
A comissão de estudos formada para definir a real data de fundação de São João da Boa Vista entregou, na última terça-feira (18), o relatório final ao prefeito Vanderlei Borges de Carvalho (MDB).
Os membros, após estudos e votação unânime, entenderam que São João foi fundada em 1824 pelo monsenhor João Ramalho, data que foi comemorada tradicionalmente por mais de 150 anos.
A comissão, nomeada pelo prefeito por meio da portaria nº 12.638, de 3 de janeiro deste ano, foi criada exatamente em razão da divergência da data de fundação da cidade, entre os anos 1821 e 1824.
Em reunião realizada no dia 14 de janeiro, foram analisadas e discutidas diversas publicações e documentos relativos ao tema para o esclarecimento do assunto e os membros decidiram que a data correta é 1824.
Os membros da comissão foram Jaime Splesttoser Júnior, historiador e escritor; Antonio Carlos Rodrigues Lorette, professor universitário e historiador; Rodrigo A. Rossi Falconi, médico, escritor e historiador; João Batista Scanapiecco, professor, escritor e historiador; Waldemir Sanches Carbonara, professor e pesquisador; Lucelena Maia, presidente da Academia de Letras de São João; Ana Lúcia Sguassabia Silveira Finazzi, pesquisadora; Reinaldo Rehder Benedetti, jornalista e servidor público municipal; Hélio Correa da Fonseca Filho, diretor do Departamento Municipal de Cultura.

A DIVERGÊNCIA
A história de São João da Boa Vista foi escrita em diversos livros, almanaques e edições especiais de jornais locais, desde o ano de 1873. Ao todo, eles somam quase 20 publicações.
Em apenas um destes materiais a fundação de São João diverge do ano de 1824 e envolve outros personagens.
Em todas as demais publicações, o fundador da cidade é considerado monsenhor João Ramalho, no ano de 1824. Isso é o que diz, por exemplo, o Almanak da Província de São Paulo, de 1873, organizado e publicado por Antônio José Batista de Luné e Paulo Delfino da Fonseca; o livro ‘O Município de São João da Boa Vista’ na Exposição Nacional de 1908, organizado por Carlos Kiellander; o livro ‘Subsídios à História de São João da Boa Vista’, escrito pelo dr. Theophilo de Andrade; a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, organizada por Jurandir Ferreira e publicada pelo IBGE em 1958; o livro ‘História Administrativa e Política de São João da Boa Vista’, de 1970, do dr. José Osório de Oliveira Azevedo; o livro ‘Alemães, suecos, dinamarqueses e austríacos em São João da Boa Vista’, de 2003, de Jaime Splettstoser Junior; entre tantas outras publicações.
O próprio jornal O MUNICIPIO publicou, em 1910, material que também contava a história da fundação de São João como sendo em 1824 e tendo monsenhor João Ramalho como personagem principal.
No entanto, a história começa a ter divergência após a publicação do livro ‘História de São João da Boa Vista’, em 1976, escrito por Maria Leonor Alvarez Silva.
A escritora introduz a figura do guarda-mor Antônio Dias de Oliveira e sua esposa Ana Maria Franco como compradores, em 1817, da Fazenda Campo Triste, que pertencia a José Dutra, e que para lá se mudaram em 1821. Cita que a família foi recenseada em 1822.
A autora diz ainda que em 1830 alguns moradores da Fazenda Campo Triste quiseram formar vila, o que não foi permitido pela viúva do guarda-mor. Ela recorreu ao juiz de Paz de Mogi Guaçu e ganhou a causa, recebendo, os agregados, ordem para se retirarem no prazo de um ano, o que na realidade não acabou acontecendo.
Na página 8 de seu livro, Maria Leonor diz: “Podemos afirmar sem receio de engano que foi em 1830 que surgiu o primeiro ensaio urbanístico daquilo que viria a ser a cidade de São João da Boa Vista, pois as datas são claras no documento encontrado em Mogi Guaçu. Daí o fato irreversível, São João da Boa Vista nasceu no ano de 1830, por ter aquele grupo de agregados da Fazenda Campo Triste desejado formar vila”.
Na página 28, concluindo o capítulo sobre Antônio Manoel de Siqueira (Machado), Maria Leonor diz que ele foi o primeiro doador de terras para o patrimônio da então freguesia.
