Dr. João Bueno: amigos, familiares e pacientes relembram momentos vividos ao lado do médico

Em família: (da esq. para dir.), João Francisco (Kiko), dr. João Batista Nogueira Bueno, João Gabriel, Tânia e Beatriz (Divulgação/Arquivo Pessoal)

“O João salvou a minha vida. Não só a minha, mas a de muita gente com hepatite. Ele era o nosso médico, não tinha hora e nem lugar. E nunca cobrou nada”. O depoimento de Sebastião Zanetti resume o legado e como atuou o médico João Batista Nogueira Bueno, falecido no último dia 29 de julho.

Marcado por um espírito extremamente humanista, o médico dedicou a vida para salvar as pessoas. Foi daqueles doutores entusiastas, simples no trato com todos e que colocava o atendimento médico em primeiro lugar. Isso é o que garantem familiares, amigos mais próximos e pacientes que tiveram respaldo do profissional uma vida toda e, na maioria das vezes, sem cobrar nada.

Um dos grandes destaques na atuação como médico, além de ser um exímio cirurgião, foi a dedicação às pessoas com hepatite C.

João Bueno formou-se em Medicina na Universidade de Taubaté (SP), em 1976. De 1977 a 1979, especializou-se em Cirurgia Geral no Hospital Heliópolis, em São Paulo.

No decorrer da carreira, aos 38 anos, o médico foi diagnosticado com hepatite C. O filho mais novo, João Francisco Bueno, conhecido por Kiko Bueno, hoje também médico, lembra que o tratamento do pai era pesado e mesmo assim ele ia trabalhar no dia seguinte. Com as medicações, conseguiu eliminar o vírus e viveu normalmente mais 30 anos.

Em 2005, no entanto, a hepatite voltou a ter espaço na vida do médico, mas dessa vez como uma oportunidade de ajudar pacientes com a doença. Como em São João da Boa Vista não havia especialista na área e todos os doentes eram enviados a Campinas (SP), João Bueno decidiu se especializar em Hepatologia, pela Unicamp.

Foram dois anos de especialização, viajando a cada 15 dias. E detalhe: o filho João Francisco revela que o pai nunca ia de carro, mas sim no ônibus com os pacientes que iam para a Unicamp.

A partir de então, João Bueno, com a experiência que havia passado com a doença e tornando-se um especialista na área, muda a vida de muitas pessoas na cidade.

Os pacientes deixam de ter que se deslocar até Campinas para atendimento e tratamento; o médico sanjoanense passou a ser procurado por todos que eram diagnosticados com a enfermidade. Foram anos dedicados a este trabalho pela rede municipal de saúde.

Mas, mesmo após deixar o serviço público e depois de se aposentar, João Bueno continuou sendo referência para os pacientes. Era o primeiro a ser procurado por muitos, inclusive na própria casa dele. E não cobrava nada pelas consultas.

Sebastião Zanetti lembra quando foi diagnosticado com hepatite C e do amparo que teve de João Bueno. “Eu o procurei e ele me tratou. Eliminei a doença, mas ela voltou. E agora estou finalizando um tratamento com uma droga muito mais moderna que ele me indicou antes de falecer”, contou e ressaltou, novamente, que o médico salvou muita gente com a mesma patologia.

Luiz Carlos Bernardes, hoje com 74 anos, foi outro paciente curado da hepatite C pelo médico e garante que João Bueno era o maior Hepatologista do Estado de São Paulo. “Dr. João lutou e salvou muitas vidas de portadores de Hepatite. Especializado, orientou tratamento e portas de genoma que o retroviral funcionasse. Sou um idoso que ele curou. Sou grato por tudo”, disse, emocionado, nas redes sociais.

Luiz Carlos agradece o médico e diz que ele cumpriu sua missão. “Meu irmão foi morar com Deus. Orientou-me e salvou minha vida”.

Momento de felicidade: dr. João Bueno com um dos netos (Divulgação/Arquivo Pessoal)

HUMILDE E CARIDOSO
Neno Quessa, amigo de mais de 50 anos e um dos criadores do time dos veteranos da Esportiva, lembra com carinho de João Bueno e também ressalta o lado humano do médico.

“Os treinos do time aconteciam às quintas-feiras, no Campo do Pratinha, e a arquibancada muitas vezes acabava virando consultório. O João estava treinando e chegava gente lá em cima atrás dele para consultar, pedir orientação. Ele sempre parava de treinar e ia atender, olhava se os remédios estavam certo e depois do treino passava o receituário. Ele era atencioso, humilde e de um coração digno. Era doutor, mas gostava do povão”, garantiu.

José Dotta Lopes, que conviveu por mais de 40 anos com o médico, também confirma o lado caridoso e humano de João Bueno. “Ele tratou de muita gente sem cobrar nada. Inclusive na casa dele, até à noite. Ele atendia todo mundo e jamais aceitava pagamento. Eu mesmo tantas vezes que precisei dele e falava que ia levar a guia do plano de saúde, ele não aceitava. Uma pessoa maravilhosa, um ser humano que temos poucos nos dias de hoje”, disse o amigo.

Dotta lembra dos atendimentos no Bar do Chico, no Pratinha, às quintas, depois dos treinos de futebol e garante que nunca passou um dia sem atender alguém por ali. “Lá era um verdadeiro consultório. Ele tinha um diagnóstico preciso e nunca cobrou de ninguém que o procurava. No dia que ele morreu, eu liguei para o filho dele e disse que se cada pessoa que ele atendeu rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria, ele já está no céu”.

