Quaresma: um período de reflexão e renovação espiritual

Por Ana Paula Fortes
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A Quarta-feira de Cinzas marca o início de um dos períodos mais significativos para os cristãos em todo o mundo: a Quaresma. Esta data, que ocorre 40 dias antes da Páscoa, é um momento de introspecção, arrependimento e preparação para a celebração da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

“A quarta-feira de cinzas é um convite para a reflexão sobre o dever da conversão, da mudança de vida, recordando a passageira, transitória e efêmera fragilidade da vida humana, sujeita à morte”, explicou o padre João Bettela Filho.

Padre João Bettela Filho: “Para os católicos, esse é um momento de profunda reflexão espiritual” (Divulgação/Arquivo Pessoal)

ORIGEM

A tradição remonta ao século IV, quando a Igreja Católica instituiu o período de 40 dias de jejum e penitência. O uso das cinzas tem raízes ainda mais antigas, ligadas a práticas judaicas de cobrir-se com cinzas como sinal de luto e arrependimento.

Durante as missas da Quarta-feira de Cinzas, os fiéis recebem uma cruz de cinzas na testa, feitas a partir dos ramos de palmeira abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. O gesto é acompanhado pelas palavras: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” ou “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Segundo o padre, essas frases reforçam a consciência da mortalidade humana e a necessidade de conversão espiritual. “Na Paróquia Senhor Bom Jesus teremos duas missas de cinzas: Igreja Santa Rita às 9h e Igreja Matriz às 19h30”, convidou.

A missa de Quarta-feira de Cinzas da Catedral ocorrerá às 19h30 e será presidida pelo bispo diocesano, Dom Eugênio Barbosa Martins.

QUARESMA

De acordo com a tradição cristã, a Quaresma é um tempo que simboliza os 40 dias que Jesus passou no deserto, resistindo às tentações de Satanás. Para os cristãos, é um período de jejum, oração e caridade, com o objetivo de se aproximar de Deus e renovar a fé.

Além do jejum, a caridade também é um pilar central da Quaresma. Os cristãos são encorajados a praticar atos de generosidade, como doações a instituições filantrópicas, visitas a doentes ou idosos, e outras formas de ajudar o próximo. Conforme a tradição, essas ações refletem o espírito de amor e solidariedade que Jesus pregou.

A Quaresma culmina na Semana Santa.  “Na noite da quinta-feira da Semana Santa inicia-se o Tríduo Pascal: quinta-feira Lava Pés e instituição da Eucaristia, sexta-feira a Paixão e morte de Jesus, e no sábado a Vigília Pascal”, comentou Bettela.

PENITÊNCIA

O jejum, uma das práticas mais associadas à Quaresma, não se limita apenas à abstinência de alimentos, pois a finalidade é que, ao abrir mão de algo, o indivíduo crie espaço para reflexão e crescimento espiritual. Muitos fiéis optam por renunciar a algo que consideram supérfluo, como redes sociais, doces ou hábitos negativos, como forma de exercitar a disciplina e a autodisciplina.

“Para os católicos, esse é um momento de profunda reflexão espiritual, pois lembramos a passagem de Jesus pelo deserto e as tentações que enfrentou e que também enfrentamos durante a nossa caminhada nesse mundo. A Igreja no seu zelo pastoral procura favorecer os fiéis a buscarem o sacramento da penitência reconhecendo serem pecadores e buscar a conversão para uma vida nova”, contou o padre.

Durante a Quaresma, em todas as paróquias de São João, haverá confissões comunitárias às terças e quintas-feiras. “Não deixe passar esse tempo da graça de Deus em vão, aproveite a oportunidade que Deus te concede para transformar teu coração”, completou Bettela.

Para a aposentada Rosemary Ragassi Justolin, 58, a Quaresma é um momento de profunda conexão com sua fé, há anos ela pratica a abstinência de carne nas quartas-feiras de Cinzas e sextas-feiras da Paixão. “Procuro vivenciar esse tempo de mudança de hábitos e atitudes, participando de missas de penitência, confissões, terços e práticas de caridade. Já faço isso há algum tempo, exercendo a consciência do que a Quaresma realmente representa para nós, cristãos”, compartilhou.

Ela enfatiza a importância da humildade e da busca pelo Evangelho em sua jornada espiritual. “Com a graça de Deus, na humildade e na busca pelo Evangelho de Jesus, me esforço em minha conversão diária”, afirmou Rosemary.

A psicóloga Maria Júlia Soares Mechilão, 24, carrega consigo a tradição da Quaresma desde a infância. “Sou católica e, desde pequena, meus pais sempre me ensinaram sobre o significado desse tempo litúrgico. Depois, também aprendi mais na catequese”, relembrou. Para ela, a Quaresma é um período de conversão, reflexão e preparação para a Páscoa. “Faço penitência porque acredito que ela me ajuda a crescer na fé, a fortalecer minha relação com Deus e a exercitar a renúncia”, explicou Maria Júlia. Embora não se recorde exatamente com quantos anos começou a praticar, ela menciona que já na catequese era convidada a adotar práticas penitenciais. “A cada ano, escolho algo para abdicar ou intensifico práticas de oração e caridade”, contou.

A psicóloga vê na Quaresma uma oportunidade de amadurecimento espiritual. “É um tempo para olhar para dentro, reconhecer nossas falhas e buscar uma vida mais alinhada com os ensinamentos de Cristo”, refletiu.

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