Na página 372, afirma que o padre Ramalho não se encontrava ainda na região quando os agregados da fazenda Campo Triste quiseram formar vila (1830).
E termina seu livro (pág. 533) dizendo: “Esses os nomes de alguns ramos, descendentes dos fundadores de São João da Boa Vista, chegados no então ‘sertão do Jaguari’, onde se localizava sua propriedade ‘Campo Triste’, em meados do ano de 1821. O guarda-mor votou em 20 de maio, em Campanha, e veio para o seu latifúndio, comprado a herdeiros de José Dutra, em 1817”.
Diante das informações trazidas pela escritora e pela influência que tinha na época, pois era editora do jornal O MUNICIPIO, a história de Maria Leonor começa a aparecer nas propagandas de felicitações pelo aniversário da cidade, publicadas nos jornais locais.
A divergência tem início e, com o passar dos anos, a data de 1821 passa a ser usada como oficial e até hoje é utilizada como base para as comemorações do aniversário da cidade.

ENTENDIMENTO
A Comissão formada para definir a real data de fundação de São João não concordou com a história narrada por Maria Leonor por alguns motivos. Dentre eles o fato de todas as outras publicações, cerca de 18, trazerem a figura do Monsenhor João Ramalho como fundador e a data de 1824.
Outro aspecto apontado pelos membros da comissão é que a Fazenda Campo Triste, narrada pela escritora como sendo o local de fundação de São João pelo guarda-mor, fica nas proximidades do pedágio da Rodovia que liga São João a Aguaí, local onde até hoje a área urbana de São João não chegou. “Se aquele local realmente fosse o início da fundação da cidade, São João deveria ter se desenvolvido a partir dali. Mas, até hoje a cidade não chegou nesta fazenda”, alertaram alguns membros.
Outro fato curioso observado pela comissão é que a própria Maria Leonor, antes de publicar seu livro, não acreditava na data de 1821 como fundação da cidade. Isso é possível constatar no histórico da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, de 1958, escrito por ela.
Naquela ocasião, Maria Leonor afirmava que as terras que formam hoje o município de São João foram ocupadas por Antônio Manoel de Oliveira, vulgo Antônio Machado, e seus cunhados vindos de Itajubá no ano de 1822 ou 1824. Dizia ainda que Antônio Machado doou o terreno para o patrimônio da futura povoação e a capela foi erguida sob o patrocínio do padre João José Vieira Ramalho, sendo que a escritora considerava o padre Ramalho o verdadeiro patrono do município.
A comissão também descartou a possibilidade de o guarda-mor ser considerado o fundador da cidade pelo fato de ter se estabelecido na Fazenda Campo Triste no ano de 1821. Isso porque antes da sua chegada naquela localidade, José Dutra e sua família já habitavam o local.
Isso é o que demonstram documentos presentes no relatório da comissão. José Dutra e sua família e alguns escravos foram recenseados, em 1798 e novamente em 1799, pelas Companhias de Ordenança de Mogi Guaçu. Portanto, esta pode ser considerada a primeira família a se estabelecer na região de São João da Boa Vista e não o guarda-mor, que adquiriu as terras dos herdeiros de José Dutra.
Diante de tudo que o foi exposto, a comissão decidiu que o ano de fundação de São João deve ser considerado o de 1824, restabelecendo a tradição que perdurou por mais de 150 anos e testemunhada oralmente por moradores pioneiros.
PROVIDÊNCIAS
O prefeito Vanderlei Borges de Carvalho recebeu o relatório da comissão na última terça-feira (18) e disse que vai elaborar um projeto de lei para acabar de vez com a divergência.
O projeto será enviado à Câmara Municipal e, caso aprovado, São João terá oficialmente e pela primeira vez na sua história, sua data de fundação estabelecida por lei.
Outra mudança será na ‘idade’ do município, que completaria, de acordo com as comemorações dos últimos 30 anos, 199 anos em 2020. Mas, como a data referência neste período foi 1821, São João ficará mais nova a partir deste ano.
Desta maneira, em 24 de junho de 2020, São João passa a comemorar 196 anos, respeitando a tradição de mais de 150 anos e a grande maioria das obras escritas por historiadores da cidade.




