Médica aborda polêmico uso de medicamento contra Covid-19

(Reprodução)

Na segunda-feira (25), a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou a suspensão de ensaios com o uso da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus (Covid-19) até que a eficácia do medicamento seja reavaliada, já que estudos recentes mostraram que ela não é segura e pode aumentar a taxa de mortalidade.

Dias antes do pedido de suspensão – também proposto pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) ao Ministério da Saúde (veja ao lado) -, a médica pediatra e gastropediatra Maria Raquel M. Garutti Yazbek comentou sobre a polêmica envolvendo o uso da hidroxicloroquina/cloroquina.

À reportagem, a especialista afirmou que são substâncias de uso controlado com efeito imunomodulador, comumente usado para tratar doenças autoimunes, como artrite reumatoide, lúpus e também para tratar a malária. “Para indicar a cloroquina/hidroxicloroquina é preciso uma avaliação médica cautelosa e estudar as alternativas corretas para cada paciente”, disse.

Também destacou que, pelo fato da Covid-19 ser uma doença ‘nova’, muitas pesquisas e estudos ainda estão sendo realizados e, até o momento, não há nenhuma comprovação da eficácia do uso. “Ainda se discute muito os riscos para o paciente. Por isso, cabe ao médico, juntamente com o paciente e familiares, escolher a melhor opção diante de cada caso. O que sabemos é que alguns pacientes se recuperam muito bem e outros podem ter efeitos colaterais graves, até mesmo vir a óbito. Por isso, as pesquisas ainda não foram totalmente conclusivas”, alertou.

Quanto aos efeitos colaterais, a pediatra cita que o paciente pode apresentar cefaleia (dor de cabeça), distúrbios de visão, irritação gastrointestinal, alterações cardiovasculares e neurológicas, fadiga, nervosismo, exantema cutâneo, prurido e queda de cabelo.

“Mas esses [efeitos colaterais] são questionáveis, já que alguns pacientes podem ter uma predisposição para evoluir com tais efeitos e alguns [pacientes], que necessitam do uso crônico do medicamento, não apresentam efeitos adversos e se dão muito bem com a medicação”, ponderou, acrescentando que depende muito de cada indivíduo, tempo de uso, dosagem e, principalmente, da avaliação do médico, que é fator fundamental.

POLÊMICA
Quanto à polêmica gerada em torno do uso desses medicamentos e suas aplicabilidades, Maria Raquel pontuou que esta se dá justamente por ser um vírus novo, sobre o qual ainda não se teve tempo hábil para apresentação de estudos conclusivos.

“Não podemos afirmar nada até que pesquisadores consigam apresentar números que comprovem o benefício ou não da cloroquina para pacientes com Covid-19”, disse.
Como pediatra e gastropediatra, ela não aconselha automedicação, seja com cloroquina ou com qualquer outro remédio.

“O medicamento que é a salvação para uns pode ser fatal para outros. Por isso, todo medicamento deve ser receitado pelo médico, após consulta e avaliação de caso. Estamos vivendo tempos de muitas informações desencontradas, justamente porque ainda não há comprovação científica, não há vacina e os tratamentos não são 100% garantidos. Vivemos uma crise mundial de saúde e não podemos confundir com a crise política”, alertou.

E lembrou que, neste momento, é preciso ser muito racional e colocar a vida em primeiro lugar. “O profissional de saúde deve estar engajado em tratar com humildade, paciência e solidariedade, tanto o paciente quanto a família dele, estudar e estar atualizado, pois todos os dias, informações novas estão surgindo”, finalizou.

Conselho pede suspensão

Na sexta (22), o Conselho Nacional de Saúde (CNS) pediu a suspensão das orientações do Ministério da Saúde que recomendam o uso de cloroquina para casos leves de Covid-19. Em nota, o Conselho reforçou que não há eficácia comprovada para prevenção ou tratamento da doença.

Um dia antes, na quinta (21), o Ministério divulgou uma nova versão do documento técnico no qual recomenda que médicos receitem a cloroquina e a hidroxicloroquina mesmo em casos leves de Covid-19.

O CNS justificou que as orientações da pasta da Saúde não se baseiam em evidências científicas e faz referência a estudos criticados pela comunidade científica.

A entidade pediu que o “governo federal desempenhe seu papel na defesa da ciência e a redução da dependência de equipamentos e insumos, construindo uma ampla e robusta produção nacional”. Além disso, foi enviado um pedido ao Ministério Público Federal (MPF) para que o órgão fiscalizador atue em ‘defesa da sociedade brasileira’.

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