Variante Delta traz novo risco; cardiologista em Londres falou com O MUNICIPIO

Por Ignácio Garcia
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Dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), planificados pelo jornalista econômico Luis Nassif, apontam que nos últimos sete dias, o número de novos casos de Covid-19 no Brasil apresentou queda de -4,3% e redução consolidada de 19,9% nos últimos 28 dias.

Embora os números sejam animadores e 12 estados da Federação apresentem quedas drásticas na quantidade de casos, a situação deve ser observada com cautela, já que existe a ameaça da variante Delta, alertada por especialistas ouvidos pela reportagem, sendo um deles ligado ao Imperial College London, instituição britânica com campus principal em Londres, no Reino Unido.

AUMENTO DOS CASOS NA EUROPA E A AMEAÇA NO BRASIL

Internacionalmente reconhecido pelo seu trabalho e diretamente de Londres, Ricardo Petraco, cardiologista brasileiro e pesquisador em doença coronariana na Imperial College de Londres, falou com exclusividade ao O MUNICIPIO acerca dos casos da variante Delta do Sars-CoV-2 que, apesar do avanço da vacinação, não param de crescer no Reino Unido e outras nações europeias. Segundo ele, a cepa pode aumentar com força total no Brasil, já que é altamente contagiosa.

Ricardo Petraco: cardiologista brasileiro e pesquisador em doença coronariana na Imperial College de Londres (Reprodução/Instagram)

O especialista relata que, no Reino Unido, a abertura total ocorreu em 19 de julho e, por lá, o governo adotou uma política de flexibilização, inclusive do uso de máscaras, não sendo obrigatórias mesmo em ambientes fechados, com exceção de transportes públicos e o metro subterrâneo.

“[…] Desde esta implementação […], quando as coisas começaram a se abrir levemente, é que a gente já sabia naquele momento que a variante Delta, que chegou aqui [lá] através da Índia, ia tomar conta das outras cepas por ser mais transmissível, e o que era esperado era um aumento de casos, ou seja, de transmissão comunitária do vírus, que inicialmente se atribuía à população não vacinada. Mas, agora, quanto mais se estuda, mais se sabe que mesmo os vacinados conseguem pegar e transmitir a variante Delta para outros indivíduos […]”, afirmou. Todavia, Petraco aponta que tal fato não transformou-se em aumento de hospitalizações e mortalidade pelo Reino Unido, pela vacinação.

De acordo com o médico, no momento, não existe nenhuma evidência ou sugestão de que a política vai mudar e de que haverá algum tipo de lockdown ou restrição maior. “Porque o que está acontecendo aqui [lá] é um aumento da transmissão do vírus entre os vacinados e não vacinados, sem repercussões no sistema de saúde e na mortalidade. Portanto, a vida segue como normal”, contou.

Cepa é transmissível mesmo entre vacinados

Ricardo Petraco ressalta, ainda, que mesmo indivíduos vacinados conseguem transmitir a doença. “Isso é uma coisa que não se sabia antes e se esperava que a vacinação talvez impedisse a transmissão da doença entre indivíduos vacinados. Mas o que cada vez se aprende é que essa variante Delta consegue ser suficientemente diferente para se tornar ainda um vírus que consegue ser transmitido mesmo em indivíduos vacinados”.

E ele aponta que tal fato, na verdade, não é considerado um problema em populações que têm uma vacinação bastante larga – em termos de proporção da população -, mas isso pode ser um problema se o lockdown for aberto muito cedo e uma proporção muito grande da população não tiver sido vacinada com duas doses.

“Acho que é isso que se especula que possa ser o caso do Brasil, em algumas regiões, quando a abertura está sendo recomendada agora. E a gente pode especular que, se realmente a variante Delta tomar conta destas regiões – e tudo indica que ela vai tomar -, que é impossível de controlar isso, essa variante vai poder infectar indivíduos e, se esses indivíduos não estiverem vacinados com duas doses, eles podem vir a precisar de hospital e a morrer”, alertou.

Petraco ainda diz que, no Reino Unido, aprendeu-se que a variante Delta consegue ser transmitida, mas não causa mortalidade ou morbidade. “Agora, se isso vai ser o mesmo no Brasil ou em outros países que vão se abrir antes da vacinação total ser atingida, não se sabe, mas pode se especular que pode acontecer outra onda da doença, hospitalização e mortalidade, se essa variante se espalhar entre indivíduos não vacinados”, reforçou.

Do ponto de vista pragmático, o especialista diz: “[…] mesmo aqui no Reino Unido, onde a gente está mais avançado em vacinação […], a gente ainda vive uma pandemia de Covid e esta mentalidade ainda deve estar presente na cabeça de todo mundo. E principalmente em países como o Brasil, com a vacinação ainda em andamento, isso é muito mais importante quando o governo ou entidades começarem a liberar uma vida um pouco mais normal. Então, esta normalização da vida não significa que a gente tenha que começar a se descuidar em não lavar as mãos, entrar em ambientes fechados sem máscaras e formar aglomerações sem necessidade”.

E, por fim, Petraco adverte os já vacinados, bem como cidades ou regiões em que os sistemas de saúde estão melhorando e a mortalidade está diminuindo, não podem levar ao entendimento de que a pandemia acabou. “Por enquanto, continuar com medidas de mitigação – claro, vão ser menos restritivas, vão afetar menos a economia -, mas a gente tem que se lembrar que ainda tem esta circulação dessa variante que pode, no futuro, vir a causar problemas”, disse. E finalizou lembrando que toda a comunidade internacional, de cientistas a médicos e a sistemas de saúde, está aprendendo como lidar com o vírus novo e, “na dúvida, a gente tem que sempre ser um pouco mais conservador”.

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