Descontração: dr. João Bueno com o filho João Francisco (Kiko) (Divulgação/Arquivo Pessoal)

UM GRANDE PAI DE FAMÍLIA
Os três filhos de João Bueno: Beatriz, João Gabriel e João Francisco (Kiko), lembram com orgulho dos ensinamentos deixados pelo pai e do homem simples que ele foi.

“Sempre foi muito protetor, excelente marido. Nunca, independente dos momentos que passamos, faltou nada aqui em casa. Inclusive, ele pagou a faculdade dos três filhos; eu fiz duas”, contou João Francisco.

Mas, para garantir o estudo aos filhos, Kiko ressalta que o pai jamais esbanjou. “Nunca foi de ter carrão de marca, casa luxuosa. Tudo pensando no bem-estar da família. Ensinou que tinha que ter o necessário. Eu falava ‘pai, quero comprar um tênis…’ e ele me perguntava: ‘está precisando?’. Se estivesse, ele comprava; caso contrário não tinha”.

Outra marca importante para o filho mais novo foi a educação que o pai deu. “Nos deu muita educação, muito respeito. Nos ensinava desde a convivência com outras pessoas, a parte de talher, como conviver, cumprimentar e lidar com todos. Muito presente e protetor. Levava a gente para todos os lugares, em meio a pessoas de nível social alto e baixo. Então, a gente cresceu nesse meio e nunca colocando diferença nessa parte. Sempre nos ensinou que todo mundo é igual e merece atenção”, destacou.

Kiko lembra dos últimos pedidos do pai: “Ele falou para eu nunca largar a medicina, que iria me ajudar muito. Me pediu para ter paciência com meus sobrinhos, que fossemos muito unidos e que cuidássemos bem da minha mãe”.

E antes de falecer, disse ao filho: “o pai já viveu de tudo, teve uma ótima vida. Estou com quase 70 anos e está na hora de partir, já cumpri com minha missão”.

Kiko Bueno recorda, ainda, como a casa sempre foi movimentada em razão dos atendimentos do pai. “Nossa casa até tem uma sala para visitas com uma entrada separada. Ali, ele sempre atendia todo mundo que procurava ele, sem nunca reclamar e com muita alegria. Ele pegava a mala dele, atendia e logo a pessoa já ia com o direcionamento do tratamento”, disse, com orgulho.

Esse espírito público e caridoso do médico também é narrado pela filha Beatriz. “Ele nunca foi materialista, sempre pensava no bem do próximo. Não tinha preconceito com nada. Minha mãe falava que a sala de casa parecia o INSS. Não cobrava de ninguém e quando teve consultório particular, mandava a secretária devolver o dinheiro para o paciente”.

Como pai, Beatriz diz que quando ela e os irmãos eram crianças, o médico era muito bravo e um pouco ausente, pois dava muitos plantões. Mas, com o passar do tempo tudo foi mudando. “Depois que ficamos mais velhos, ele ficou muito preocupado, queria fazer pela gente, sempre nos ajudou em tudo que podia. Meu marido o tinha como pai. Como avô então, super ‘coruja’, ia buscar os meninos na escola, levava na fisioterapia, natação, me ajudava a levá-los ao médico, jogava bola, cuidava. Nunca quis nada para ele, mas para nós fazia de tudo”.

Um gesto do pai que marcou para Beatriz foi em um churrasco no Ferro Velho de um amigo. “Lembro em um churrasco ele tirando a blusa dele de frio e dando para o seu Lúcio. Ele era assim”.

Já o filho mais velho, João Gabriel, afirma que o pai é o espelho dele. “Não tenho a pretensão de chegar a ser nem metade do que ele foi, mas estou sempre seguindo os passos dele. Sempre vendo o modo dele tratar as pessoas, na simplicidade que ele tratava todo mundo, independente da classe social. Sempre ajudando, nunca pensando na parte financeira e sempre pensando em resolver o problema”.

Pai e filho: dr. João Bueno e dr. João Gabriel salvando vidas (Divulgação/Arquivo Pessoal)

João Gabriel revela que a atuação do pai e seu modo de ser que o motivaram a também fazer medicina. “Ele foi o espelho que me motivou a fazer medicina e a querer ter essa forma que ele tinha de lidar com o paciente e com os outros. Aquela coisa boa de estar andando com ele na rua e sempre alguém vinha agradecê-lo de alguma ajuda. Sempre alguém vinha cumprimentá-lo. E sempre ele fez sem querer tirar vantagem ou se vangloriar disso. Uma pessoa muito simples e humilde. Não tinha vaidade e sempre pensava no bem-estar do outro. Quero seguir os passos dele”, garantiu.

E João Gabriel conseguiu se formar e atuar junto com o pai, inclusive em cirurgias. “Ali era uma realização minha, de estar com meu pai, de estar dividindo o mesmo local de trabalho, de estar operando com ele. E acredito que da parte dele também uma sensação de dever cumprido, de tudo que batalhamos juntos. Me deixa feliz que, mesmo ele partindo um pouco cedo, deu para ele ficar realizado com essas pequenas coisas que a gente fazia junto”.

Posto de Saúde terá nome de João Bueno

Na última semana, o prefeito Vanderlei Borges de Carvalho (MDB) enviou Projeto de Lei à Câmara Municipal dando o nome à nova unidade de saúde da Vila Primeiro de Maio de Dr. João Batista Nogueira Bueno, em homenagem ao médico. Segundo informações, o espaço deve ser inaugurado no final deste ano.

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