
No dia 2 de fevereiro, São João da Boa Vista perdeu um dos artistas mais completos – Simphorozo Alonso.
Ele estava com 97 anos e, como bem acentua sua filha Yara, até o final do ano passado, desenhava em bico de pena, com precisão e habilidade, driblando inclusive os tremores manuais próprios da idade.
“Eu até incentivava que o papai fizesse algum curso de artes, para aprimorar seu dom. Mas o próprio talento natural dele é que sempre o conduziu, de modo que ele foi descobrindo na prática”, confessou Yara.
Autodidata, Simphorozo Alonso era pintor, escultor, desenhista com bico de pena e de publicidade, quadrinista, mosaicista, enfim, a arte sempre o encontrava e ele, por sua vez, a externava, atento ao detalhe e exigente com o resultado final.
“Eu sou funcionário público aposentado, eu era desenhista de topografia em São Paulo”, revelou, em uma das entrevistas concedidas a Clóvis Vieira, para O MUNICIPIO.
Sobre a ligação com a arte, esta foi despertada ainda na infância, quando gostava de criar figuras em barro.
“Em 1957, a Editora La Selva decidiu publicar histórias em quadrinhos só de artistas brasileiros. Entre os que prestaram o concurso, eu fui um dos escolhidos, junto com mais dois desenhistas”, comentou na ocasião, completando que as edições eram semanais, o roteiro chegava às suas mãos e, em uma semana, era preciso desenhar as sete páginas que lhe cabiam.
“Naquela época, o Maurício de Sousa era repórter policial das Folhas Associadas. Ele queria que eu trabalhasse com ele em período integral, mas eu não podia”, lembrou, referindo-se ao fato de que, por um triz, não fez parte da primeira equipe de criação da Turma da Mônica e demais personagens.
Como topógrafo, trabalhou por 22 anos, embora a arte nunca saísse de perto dele.
Por meio de um livro, Alonso se encantou com as criações do artista Belmonte, em bico de pena e começou a testar a técnica, em casa.
Ao se aposentar do serviço público, pôde dedicar-se por inteiro à escultura, arte esta que ele revelava a preferida.
Seu primeiro trabalho em madeira foi o perfil de Pelé, feito a partir de uma foto recebida em 1969, de um estudante da FEOB que residia em Santos.
De acordo com o artista, Pelé posou especialmente para ele, quando soube que dali sairia uma escultura em mogno.
“Olha só, aqui no verso das fotos. Foi um ano antes da famosa Copa de 1970, quando ele trouxe o tri-campeonato para o Brasil”, mostrou para Clóvis, naquela entrevista.
E foram muitas as grandes mostras de Arte sanjoanenses que Alonso participou, sendo uma das últimas senão a última, em 1989, num prédio que pertencia à Prefeitura, situado na rua Getúlio Vargas.
“Já tive a felicidade de ganhar muitas medalhas de ouro, de prata e de bronze em exposições”, destacou.
Na 32ª Semana Guiomar Novaes, apresentou uma escultura em bronze de uma cabeça de Jesus Cristo coroado com espinhos, na exposição ‘Encontro de Tendências’.
Indagado se São João conhecia o artista Simphorozo Alonso, ele sorriu, com bom humor. “Eu acho que não. (sorrisos). Eu acho que conhece mais ou menos”, disse.




