fontes Leite alerta que o uso desmedido das redes sociais pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e adolescentes podendo levar a alguns transtornos mentais. “Essa faixa etária é mais vulnerável à crimes virtuais devido ao cérebro ainda estar em formação, fazendo com que tenham a tendência em serem mais impulsivos e com dificuldades de medir os riscos. Além disso as plataformas são atrativas pois fornecem informações de forma rápidas e satisfatórias para o cérebro, gerando sentimentos de recompensas imediatas e criando uma necessidade de repetir a experiência por vária vezes. Isso gera sentimentos de validação”, explicou.

Psicóloga: Letícia Fontes alerta que o uso desmedido das redes sociais pode prejudicar (Divulgação/Arquivo Pessoal)

Entre as consequências negativas que o exagero das telas pode afetar a vida das crianças e adolescentes estão: a queda no rendimento escolar, isolamento social, ansiedade e depressão.

“O impacto no desenvolvimento cognitivo pode ser observado no desempenho escolar, com dificuldades de concentração, gerando uma queda em seu rendimento acadêmico. Já no sentido emocional, o impacto vem como isolamento social, fazendo com que eles prefiram estar conectados ao invés de contatos presenciais, o que prejudica suas habilidades sociais. Também pode gerar baixa tolerância a frustrações, já que tudo na internet é de uma forma muito rápida e na vida real, em várias situações, exige um processo para as coisas acontecerem”.

Letícia destaca sobre a importância de os pais observarem quaisquer mudanças comportamentais em seus filhos. “Os pais devem observar mudanças como: a preferência por ficar sozinho utilizando o celular, instabilidade emocional, agressividade ou retraimento. Além de alterações de sono, baixo rendimento escolar, comparações excessivas no contexto de redes sociais gerando baixa autoestima, sentimentos de ansiedade. Existem vários sinais, o importante é estarem atentos a qual-quer mudança percebida”, orientou.

COMO MONITORAR A VIDA DIGITAL DOS FILHOS

Existem diversas maneiras de monitorar as ações virtuais de seus filhos, dentre as sugestões especialistas estão: utilizar aplicativos de vigilância parental que permitem supervisionar a navegação online; restringir a privacidade dos perfis e explicar que apenas amigos são bem vindos; ter conheci-mento de quais influenciadores seguem; sempre manter o diálogo aberto com assuntos de temas de-licados. “É muito importante acolher os filhos, fortalecendo o vínculo, através de diálogos estabele-cendo limites e fazendo combinados. Isso facilita o acesso ao mundo interno deles. Além disso in-centivar a busca por outras coisas atrativas, esportes, leituras, encontros com amigos”, alertou Letícia.

Ao identificar algum sinal de alerta o apoio de um psicólogo é de grande auxílio. “A psicote-rapia é uma aliada poderosa para ajudar nessas questões trabalhando as causas emocionais por trás do vício”.

ASPECTOS JURÍDICOS E CRIMES CIBERNÉTICOS

O advogado Daniel de Palma Petinati destaca que, embora o Brasil tenha leis como o Marco Civil da Internet e o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, o anonimato na web dificulta a punição de criminosos.

Advogado: Daniel Petinati acredita na conscientização e educação digital dos pais e dos jovens (Divulgação/Arquivo Pessoal)

“O uso desmedido da internet por crianças e adolescentes, na grande maioria das vezes, sem o controle ou supervisão dos pais atrelada ao anonimato facilmente alcançável na internet, é um campo fértil para o cometimento de crimes. Ao contrário do que muita gente pensa, o desafio jurídi-co nesses casos não é ausência de leis, já que no Brasil, há, por exemplo, o Marco Civil da Internet, que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet ou do ECA que hoje já inclui artigos que tipificam e estabelecem previsão de punição para crimes cibernéticos contra crian-ças e adolescentes. A maior dificuldade na aplicação da lei é o anonimato que muitas vezes envolve os crimes na internet.”, explicou.

Segundo o advogado essa dificuldade não pode ser entendida como motivo para não se pro-curar os órgãos responsáveis pela investigação e punição dos criminosos. É de extrema importância que em casos de crimes virtuais contra crianças e adolescentes, o fato seja comunicado à autoridade policial por meio de Boletim de Ocorrência na Polícia Civil. “Os pais podem e devem denunciar ao Ministério Público e ao Conselho Tutelar, que possui expertise para atender as vítimas e encaminhar as denúncias para as autoridades competentes pela investigação e punição dos criminosos”, orientou Daniel.

Outra forma de denunciar crimes cybernéticos é por meio do site da Safernet que é uma associação civil com o objetivo de promover a defesa dos Direitos Humanos na Internet. “Essa organização possui um eficiente sistema de denúncia por meio de parceria com o Ministério Público Federal é um importante instrumento à disposição da socieda-de para combate ao crime praticado no ambiente virtual”.

Daniel acredita que mais do que denunciar e buscar as autoridades, um avanço considerável para evitar a prática dos crimes, seria um trabalho efetivo de conscientização e educação digital dos pais e dos jovens quanto ao correto uso e os riscos da internet. “É muito importante que pais e filhos tenham as devidas noções sobre privacidade, segurança, respeito, diversidade, ética e cidadania, temas que também devem ser praticados no ambiente virtual”, finalizou.

Esta matéria terá continuidade na próxima edição de quarta-feira.

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